Lam Yik Fei/The New York Times
Lam Yik Fei/The New York Times

Este safári urbano vem com um aviso: cuidado com as cobras

Em trilhas noturnas nas florestas surpreendentemente exuberantes de Hong Kong, um caçador de cobras dá aula a urbanoides sobre répteis - e suas picadas

Mike Ives, The New York Times - Life/Style

29 de março de 2021 | 05h00

HONG KONG - A cobra não viu o Sargent chegando, pelo menos não a tempo de evitar ser pega. “Esta é a quarta cobra terrestre mais tóxica do mundo e, de longe, a cobra mais tóxica da Ásia”, disse William Sargent a um grupo de pessoas que faziam trilha em uma noite recente em Hong Kong. Ele deu a notícia com calma, como se anunciasse que o jantar estava pronto. 

Qual de nós, ele perguntou, gostaria de tocá-la primeiro? 

Sargent, 44 anos, dirige o Hong Kong Snakes Safari, uma organização que oferece aos moradores caminhadas noturnas pelo interior arborizado do território. Alguns ficam mais apreensivos do que outros, pois ficam sabendo mais informações a respeito desses animais a pouca distância deles, que são, segundo Sargent, répteis cronicamente incompreendidos. 

As trilhas destacam o tamanho da biodiversidade em Hong Kong, um centro financeiro de 7,5 milhões de pessoas que é mais conhecido por seus arranha-céus do que por suas extensas áreas protegidas. É também uma maneira para os urbanoides com fobias de cobras confrontarem seus medos na selva.

Hong Kong tem quase o tamanho de Los Angeles, mas cerca de 40% de sua área consiste em parques que foram criados na década de 1970, quando o território chinês ainda era uma colônia britânica. Os conflitos entre humanos e animais são inevitáveis porque grande parte das terras protegidas fica a poucos passos de densas áreas urbanas.

Os javalis, em particular, costumam causar um rebuliço quando perambulam por ruas movimentadas ou estações de metrô. Em setembro, uma família de javalis apareceu nos jornais locais passeando pelo distrito comercial central de Hong Kong e nadando na fonte em frente à torre de escritórios de 72 andares do Banco da China.

As cobras geralmente são mais discretas em Hong Kong, mas como oito espécies nativas são capazes de infligir picadas fatais, os riscos à saúde podem ser sérios se elas acabarem em contato direto com humanos.

A polícia de Hong Kong disse em um comunicado que sempre que uma cobra coloca o público em perigo, ela é "encaixotada e ensacada com segurança" por funcionários treinados, e então enviada para viver na Fazenda e Jardim Botânico Kadoorie, uma organização sem fins lucrativos local que também abriga outros animais resgatados, como morcegos, aves, crocodilos, macacos, pangolins e tartarugas. A maioria das cobras é posteriormente solta na natureza.

Sargent, que criou cobras como animais de estimação enquanto crescia em uma das ilhas mais distantes de Hong Kong, é um especialista treinado pela polícia desde 2015. Ele disse que suas atribuições de caça de cobras o levaram a prisões, escolas, supermercados, um hangar de aeroporto e um canteiro de obras para uma enfermaria para pacientes com o novo coronavírus, de onde ele tirou uma píton de 3 metros.

A Organização Mundial da Saúde (OMS) estima que cerca de 81 mil a 138 mil pessoas em todo o mundo morrem a cada ano de picadas de cobra, principalmente em países em desenvolvimento, e que cerca de três vezes mais sofrem com invalidez permanente.

A maior parte dos estimados 1,8 a 2,7 milhões de "envenenamentos" anuais ou envenenamentos por picada de cobras no mundo ocorrem na Ásia, muitos em países com sistemas de saúde fracos e recursos médicos escassos. Os países que não têm capacidade para fabricar soro antiofídico são os que correm maior perigo.

Mas em Hong Kong, que tem um sistema médico de primeira linha, ninguém foi morto por uma cobra venenosa desde pelo menos 2005, de acordo com um porta-voz da Autoridade Hospitalar da cidade. Em 2018, o último ano para o qual há dados disponíveis, as autoridades registraram apenas 73 picadas de cobra. Segundo os dados, a chance de ser picado é de aproximadamente 1 em 100 mil.

“Não é nenhum mistério”, disse Sargent durante a caminhada noturna. “Está muito claro qual é o risco. Mas há um abismo enorme de equívocos”.

Eu fui um dos vários participantes da trilha noturna que conheceram Sargent em um vilarejo perto da fronteira de Hong Kong com a China continental em uma noite escaldante de um dia de semana. Antes de entrarmos em um parque rural perto dali, ele explicou que a melhor maneira de evitar uma picada de cobra era simplesmente observar nossos pés e andar com uma lanterna de cabeça de alta qualidade.

E ficar de olho o tempo inteiro. Quando partimos por um caminho de concreto, nossos passos cuidadosamente monitorados foram banhados por um círculo luminoso de LED brilhante e tranquilizante.

Mas a luz ambiente parecia enfraquecer a cada passo e partes do caminho estavam começando a parecer preocupantemente cobertas de mato - pelo menos para meus olhos com medo de cobras.

“Procurem em todos os lugares que puderem”, disse James Kwok, um entusiasta da vida selvagem que acompanhou o safári e ofereceu conselhos sobre a observação de cobras.

O grupo atravessou um riacho na altura da coxa e andou por cima de pedras escorregadias no escuro. Alguns participantes perderam o equilíbrio e caíram na água.

Sargent avistou nossa primeira presa - uma cobra d'água da montanha - e a arrancou de uma rocha ao lado do riacho com as próprias mãos.

Quando ele nos mostrou a cobra, ela mordiscou sua mão, deixando um fio de sangue. Ele deu de ombros: não era venenosa e, portanto, inofensiva.

Isso parecia drama mais do que suficiente para a noite. Mas alguns minutos depois, uma cobra mais longa, mais grossa, listrada em preto e branco deslizou e apareceu no clarão das lanternas do grupo.

“Rápido, rápido, rápido!”. Sargent gritou sussurrando, enquanto o grupo se reunia atrás dele e a luz das lanternas giravam pela folhagem subtropical como se fossem holofotes em um show de rock.

Em um movimento fluido, ele correu à frente, enfiou a mão em uma luva resistente a perfurações e pegou a cobra. Enquanto se contorcia no ar úmido, ele disse que era uma serpente Bungarus multicinctus, uma espécie noturna cujo veneno altamente tóxico atinge o sistema nervoso. Todos nós rimos de nervoso.

Mas Sargent, que ainda parecia serenamente calmo, tranquilizando a todos, disse que em três décadas lidando com serpentes selvagens, ainda não tinha visto um ataque. O primeiro instinto do animal era fugir, não picar.

Então, nos reunimos para tocar a barriga da serpente - que era surpreendentemente suave e delicada, como as bochechas de um bebê - e para nos maravilharmos com a beleza de suas escamas de perto. “Não é o que você espera”, disse Ruth Stather, uma participante que trabalha com marketing.

serpente não estava exatamente satisfeita, mas parecia disposta a tolerar os humanos curiosos por alguns minutos. Enquanto estávamos lá, tocando-a na escuridão silenciosa, eu senti minha fobia de cobra diminuir. “Elas não estão interessadas em brigar”, disse Sargent.

Eu me preocupava que ele estivesse brincando com o perigo. Mas, como era de se esperar, quando ele a lançou na vegetação rasteira, ela deslizou e foi para longe. / TRADUÇÃO DE ROMINA CÁCIA

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