Angela Ponce para The New York Times
Angela Ponce para The New York Times

Salvando uma igreja de argila numa terra castigada por terremotos

No topo da Cordilheira dos Andes, conservadores testam métodos tradicionais para preservar construções de estrutura delicada

Michelle Z. Donahue, The New York Times

13 de novembro de 2018 | 06h00

Em Kuño Tambo, equilibradas a quase 4 mil metros de altitude nos Andes peruanos, as paredes de tijolo de argila da Igreja de Santiago Apóstol, construídas pelos espanhóis em 1681, resistiram a muitos terremotos.

Mas, passados mais de três séculos de abalos, a igreja começou o século 21 com uma acentuada erosão dos tijolos, paredes que começavam a ruir nos cantos, contrafortes ausentes e um telhado de madeira cheio de vazamentos. Os murais nas paredes internas estavam descascados, e a torre do sino, erguendo-se independente do outro lado da praça central da cidade, tinha adquirido uma inclinação curiosa. A igreja foi declarada demasiadamente insegura para receber missas regularmente, um golpe para essa cidade ardentemente católica.

Kuño Tambo não estava sozinha. Fortes terremotos em 2007 e 2009 mataram centenas no Peru e destruíram centenas de estruturas históricas de tijolos de argila. O perigo para esses edifícios e para as pessoas que vivem perto deles motivou preservacionistas e arquitetos a explorar métodos para mantê-los intactos.

O Seismic Retrofitting Project (Projeto de Adaptação Sísmica), iniciativa do Getty Conservation Institute, de Los Angeles, estuda práticas tradicionais de estabilização de estruturas em áreas suscetíveis a terremotos.

“Queríamos saber se essas técnicas são eficazes. É possível trabalhar com elas, do ponto de vista da engenharia?”, disse Daniel Torrealva, da Pontifícia Universidade Católica do Peru, em Lima, um dos engenheiros de pesquisa do projeto. “E como essas técnicas podem ser incluídas na construção?”

Durante uma série de oficinas realizadas ao longo do ano em Kuño Tambo que chegou ao fim em agosto, a equipe do Getty trabalhou com moradores do vilarejo, de idioma Quechua, para implementar reparos de baixo custo, usando tecnologia simples, na esperança que possam ser padronizados para, assim, tornar as estruturas de tijolos de argila mais seguras e resistentes. Se essas técnicas se mostrarem eficazes e acessíveis na Igreja de Santiago Apóstol e alguns outros locais, essa abordagem pode ser usada para reforçar edifícios em todo o mundo.

Os tijolos de argila conhecidos como adobe são um dos materiais de construção mais usados do mundo. 

Estima-se que 30% da população global (na África e na Índia, e até em partes da Europa) habitem estruturas feitas de barro.

No Peru, onde o uso dos tijolos de argila antecede à época dos Incas, milhões de pessoas vivem em residências feitas de barro.

Mas muitas das regiões do mundo onde a arquitetura do barro é predominante são também focos de atividade sísmica. Ainda que firme, pesado e eficaz contra o frio, o tijolo de argila mal conservado apresenta propensão a ruir durante um terremoto.

Para criar uma estratégia para reforçar a igreja de Kuño Tambo com uma mistura de novos apoios, Torrealva e uma equipe de engenheiros fizeram mais de 300 testes físicos de pequena escala envolvendo algumas técnicas usadas durante séculos pelos construtores peruanos.

Então, trabalhando com o engenheiro Paulo Lourenço, da Universidade do Minho, em Portugal, a equipe construiu um detalhado modelo virtual da igreja. Eles rodaram simulações da construção com diferentes estruturas de apoio, sob diferentes tipos de estresse sísmico.

Isso resultou num plano para equipar a igreja com 11 novas vigas tão longas quanto a largura do edifício, uma nova viga curva sob a circunferência do teto e três braçadeiras em formato de L inseridas em cada canto para manter juntas as paredes, todas produzidas a partir de madeira de eucalipto da própria região.

Além de novos alicerces de pedra, novos tijolos de adobe, três novos contrafortes e uma nova estrutura em forma de A para o telhado, algumas partes da igreja e da torre do sino também foram envoltas numa malha semelhante ao náilon e cobertas de argila para aumentar sua sustentação. As pinturas dos murais também foram submetidas a um processo de renovação particular; muitas igrejas da região apresentam obras de arte semelhantes.

O projeto teve custo de aproximadamente 1,5 milhão de dólares, e praticamente dobra a resistência sísmica da igreja - ultrapassando os requisitos de construção civil do Peru, disse Torrealva.

“As construções usando o adobe sempre foram classificadas como feitas de um material desconhecido que não pode ser incluído nas leis da engenharia", disse o Dr. Lourenço. “Aqui, mostramos que essas técnicas tradicionais podem ser usadas amplamente por arquitetos e engenheiros de todo o mundo.”

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