Finbarr O’Reilly para The New York Times
Finbarr O’Reilly para The New York Times

Eleições em Madagascar são alvo de influência do governo russo

Rússia interfere em outra eleição, dessa vez buscando recompensa financeira

Michael Schwirtz e Gaelle Borgia, The New York Times

23 de novembro de 2019 | 06h00

ANTANANARIVO, MADAGASCAR - Era difícil não reparar nos russos. Eles chegaram subitamente no ano passado à capital de Madagascar, trazendo dinheiro e know-how de campanha a serem empregados em nome do presidente do país. Foi uma das operações russas de interferência eleitoral mais escancaradas já vistas até hoje.

Trabalhando a partir do seu quartel-general em um resort, os russos publicavam seu próprio jornal no idioma local e contrataram estudantes para escrever artigos a respeito do presidente para ajudá-lo a garantir a reeleição. Burlando a lei eleitoral, eles compraram tempo nas emissoras de TV e cobriram o país de cartazes.

Pagaram jovens para que frequentassem comícios, e jornalistas para que cobrissem os eventos. Chegaram com guardas-costas armados nos escritórios de campanha para subornar concorrentes e convencê-los a desistir da eleição, abrindo caminho para o seu candidato. As autoridades da comissão eleitoral de Madagascar ficaram alarmadas.

De todos os lugares onde a Rússia poderia promover uma operação para mudar o resultado de uma eleição, Madagascar talvez seja um dos mais inesperados. O país insular na costa do sudeste africano tem pouco valor estratégico aparente para o Kremlin ou para o equilíbrio global do poder. Mas, dois anos após a agressiva interferência dos russos nos Estados Unidos, eles se mostraram determinados a expandir sua influência e aplicar seu tipo caraterístico de interferência eleitoral em um distante campo de batalha político.

A operação foi aprovada pelo presidente Vladimir Putin e coordenada por algumas das mesmas figuras que supervisionaram a campanha de desinformação envolvendo a eleição para a presidência dos EUA em 2016, de acordo com dúzias de entrevistas com autoridades de Madagascar, agentes locais contratados para participar da campanha russa e documentos internos produzidos pelos agentes russos.

A interferência em Madagascar começou semanas depois de Putin ter se reunido com o presidente do país, Hery Rajaonarimampianina, em Moscou no ano passado. O encontro, que nunca foi relatado, também incluiu Yevgeny Prigozhin, confidente de Putin que foi indiciado nos EUA por ajudar a orquestrar os esforços russos para manipular o resultado das eleições de 2016 no país, de acordo com Rajaonarimampianina e outro ministro do governo presente na viagem a Moscou.

Mas se os esforços russos nos EUA se encaixam na campanha de Moscou contra as democracias ocidentais, a operação em Madagascar pareceu frequentemente ter um objetivo muito mais simples: o lucro. Antes da eleição, uma empresa russa que as autoridades locais e diplomatas estrangeiros dizem ser controlada por Prigozhin comprou uma grande participação em uma empresa administrada pelo governo dedicada à mineração do cromo. A aquisição levou a protestos por parte de trabalhadores que se queixavam de salários atrasados, benefícios cancelados e interferência estrangeira.

“Prigozhin teve muito sucesso em 2016, e se tornou o sujeito que todos observam agora", disse Paul Stronski, pesquisador sênior do Carnegie Endowment for International Peace. “Ele tem agentes no país, pessoas oferecendo serviços em diferentes países da África. São países com líderes de estilo autoritário que precisam de alguma ajuda para vencer. E, em troca, ele recebe acesso a algumas das melhores oportunidades econômicas.”

Mas a interferência russa no exterior está longe de ser infalível. Apesar de tantos esforços, a operação em Madagascar errou o alvo no começo, afetada pela corrupção e incompetência. Materiais de campanha estavam repletos de erros gramaticais. Canetas esferográficas produzidas como brinde de campanha tinham um erro na grafia do nome de Rajaonarimampianina.

Conforme se tornou claro que Rajaonarimampianina tinha pouca chance de vencer, mesmo com sua ajuda, os agentes russos logo pularam do barco, dispensando o presidente e oferecendo seu apoio ao candidato que acabaria vencendo o pleito, Andry Rajoelina. Depois da guinada russa apoiando Rajoelina a vencer as eleições, a empresa de Prigozhin pôde negociar com o novo governo para manter o controle das operações de mineração do cromo, apesar dos protestos dos trabalhadores.

Antes de mudar de lado, os russos tinham contratado funcionários no país para que escrevessem artigos criticando Rajoelina, de acordo com uma pessoa que trabalhou para eles. Rajoelina não quis comentar as alegações, mas um funcionário da campanha dele disse que sua equipe estava ciente do dinheiro oferecido pelos russos a outros candidatos.

No fim, os russos ficaram com a operação de mineração. Agora eles mantêm uma equipe de 30 funcionários no país, e o contrato lhes garante participação de 70% no empreendimento, disse Nirina Rakotomanantsoa, diretor administrativo da empresa dona da parcela restante.

“O contrato já foi assinado", disse ele. “Sou grato aos russos por estarem aqui.” Em um momento de incerteza, Yevgeny Kopot, funcionário de Prigozhin que parece desempenhar a função de coordenador de operações em diferente países africanos, enviou uma mensagem de texto a uma colega em Madagascar em janeiro.

“Acha que estamos manchando o nome do nosso país?”, indagou ele, de acordo com textos obtidos pela organização de pesquisas Dossier Center, com sede em Londres. A colega disse a ele que não se preocupasse. “Se pensar bem, o mundo inteiro está manchado. Não é o planeta em si, mas a humanidade". Gaelle Ramamonjisoa e Prisca Rananjarison contribuíram com a reportagem. / TRADUÇÃO DE AUGUSTO CALIL

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