Adriana Zehbrauskas para The New York Times
Adriana Zehbrauskas para The New York Times

Salamandras encontram refúgio em convento

Freiras mexicanas tentam salvar uma espécie em risco de extinção

Geoffrey Giller, The New York Times

10 Agosto 2018 | 15h15

PÁTZCUARO, MÉXICO - No topo da colina mais alta da cidade, à beira do lago Pátzcuaro, ergue-se a Basílica de Nuestra Señora de la Salud, construída no século 15. Em uma rua ao lado da basílica, uma porta de madeira com batente de pedra e marcada por uma cruz com flores abre das 9h às 14h, e depois das 16h às 18h. "Nós oramos por vocês", diz uma tabuleta em espanhol na porta.

No interior, o espaço é amplo e escuro, salvo por uma janela de madeira e três portas trancadas. Atrás delas há um convento, onde vivem cerca de 20 freiras da ordem dominicana.

Mas o convento também hospeda um número ainda maior de moradoras incomuns: uma florescente colônia de salamandras, uma espécie ameaçada. Os cientistas as chamam Ambystoma dumerilii, mas as freiras e todos em Pátzcuaro as chamam achoques.

Cuidadas amorosamente pelas freiras, cerca de 300 achoques vivem em aquários de vidro e em banheiras brancas esmaltadas, dispostas ao longo das paredes do convento. As freiras se sustentam em parte com a venda de um xarope contra a tosse chamado járabe, feito com a pele das salamandras. Mas as achoques da basílica estão se tornando cada vez mais valiosas por outro motivo.

Elas são encontradas exclusivamente no Lago Pátzcuaro, e fora do convento seu número está se reduzindo rapidamente. Há colônias cativas menores em Pátzcuaro, mas nenhuma é tão grande quanto a da basílica, o que pode ser crucial do ponto de vista das salamandras.

"É por isso que consideramos que as freiras serão vitais no futuro", disse Gerardo Barci, do Zoológico Chester, na Inglaterra. As salamandras têm pele granulada da cor da mostarda de Dijon. Elas são enormes - as maiores chegam a meio metro de comprimento. Mas o mais impressionante nelas são as guelras: luxuriantes filamentos avermelhados ao redor de sua cabeça, como cabelos que ondulam suavemente na água.

Na basílica, sua principal cuidadora é a Irmã Ofelia Morales Francisco.

Os taques onde elas vivem são imaculados, cada qual com um aerador que borbulha, feito com a metade de uma garrafa de refrigerante de plástico cheia de pedras e um tecido enrolado. Em uma caixa de vidro acima do tanque, um menino Jesus vestido como médico vigia.

As irmãs costumavam fazer seu xarope, que produzem há cerca de um século, usando as salamandras pescadas no lago. Quando começaram a desaparecer, as freiras criaram a colônia do convento porque temiam perder o járabe, seu ganha-pão.

"O que faríamos se não fosse o xarope?", disse irmã Ofelia. Mas ela e outras freiras admitiram que a preservação era um imperativo em seu trabalho. "Estamos protegendo uma espécie da natureza", explicou. "Se não trabalharmos para cuidar dela, se não a protegermos, ela desaparecerá da criação".

Como o número de pessoas que moram ao redor do Lago Pátzcuaro, um dos maiores do México, foi aumentando sistematicamente ao longo dos séculos, a qualidade da água ficou prejudicada. O escoamento  descontrolado das águas em razão do desmatamento leva o limo e a poluição para o lago. O esgoto ainda não tratado é jogado na água, e um jacinto aquático - que virou praga - espalha-se em suas margens. Os pastos das vacas se estendem até as margens pantanosas do lago.

Robalos de boca grande foram introduzidos no lago nos anos 1930, e em 1974 receberam a companhia de carpas, muito mais destrutivas, pois comem os ovos e as larvas das achoques. Entre 1982 e 2010, o lago baixou cerca de 4 metros, perdendo 25% de seu volume total por causa da diminuição da precipitação atmosférica e do aumento do esgoto lançado no lago. Várias iniciativas para reabilitar o Pátzcuaro tiveram pouco sucesso.

No final dos anos 1970 e início da década de 1980, as achoques apanhadas no Lago Pátzcuaro formavam pilhas enormes no mercado do peixe da cidade, lembrou Brad Shaffer, professor de Biologia da Universidade da Califórnia, em Los Angeles, que estuda as salamandras. Os números de achoques começaram a flutuar perigosamente nos anos 1980, e caíram em 1989. Em 1985, um frade sugeriu às freiras que criassem sua própria colônia, uma vez que o lago estava se deteriorando, contou a Irmã Ofélia.

Mas foi somente em 2000 que as freiras constituíram a florescente colônia de salamandras no convento.

À medida que sua população foi caindo, o mesmo aconteceu com sua diversidade genética. É aí que a grande colônia do convento poderá fazer toda a diferença - por ser geneticamente diversificada. Na sala onde as freiras vendem seu xarope contra a tosse, um mural retrata o lago com as salamandras nadando em águas limpas.

"A ordem é dedicada à pesquisa do conhecimento teológico-científico em benefício da humanidade", explicou Irma Ofélia. Parte da missão da ordem é "trabalhar em favor de uma consciência mais humana de amor e justiça para com a natureza". / Rodrigo Pérez Ortega contribuiu para a reportagem.

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