Chang W. Lee/The New York Times
Chang W. Lee/The New York Times

As golas de Ruth Bader Ginsburg e o significado que vai além de um acessório de moda

Ginsburg sabia que cada gesto seu, cada imagem, seriam notados e dissecados. Portanto, todas tinham de ser imbuídos de significado, mesmo se tivesse a ver apenas com seus acessórios

Vanessa Friedman, The New York Times - Life/Style

25 de setembro de 2020 | 05h00

Em 2014, a juíza da Suprema Corte Ruth Bader Ginsburg, uma pioneira no campo legal e defensora do tratamento igual dos sexos que faleceu na semana passada, fez algo que provavelmente nenhum dos seus colegas jamais imaginariam. Ofereceu um tour do closet do seu gabinete.

Foi durante uma entrevista concedida a Katie Couric, depois de a juíza apresentar seu voto dissidente na decisão do processo Burwell versus Hobby, em que a Corte respaldou tese da companhia contestando artigo do Affrordable Care Act, que determina que as empresas que pagam um plano de saúde para os empregados cubram os custos de contracepção, alegando motivos de liberdade religiosa.

Ao abrir as imponentes portas de madeira do seu guarda-roupa, a juíza mostrou, de um lado, as longas togas pretas usadas no tribunal e, de outro, tomando mais da metade do espaço, sua grande coleção de colares e golas elaboradas. Elas vinham, disse, “do mundo inteiro”.

Tinha uma para cada ocasião e para qualquer tipo de manifestação na Corte. Do mesmo modo que o seu apelido, "A Notória R.G.B"., simbolizando sua posição como uma heroína da cultura pop nos seus anos mais recentes, as golas e colares serviam como um estudo de semiologia e semáforo: sinalizavam suas posições antes de ela abrir a boca e representavam seu papel único como a segunda mulher da mais alta Corte do país.

Iluminando como um farol no mar escuro das togas dos juízes, os colares eram algo inconfundível nas fotos e na sala do tribunal. Embora o legado de jurisprudência de Ginsburg seja a sua mais importante dádiva para a história, sua compreensão do que ela também significava como um modelo a seguir era inegável.

Como uma excepcional estudante de Direito mulher – sem falar da sua rara posição como advogada – ela se habituou a ser uma pessoa incomparável. Sabia que cada declaração que fazia, cada gesto seu, cada imagem, seriam notados, selecionados e dissecados. Todas as suas decisões eram importantes.

Portanto todas tinham de ser imbuídas de significado. Mesmo se tivesse a ver apenas com colares. Em 2009, em uma entrevista para o The Washington Post, ela explicou como sua coleção teve origem: “Sabe, a toga padrão é feita para um homem porque tem um lugar para a camisa e para a gravata”, ela afirmou.

Assim, Sandra Day O’Connor, a primeira juíza da Corte, “achou que seria apropriado se incluíssemos como parte da nossa toga algo típico de uma mulher”. Elas não esconderiam seu sexo ou fingiriam que a posição estava além disto. Era parte da sua posição. Ela usou muito um colar bege e amarelo de crochê preso a uma corrente de ouro, com pérolas na bainha, um presente de seus colegas, quando se pronunciava para a maioria da Corte.

Seu colar da dissensão, com pedras preciosas pontiagudas sobre uma faixa preta, da Banana Republic, um presente que recebeu quando foi nomeada Glamour Woman of the Year em 2012, ela usava quando apresentava seu voto dissidente da tribuna. (Ela também o usou no dia depois da eleição de 2016, o que ninguém achou ter sido uma coincidência: o colar da dissensão ficou tão famoso por si mesmo que foi memorizado em joias, ímãs e tatuagens).

O colar de crochê com as bordas em preto (da loja de presentes da Metropolitan Opera) réplica da usada por uma personagem de uma ópera de Verdi que assistiu, ela usou quando recebeu seu diploma honorário em Harvard (junto com Plácido Domingo, que cantou para ela. E também havia a sua favorita, um colar branco delicado da Cidade do Cabo, África do Sul.

Prestar atenção ao que uma mulher poderosa veste com frequência é algo rejeitado como sendo uma maneira de diminuí-la. Mas não prestar atenção neste caso é desrespeitar a atenção aos detalhes que marcaram o trabalho da juíza Ginsburg em todas as suas dimensões. Afinal, uma manopla pode ter sido um dia uma luva de metal, mas às vezes pode ser uma gola de renda. E isto não torna contestação de um status quo antiquado menos eficaz. / TRADUÇÃO DE TEREZINHA MARTINO

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