Max Avdeev para The New York Times
Max Avdeev para The New York Times

Russos acumulam dívidas conforme salários encolhem

Uso de cartões de crédito para pagar o aluguel aponta para a proliferação dos empréstimos

Andrew E. Kramer, The New York Times

13 de agosto de 2019 | 06h00

MOSCOU - Yekaterina V. Bulgakova falava entusiasmada a respeito do apartamento de um único cômodo que ela e o namorado dividem, e em especial a respeito do fato de sempre conseguirem pagar o aluguel usando o cartão de crédito.

“Nossos salários não são suficientes” para pagar pela moradia, alimentação e outras necessidades do mês, disse Yekaterina, que trabalha como tatuadora.

Ela ganha cerca de 35.000 rublos, ou cerca de US$ 560, por mês. O namorado, um cadete da marinha, recebe um soldo mensal de US$ 480. Somada, a renda do casal está acima do salário médio na Rússia, equivalente a aproximadamente US$ 735, e costuma ser suficiente para as despesas dos dois. Mas, de tempos em tempos, Yekaterina enfrenta uma queda na atividade. É então que ela recorre ao cartão de crédito do Tinkoff, um grande banco particular.

“Ninguém quer ficar endividado", disse Yekaterina, que tem 21 anos. Mas milhões de russos estão se vendo justamente nessa situação, suscitando uma grande expansão no crédito ao consumidor.

As autoridades de política econômica destacam que um número cada vez maior de russos está recorrendo a uma rápida passada do cartão ou à antecipação de recebimentos para lidar com as dificuldades causadas pelas sanções ocidentais e a queda no preço do petróleo, uma das principais commodities exportadas pelo país. Os gastos levantaram a economia, mas o crescente endividamento do consumidor pode precipitar uma recessão.

Desde o início das intervenções militares russas na Ucrânia e as sanções que se seguiram, o endividamento pessoal entre os russos praticamente dobrou, de acordo com o banco central do país. A dívida média por pessoa chegou ao patamar de cerca de US$ 3.300, de acordo com a Associação Nacional de Agências Profissionais de Cobrança.

Alguns economistas dizem que a indústria de crédito pessoal encontrou uma grande oportunidade em uma população que praticamente não tinha dívidas ao entrar na era capitalista, uma geração atrás. Outros alertam que a expansão da indústria é insustentável.

Muitos daqueles que usam o cartão de crédito pela primeira vez têm pouca experiência na gestão de dívidas. E observam também o declínio de seus salários ajustados pela inflação.

A presidente do banco central, Elvira S. Nabiullina, deu pouca importância ao problema e impôs restrições para desacelerar os empréstimos ao consumidor. “É um erro pensar que já vemos riscos para a estabilidade financeira ou o início da formação de uma bolha", disse ela recentemente.

Mas o banco elevou os requisitos que determinam a quantia que os bancos devem destinar à garantia contra moratórias, e limitou os juros da antecipação de vencimentos a 1% ao dia, que ainda totalizam pesados 30% mensais.

Os lares de baixa renda gastam em média 8% do ganho mensal com o pagamento de dívidas, de acordo com o banco central. A maioria dos endividados tem idade entre 25 e 35 anos, e solicita mais de três empréstimos de fontes diferentes, disse Vladimir Tikhomirov, economista-chefe da BCS Global Markets.

No primeiro trimestre, a renda real teve queda de 2,3% ante o mesmo período do ano anterior. Os novos empréstimos ao consumidor sem garantias aumentaram 22%. Os bancos do governo foram responsáveis pela emissão de aproximadamente 70% desse crédito, de acordo com relatório do banco central, indicando que o Kremlin patrocinou, ao menos em parte, o crescente endividamento.

No fim de 2018, havia 2.002 empresas de antecipação de recebimentos na Rússia, muitas delas operando a partir de escritórios e oferecendo empréstimos de um mês com juros diários e compostos. Os bancos oferecem empréstimos e cartões de crédito após um rápido processo de aprovação.

Na rede social Vkontakte, os russos demonstram sua ingenuidade e inexperiência na gestão de dívidas. Uma usuária, que se identificou apenas como Helga, escreveu pedindo orientação jurídica gratuita. “Respeitáveis advogados! Tenho a oportunidade de fazer um empréstimo de três a cinco milhões” de rublos, ou algo entre US$ 48.000 e US$ 80.000. “Se eu aceitar a oferta, quitar algumas parcelas da dívida e em seguida declarar falência, quais problemas posso enfrentar?” 

A realidade é que os agentes de cobrança são reconhecidamente violentos. O estado permite que meirinhos entrem nos lares para confiscar televisões e outros bens de valor para quitar dívidas. Os inadimplentes podem se ver proibidos de viajar ao exterior.

Por enquanto, Yekaterina quitou suas dívidas no prazo. “Sou grata por ao menos manter meu estilo de vida” usando o cartão de crédito, disse ela. “Mas seria melhor nem precisar dele.” / TRADUÇÃO AUGUSTO CALIL

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