Dan Balilty The New York Times
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Com a ajuda da engenhosidade moderna, o sabor de antigas tâmaras judaicas

A colheita das tâmaras judias muito elogiadas foi uma espécie de milagre científico. O fruto brotou de sementes de 2000 anos

Isabel Kershner, The New York Times – Life/Style

18 de setembro de 2020 | 05h00

KETURA, ISRAEL – O cacho de roliças tâmaras marrom-douradas pendurado sobre o solo arenoso finalmente estava pronto para ser colhido. Os frutos haviam levado meses para amadurecer lentamente no calor do deserto. Mas a árvore, nova ainda, na qual cresceram tinha uma história muito mais antiga – ela brotara de uma semente de dois mil anos recuperada em um sitio arqueológico no deserto da Judeia.

“Elas são maravilhosas”, exclamou Sarah Sallon com o entusiasmo de uma jovem mãe, enquanto cada tâmara, com a pele ligeiramente enrugada, era colhida do seu ramo em um kibbutz castigado pelo sol, no sul de Israel. E eram também deliciosas, com um sabor fresco que não deixava perceber o seu período de incubação de dois milênios. A polpa cor de mel, meio ressequida, tinha uma textura fibrosa mastigável e uma doçura sutil.

Estas eram as tão exaltadas tâmaras de Judá há muito perdidas, e a colheita este mês foi saudada como um moderno milagre da ciência. Sallon, que pesquisa medicina natural, cooperara com Elaine Solowey, especialista em agricultura de terrenos áridos, para encontrar e germinar as antigas sementes. A colheita do fruto, comemorada em uma pequena cerimônia no início deste mês, no Kibbutz Ketura, era a culminação de uma busca de 15 anos.

“Nestes tempos conturbados de mudança climática, poluição e desaparecimento de espécies a uma taxa alarmante, trazer algo de volta à vida de sua dormência é extremamente simbólico”, afirmou Sallon. “Polinizar e produzir estas tâmaras incríveis é como um raio de luz em tempos negros”.

As palmeiras que produzem tâmaras eram apreciadas na Bíblia e no Alcorão, e se tornaram símbolos de beleza, sombra preciosa e suculenta abundância. Na Antiguidade, as palmeias da Judeia, louvadas por sua qualidade, apareciam como temas nas sinagogas. Uma moeda romana, cunhada em torno do ano 70 d.C. em comemoração da conquista da Judeia, retratava a derrota judia como uma mulher em prantos em baixo de uma palmeira.

Mas por volta da Idade Média, as famosas plantações da Judeia já haviam morrido. As guerras e um levante provavelmente tornaram o seu cultivo pouco prático, assim como sua necessidade de copiosas quantidades de água no varão. Então, Sallon resolveu ir à caça. Gastroenteróloga pediátrica, diretora do Centro de Pesquisas de Medicina Natural Louis L. Borick, no Hospital Hadassah de Jerusalém, ela decidiu dedicar-se à missão de reviver o antigo conhecimento para usá-lo na medicina moderna.

Ela aprendera em um arquivo empoeirado em Jerusalém que as tâmaras não só eram excelentes para a digestão, como os curandeiros tradicionais acreditavam que melhoravam a produção de sangue e a memória, e além disso, tinham propriedades afrodisíacas. Ela conseguiu algumas das sementes de tâmaras que haviam sido encontradas nos anos 1960 em uma escavação em Masada, a fortaleza no deserto nas proximidades do Mar Vermelho, onde judeus fanáticos, sitiados pelos romanos no ano 73 da nossa era, notoriamente morreram por suas próprias mãos para não acabar na escravidão.

Imediatamente, ela procurou Solowey, que dirige o Centro de agricultura Sustentável do Instituto Arava de Estudos do Meio Ambiente no Kibbutz Ketura. O instituto, criado em 1996 após a assinatura dos acordos de paz de Oslo entre israelenses-palestinos, dedica-se ao progresso da cooperação ambiental apesar do conflito político, e oferece programas acadêmicos a jordanianos, palestinos e israelenses, bem como a estudantes internacionais.

Solowey plantou as sementes em potes em quarentena em janeiro de 2005, sem grandes expectativas, mas mesmo assim utilizando alguns “truques horticulturais”, ela disse, para tentar convencê-las a sair do seu longo sono, com calor, hidratação cuidadosa, um hormônio vegetal e fertilizante enzimático.

Semanas mais tarde, ela ficou “absolutamente pasma” ao ver que a terra se rompera para deixar sair um pequeno broto. Chamado Matusalém, do patriarca bíblico conhecido por sua longevidade, o broto cresceu desde então tornando-se uma árvore forte em frente ao seu escritório. Mas Matusalém era macho, e as palmeiras macho não frutificam sozinhas. (O gênero pode ser confirmado quando as árvores florescem ou por meio de testes genéticos.)

Então Sallon voltou à sua busca e escolheu mais 30 sementes de outra safra de arquivos arqueológicos no deserto da Judeia, como Qumran, onde foram encontrados os Pergaminhos do Mar Morto. Plantadas em Ketura entre 2011 e 2014, seis sementes brotaram. Receberam os nomes de personagens bíblicos, mas quando os seus gêneros se tornaram evidentes com o tempo, Judá se tornou Judith, Eva se tornou Adão e Jeremias se tornou Hannah.

A semente de Hannah, que veio de uma antiga caverna tumular em Wadi el-Makkukh perto de Jericó, atualmente na Cisjordânia, foi submetida ao teste do carbono 14 e datada entre o primeiro e o quarto séculos A.C., tornando-se uma das mais antigas sementes conhecidas a germinar. A pesquisa foi revista por pares e detalhada em um artigo publicado em fevereiro em uma das mais importantes revistas científicas, a Science Advances.

Um mês mais tarde, houve outra surpresa. Depois de crescer por seis anos, Hannah floresceu em um terreno próximo. Chegara a hora da casamenteira entrar em ação. Solowey coletou meticulosamente o pólen de Matusalém e o espalhou sobre as flores de Hannah, “porque eu queria que Matusalém fosse o pai”, explicou.

Especialistas genéticos da Universidade de Montpellier na França afirmaram que a genotipagem das plantas germinadas indicou que as sementes mais antigas, a de Matusalém e Hannah, estavam mais próximas das variedades orientais que cresciam da Mesopotâmia à Arábia e até o Paquistão.

Acredita-se que o cultivo da tamareira date de até 6.500 anos atrás. Quanto mais jovens as sementes, mais elas se pareciam com as variedades que floresciam no oeste do Egito, como a tâmara medjoul de Marrocos, úmida, extremamente doce, muito comum e hoje cultivada comercialmente em plantações ao longo do Grande Vale do Rift Jordaniano, inclusive em Ketura. Tudo isto fazia perfeitamente sentido para Sallon.

A antiga Judeia teoricamente se situava entre o norte da África e a Ásia, ao longo das principais rotas comerciais, e os romanos que comerciavam em todo o Mediterrâneo podem ter levado as variedades ocidentais com eles para polinizar as as variedades orientais mais antigas. “Resumindo, o que foi que descobrimos?” disse Sallon. “A história do antigo Israel e do povo judeu, a diáspora, as rotas comerciais, e o comércio em todo o Oriente Médio”. / TRADUÇÃO DE ANNA CAPOVILLA

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