Pavel Golovkin/Associated Press
Pavel Golovkin/Associated Press

Apesar dos problemas da Rússia, influência de Putin ainda é forte

Sua economia está com problemas e seus jovens estão frustrados, mas com os EUA e a Europa tumultuadas, a Rússia segue poderosa

Andrew Higgins, The New York Times

26 de dezembro de 2019 | 06h00

MOSCOU - Sua economia, menor do que a da Itália, pode estar fraquejando, mas, vinte anos depois de um antigo espião da KGB, praticamente desconhecido, chegar ao topo do poder no Kremlin, no dia 31 de dezembro de 1999, a Rússia e o seu presidente, Vladimir Putin, podem se gabar do seu melhor ano.

Os Estados Unidos, atualmente governados por um presidente determinado a “se dar bem com a Rússia”, estão convulsionados e preocupados com o impeachment; a Grã-Bretanha, o outro principal pilar da aliança transatlântica, que Putin tratou de minar, também está voltada para seus problemas internos com o Brexit.

O Oriente Médio, onde a influência americana e britânica outrora reinou suprema, agora pende para o lado de Moscou, que virou a corrente da guerra na Síria. A Rússia forneceu à Turquia, um membro da OTAN, sistemas avançados de mísseis, e assinou contratos no valor de bilhões com a Arábia Saudita, a maior aliada dos Estados Unidos no mundo árabe. Também se aproximou do Egito, outro aliado americano, que passou a ser um ator fundamental na guerra civil da Líbia, e procurou uma aliança com a China.

Como foi possível que um país como a Rússia, de dimensões enormes, mas insignificante em vários sentidos, tenha se tornado uma potência? “Quando a União Soviética entrou em colapso, todos se fizeram a mesma pergunta”, lembra Nina Khrushcheva, neta do líder soviético Nikita Kruchev: “Como é possível que um sistema tão podre tenha ido tão longe, tão além de suas possibilidades?”

O Ocidente, disse Nina, muitas vezes não entendeu a Rússia. Putin, ela prosseguiu: “É, ao mesmo tempo, um tecnocrata e um fanático religioso, um exibicionista, e guarda muitos segredos. A gente espera uma coisa, em termos lineares, e de repente é algo completamente diferente, tudo fumaça e espelhos”.

Quando o primeiro presidente da Rússia eleito pelos métodos democráticos, Bóris Yeltsin, passou o poder a Putin, na Rússia reinava o caos. A economia do país estava arruinada  em razão do colapso pós-soviético, suas forças militares eram tão fracas que haviam perdido uma guerra na minúscula Chechênia; a população estava tão desiludida com as promessas de Yeltsin de um alvorecer do capitalismo que havia eleito um parlamento repleto de comunistas e tipos estranhos.

Uma entrevista com a antiga professora de biologia de Putin no secundário revelou que o ditado russo, “a esperança é a última que morre”, ainda era válido. Ela lembrou que Putin não era apenas um estudante diligente, mas também um bom jogador de basquete porque “era muito alto”.

O fato de o pequeno presidente ter crescido e se tornado um gigante é uma característica que define o governo de Putin: sua capacidade de apresentar a si mesmo e à Rússia como mais poderosos do que os fatos justificam. “Talvez ele tenha cartas fracas, mas parece não ter medo de jogar mesmo assim”, disse Michael McFaul, ex-embaixador americano em Moscou. “É isto que torna Putin tão assustador”. Como Putin disse em uma entrevista com o diretor Oliver Stone: “A questão não é ter muito poder, mas usar o poder que se tem da maneira certa”.

Putin esmagou uma rebelião na Chechênia, que visitara horas antes de assumir a presidência em uma espécie de bravata. Ele modernizou as forças armadas e controlou os oligarcas que, com Yeltsin, haviam feito o possível para desacreditar o capitalismo e a democracia. E cultivou um bando de oligarcas leais ao Kremlin.

Gleb Pavlovsky, que foi assessor no Kremlin por dez anos, disse que sob Putin a Rússia o faz lembrar de um exoesqueleto como o dos filmes de ficção científica. No seu interior, há uma pessoa pequena, fraca e talvez assustada, mas do lado de fora, ela parece aterrorizante”.

A Rússia tornou-se uma estrela guia para os autocratas mundiais, um pioneiro da mídia e de outros instrumentos - conhecidos na Rússia como “tecnologias políticas” - e estes líderes agora desceram a campo. Quaisquer que sejam os seus problemas, disse Vladislav Surkov, por muito tempo assessor do Kremlin, a Rússia criou “a ilusão do futuro”, dispensando a “ilusão da escolha” oferecida pelo Ocidente, e aderindo à vontade do líder único.

Nem todos os russos estão convencidos da grandeza de Putin, particularmente os jovens de Moscou e São Petersburgo, que realizaram protestos no verão. Mas as forças de segurança rapidamente puseram fim a isto, usando a força bruta, e o índice de aprovação de Putin em todo o país hoje está em 70%. O verdadeiro ponto de virada, disse Pavlovsky, ocorreu em 2008, com o colapso financeiro.

“Antes  disso, ele se voltou para os Estados Unidos. De fato, ele não gostava absolutamente do que os americanos estavam fazendo no mundo todo, mas mesmo assim considerava os EUA a economia mais forte que lidera o sistema econômico mundial. E de repente, descobriu: “Não, eles não estão liderando nada”.

Esta, segundo Pavlovsky, “foi a hora da verdade”, quando “as antigas normas desapareceram totalmente. Desde então, a Rússia criou normas próprias. “As coisas simplesmente não são como você pensava que fossem, como você queria que elas fossem, como você esperava que elas fossem’, afirmou. / TRADUÇÃO DE ANNA CAPOVILLA

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