Prakash Mathema/Agence France-Presse - Getty Images
Prakash Mathema/Agence France-Presse - Getty Images

Sacrifício de animais em manifestações culturais gera debate

A cristandade não é a única a colocar os animais no meio de seus rituais, mas a paz na Terra não aguarda todas as criaturas

Alan Mattingly, The New York Times

21 de dezembro de 2019 | 06h00

Eles não estão no relato do nascimento de Jesus contido no evangelho, mas os animais desempenham um papel importante na celebração de natal. Dependendo do lugar, a cena da natividade vista essa semana pode incluir bois, ovelhas, vacas, asnos e até camelos.

A cristandade não é a única a colocar os animais no meio de seus rituais, mas a paz na Terra não aguarda todas as criaturas. Tomemos como exemplo o festival Gadhimai, em Bariyarpur, sul do Nepal. Recentemente, como ocorre a cada cinco anos, milhares de animais foram trazidos à cidade: bodes, ratos, porcos e outros. E foram massacrados - dois dias de sacrifícios à deusa Gadhimai, que, acredita-se, realiza desejos.

O mais notável é o búfalo-asiático, que é reunido em grandes números em uma arena fechada. Os bovinos são então decapitados por homens com facões curvos enquanto os espectadores tentam subir nas paredes para assistir. No dia mais pesado desse ano, foram mortos 3,5 mil búfalos, de acordo com reportagem do Times.

Esperava-se que o número total de animais sacrificados esse ano fosse inferior a 30 mil, uma redução considerável desde 2009, quando acredita-se que esse número tenha chegado a 500 mil. Ativistas tentaram impedir o ritual, que ocorre há mais de dois séculos, e a Suprema Corte proibiu o governo de financiá-lo. Mas a celebração segue popular, com centenas de milhares de pessoas do Nepal e da Índia fazendo a peregrinação.

“É sempre divertido decapitar animais", disse Ram Aashish Das, que afirmou ter massacrado 30 búfalos. “Se a tradição é tão ruim assim, por que tanto vêm até aqui?”. “Apenas os bons e os alegres vêm aqui. Por causa da bênção da deusa, tenho quatro filhos agora, todos com saúde", disse o peregrino nepalês Jaya Kumar Ram.

Para a tribo de americanos nativos Makah, a caça às baleias não é uma questão de sacrifício animal, e sim uma atividade considerada sagrada, nutrindo o corpo e o espírito. Os caçadores treinam diariamente, mantendo o jejum e a abstinência sexual. Rezam todas as manhãs, e também depois de abaterem um animal, como forma de agradecer à baleia.

Os Makah não fazem isso desde 1999. A tribo caça baleias há pelo menos 2,7 mil anos, parou voluntariamente nos anos 1920, e retomou a prática quando a baleia-cinzenta deixou de ser considerada uma espécie ameaçada. Mas, depois de uma única caçada, vinte anos atrás, eles pararam novamente por causa de esforços jurídicos de preservacionistas e defensores dos direitos dos animais.

Os Makah tentam obter o direito de caçar novamente no ano que vem. Theron Parker, que usou o arpão para caçar a baleia em 1999, falou de como a caça uniu seu povo na ocasião, e de como a sua suspensão os enfraqueceu. “É deprimente estar no topo e, de repente, ser largado no chão e deixado de lado", disse ele ao Times.

Alguns porto-riquenhos têm uma sensação parecida diante da derrota na sua própria batalha na arena dos direitos animais: uma nova proibição à rinha de galo nos territórios dos Estados Unidos. Para os críticos, a rinha de galo é particularmente cruel, mas aqueles que trabalham nessa indústria estimam que ela seja responsável por 20 mil empregos.

“É nossa vida", disse ao Times o criador de galo Hiram Figueroa. “Se tirarem isso de nós, o que faremos?” A rinha de galo é importante na ilha desde a época colonial, mas Yolanda Álvarez, ex-diretora da Humane Society de Porto Rico, está entre as muitas pessoas que não sentem nenhum vínculo com essa tradição. “É algo que não tem nada a ver com a nossa cultura", disse ela. “E, mesmo que tivesse, a cultura não é algo estático. A cultura se transforma.” / TRADUÇÃO DE AUGUSTO CALIL

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