Jason Horowitz para The New York Times
Jason Horowitz para The New York Times

Sacerdotes frequentam curso de exorcismo em Roma

No seminário “Exorcismo e Oração de Libertação”, os religiosos debateram técnicas para a realização do procedimento, que é feito inclusive pelo celular

Jason Horowitz, The New York Times

28 Abril 2018 | 10h30

ROMA – Andrés Cárdenas sentado no fundo do auditório tomava notas cuidadosamente enquanto um cardeal com dezenas de anos de experiência em expulsão de demônios de corpos possuídos dava uma ‘master class’ ensinando a gritar com o diabo, a livrar muçulmanos da magia negra e a arrancar Satanás pelo celular.

Padre Cárdenas, um sacerdote colombiano, anotava diligente enquanto o instrutor, Ernest Simoni, explicava que jejuar às vezes ajuda os possuídos, mas que frequentemente é preciso ser duro com o demônio, e gritar: “Cala-te, Satanás”.

Padre Cárdenas, 36, foi um dos 300 católicos que vieram a Roma para participar do 13º curso anual em meados de abril, sobre “Exorcismo e Oração de Libertação”, de uma semana de duração, que, esperam os organizadores, permita recrutar e treinar exércitos de exorcistas em potencial. Os participantes pagaram cerca de US$ 372 para assistir às sessões patrocinadas por grupos de católicos conservadores.

Ocorre que o Vaticano reconheceu uma Associação Internacional de Exorcistas em 2014, que mantém seus cerca de 250 membros atualizados a respeito das melhores práticas ao confrontar o diabo.

Os aspirantes a exorcistas culpam a internet e o ateísmo pelo aumento do mal, mas a urgência no curso aparentemente tinha algo a ver com a crescente visão conservadora segundo a qual a Igreja estaria se desencaminhando por causa do Papa Francisco.

Durante o discurso de abertura, o cardeal Simoni respondeu às perguntas dos sacerdotes, como o padre que o instou a compartilhar seus segredos para o exorcismo. “Ore sem parar”, disse o cardeal, lembrando os ouvintes de que, “mais do que qualquer outra coisa, a castidade” é fundamental.

Outro sacerdote perguntou como distinguir entre personalidades bipolares e possuídas. “É importante diferenciar doenças psicopáticas, neurastenia, patologias”, respondeu o cardeal. “Você saberá reconhecer Satanás”.

Outro ainda indagou como ele sabia se um exorcismo tinha funcionado, e o cardeal disse: “Ah, você vê imediatamente”, e explicou que uma pessoa possuída que pula sem parar, a ponto de serem “necessários três a quatro homens para contê-la”, de repente se levanta ”com um sorriso de alegria”.

Os discípulos aproximaram-se então de uma longa mesa com lanches e refrigerantes para uma pausa, enquanto os repórteres insistiam com o cardeal Simoni pedindo que ele realizasse alguns exorcismos por celular, o que tecnicamente é proibido pela lei da Igreja. (Ele já fez “uns cem, mil”, informou o prelado).

De sua parte, Padre Cárdenas advertiu que a magia negra pode ser transmitida por meio de monitores, que os demônios penetram no corpo “pela parte posterior do cérebro”, e que traumas originais, como abuso sexual, podem tornar uma pessoa vulnerável à homossexualidade e aos demônios que provocam tendências suicidas ou violentas, e precisam ser expulsos.

Depois do almoço, os discípulos retornaram para a sessão da tarde: “Exorcismo como Ministério da Graça e da Consolação na Desorientação da Sociedade Contemporânea”, dirigida pelo arcebispo Luigi Negri.

Este alertou os sacerdotes a respeito das forças das trevas contra as quais estarão lutando.

“O ator deste mal – esta entidade diabólica e perversa”, disse o arcebispo, “é mais forte do que qualquer homem”.

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