Brendan Hoffman para The New York Times
Brendan Hoffman para The New York Times

Rússia pressiona importante porto na Ucrânia e eleva tensão política

Ataque russo a navios da marinha ucraniana mostra vulnerabilidade de Kiev

Andrew Higgins, The New York Times

21 de dezembro de 2018 | 06h00

MARIUPOL, UCRÂNIA - O prolongado ruído do atrito entre Ucrânia e Rússia ainda faz tremer as janelas na cidade portuária de Mariupol, um lembrete da linha de frente congelada há três anos a poucos quilômetros da cidade. Mas, para o futuro da cidade e da Ucrânia, a maior preocupação no momento não é o barulho abafado dos combates esporádicos nos arredores, e sim o alarmante silêncio que tomou o vasto porto de Mariupol depois que a Rússia deteve três pequenas embarcações ucranianas e 24 marinheiros em novembro, limitando os transportes marítimos.

“Não é uma brincadeira. Não é um filme de Hollywood. Temos uma situação muito séria", disse o ministro ucraniano da infraestrutura, Volodymyr Omelyan, durante visita recente ao silencioso porto no Mar de Azov, sem nenhum navio de grande porte além da embarcação militar de quase 50 anos que funciona como nau capitã da pequena marinha ucraniana.

Mariupol está no centro de uma disputa entre a Rússia e o Ocidente pelo futuro da Ucrânia, e pela interpretação das regras que governam os mares. Para alguns, ao confrontar a marinha ucraniana e impor restrições ao transporte marítimo, a Rússia busca reescrever as regras no Mar de Azov.

O policiamento de fronteira da Ucrânia informou recentemente que, depois de um relaxamento nas restrições, a Rússia voltou a prejudicar substancialmente o tráfego marítimo chegando a e partindo de Mariupol e do porto ucraniano de Berdyansk sob a ponte de acesso à Crimeia. Foi dito que mais de 100 navios aguardavam permissão russa para atravessar o Estreito de Kerch, passagem marinha pouco conhecida que agora faz companhia ao Estreito de Hormuz na lista de gargalos marítimos disputados.

Mas um relatório emitido por Andrii Klymenko, diretor de um grupo de pesquisas independente em Kiev que monitora o tráfego marítimo, indicou que o policiamento de fronteira ucraniano tinha inflado o número de navios na fila. Ele disse que o problema não é mais o bloqueio da passagem por parte dos russos, e sim o fato de os donos dos navios terem parado de enviar suas embarcações a Mariupol com medo de agressões anteriores por parte da Rússia e alarmados com as intenções do país.

Ele previu que, nos próximos dias, o porto da cidade ficaria vazio “por causa dos temores dos donos dos navios". O medo deixa claro como é fácil para a Rússia pressionar Mariupol e a Ucrânia em diferentes graus de intensidade.

A Ucrânia, às vezes, exagera muito a situação, o que só aumenta a sensação de incerteza. O ministro da infraestrutura, por exemplo, comparou recentemente o presidente russo Vladimir Putin a Hitler durante sua visita a Mariupol, alertando que a Rússia pretende invadir não apenas a Ucrânia, mas também a Europa Ocidental.

Mariupol fica em uma das 10 regiões atualmente sob lei marcial, declarada pelo presidente da Ucrânia, Petro Poroshenko, em resposta ao conflito no mar. O tenente-coronel Volodymyr Levandovskyi, comandante do centro de recrutamento de Mariupol, tem chamado os reservistas para exames médicos na expectativa de uma eventual mobilização convocada pelo governo. “Posso afirmar com 100% de certeza que esta cidade não será tomada", disse ele.

Não se sabe ao certo se a Rússia ou seus satélites no leste da Ucrânia têm intenção real de tentar tomar Mariupol, como em 2014 e 2015 - é a maior cidade ucraniana no Mar de Azov. Mas, recentemente recuperada de esforços anteriores para mantê-la como parte da Ucrânia, a cidade corre o risco de agonizar lentamente diante da interrupção do tráfego para seu porto. “Uma cidade pode sobreviver se perder o equivalente a um braço ou uma perna, mas o porto é o coração de Mariupol", disse Marina Pereshivaylova, administradora veterana do porto de propriedade estatal.

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