Samuel Aranda para The New York Times
Samuel Aranda para The New York Times

Salvando o lince ibérico com a ajuda de muitos coelhos

Camponeses ibéricos aplaudem o retorno de um aliado selvagem

Raphael Minder, The New York Times

15 de junho de 2018 | 15h15

VILCHES, ESPANHA - O lince ibérico é muito exigente na hora da comida. Apesar da sua agilidade e velocidade, caça quase sempre apenas coelhos.

A escolha limitada de sua presa ajuda a explicar o motivo pelo qual este felino esteve perto da extinção  menos de 20 anos atrás, depois que uma doença eliminou um número enorme de coelhos da Península Ibérica. Entretanto, um amplo programa de reprodução e realocação agora tornou o lince um exemplo de sucesso dos esforços da Europa na preservação de sua biodiversidade.

O programa começou depois que o lince ibérico se tornou o felino mais ameaçado do mundo, de acordo com um censo de 2002, segundo o qual, na época, restavam menos de 100 indivíduos selvagens. Agora, a população de linces cresceu para quase 550 indivíduos, que vivem em nove áreas do sul da Espanha e Portugal.

Um lince ibérico nasceu pela primeira vez no cativeiro em 2005, mas criar este animal é uma tarefa ainda muito complicada e dispendiosa, como “manter um berçário para criancinhas ricas, com um professor para cada uma delas”, disse Angelo Salsi, o administrador italiano do programa ambiental “Life” da Comissão Europeia, em Bruxelas, que financiou o retorno do lince ibérico.

Em um dos quatro centros de criação, os veterinários e outros funcionários da equipe obedecem a  normas rigorosas para manter o jovem lince protegido dos germes, e com medo do contato com as pessoas, antes que possa ser solto na vida selvagem após permanecer um ano em cativeiro. Quando ganham a liberdade, os jovens felinos são levados para áreas diferentes, a fim de evitar consanguinidades.

Cada vez que um indivíduo é solto, o evento costuma ser assistido pelas autoridades da cidade, por camponeses e por inúmeros escolares, que aplaudem com enorme entusiasmo quando o animal - cujo nome eles escolheram na classe - salta da gaiola e desaparece entre os arbustos.

O programa custou pelo menos 34 milhões de euros, cerca de dois terços dos quais foram desembolsados pela União Europeia.

O lince ibérico é menor do que outras espécies de linces do norte da Europa, mas tem as mesmas orelhas pontudas, que terminam em um pequeno tufo de pelos, patas grandes e olhos brilhantes. “Nós gostamos de dizer que a beleza não está em todas as coisas, mas ela é importante e - vamos ser francos - o lince agrada muito”, disse Salsi.

Como os coelhos frequentemente são considerados uma praga, a volta do lince foi aplaudida pelos camponeses, ao contrário das tensões provocadas pelo regresso dos ursos pardos e dos lobos, que também podem ameaçar o gado.

O programa espanhol soltou 50 mil coelhos nas áreas povoadas pelos linces nos últimos cinco anos.

Urs Breitenmoser, um especialista em gatos da União Internacional para a Conservação da Natureza, disse que será difícil proteger o lince ibérico se algo como um novo vírus de repente infestar os coelhos.

“Este lince claramente evoluiu tornando-se um caçador de coelhos na Península Ibérica - e o preço por ser um caçador tão precioso e especializado é uma maior vulnerabilidade”, afirmou.

Mas para Javier Madrid, um ambientalista do governo regional da Andalusia, os custos e os riscos valem a pena.

“Se o lince desaparecer, evidentemente continuaremos a viver neste planeta, mas, tenho certeza, não com a mesma qualidade de vida”, afirmou.

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