Mary Turner/The New York Times
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Sam Fender, um compositor preso entre o estrelato e sua cidade natal

O músico está rapidamente se tornando um dos maiores sucessos de rock da Grã-Bretanha com faixas sobre a vida da classe trabalhadora em North Shields. Ele conseguirá deixar a cidade?

Alex Marshall, The New York Times - Life/Style

20 de janeiro de 2022 | 05h00

NORTH SHIELDS, Inglaterra - Sam Fender, um cantor e compositor muitas vezes rotulado como a versão britânica de Bruce Springsteen, percebeu que sua vida havia mudado para sempre no Halloween.

Este ano ele comprou “oito caixas enormes” de chocolate para qualquer criança que pudesse bater à sua porta em North Shields, uma cidade operária às margens do rio Tyne, no nordeste da Inglaterra.

Fender esperava que o estoque durasse a noite toda, mas acabou quase instantaneamente.

"Todo mundo no bairro estava tipo, 'Essa é a casa de Sam Fender, vamos bater!'", lembrou o músico em uma entrevista recente em seu estúdio perto do centro da cidade, em um prédio simples cercado por oficinas mecânicas. Os pais dos “doces ou travessuras” estavam mais interessados em tirar selfies com a estrela do que em doces, conhecendo sua música ou não. "Isso nos assustou um pouco", ele disse. “Foi uma loucura.”

No ano passado, Fender, 27, se tornou uma das maiores estrelas da música britânica, mas disse que ainda não quer ser “aquele cara” que é famoso demais para abrir sua porta no Halloween - uma postura que toca em uma tensão percorrendo seu recém-descoberto sucesso: como ser uma estrela e permanecer parte da comunidade local que define sua composição.

Seu segundo álbum com hinos do pop-rock, Seventeen Going Under, lançado em outubro, rapidamente alcançou o topo das paradas britânicas, assim como sua estreia, e desde então ele já lotou arenas, anunciou um show ao ar livre com capacidade para 45.000 pessoas em Londres e encantou o público britânico ao aparecer de ressaca em um programa matinal de TV.

Por algumas semanas no outono, a faixa-título do álbum provocou uma trend no TikTok por causa da letra - "Eu estava com muito medo de bater nele, mas eu bateria em um piscar de olhos agora" - que falam sobre o sofrimento nas mãos de valentões e agressores domésticos.

Todo esse sucesso foi construído nas costas de North Shields, uma cidade com 30.000 pessoas em uma região onde 34% das crianças vivem na pobreza, mas também é o lar, disse Fender, de algumas das “pessoas mais engraçadas, amorosas e atenciosas que você já conheceu.”

Fender ambienta a maioria de suas músicas na cidade, geralmente fazendo referência a pubs locais ou brigas nas praias geladas das redondezas, e canta sobre suas experiências e de seus amigos, incluindo infâncias conturbadas, suicídios masculinos e alienação política generalizada.

Esse foco local lhe rendeu fãs longe da Grã-Bretanha. Steven Van Zandt, um membro veterano da E Street Band de Bruce Springsteen que toca regularmente a música de Fender em seu programa de rádio nos Estados Unidos, disse em uma entrevista por telefone que Fender “poderia ter tomado o caminho mais fácil” graças à sua voz e aparência. Em vez disso,  Fender escolheu cantar “essas canções intensamente pessoais da vida da classe trabalhadora que não tinham garantia de sucesso”, disse Van Zandt, chamando essa decisão de “corajosa”.

Fender parecia radiante que alguns de seus heróis, incluindo Springsteen, amavam sua música, mas em uma entrevista de uma hora, ele voltou a falar sobre sua cidade natal repetidamente. A certa altura, ele mencionou uma campanha que liderou no ano passado para impedir que o conselho local cobrasse dinheiro das pessoas por ligarem para suas linhas de ajuda de emergência para os sem-teto. Depois que a Fender foi às redes sociais para reclamar do problema, o conselho prometeu tornar as linhas gratuitas.

“Às vezes me sinto como, 'Estou realmente fazendo algo tão bom assim?'”, disse Fender. Esse foi um raro momento em que ele sentiu que estava, ele disse.

Fender insistiu que nunca deixaria North Shields para trás e ficou visivelmente ansioso ao falar sobre a possibilidade. Mas a noite de Halloween e outras experiências semelhantes lhe mostraram que talvez fosse hora de tentar viver em outro lugar por pelo menos alguns meses. Em algum lugar em que não se sinta um “peixinho num aquário”, ele disse, talvez Nova York, talvez Londres, algum lugar que seja “o oposto de onde eu venho”. A única coisa certa era que suas músicas não mudariam.

"Você pode tirar um rapaz de Shields", ele disse, "mas você não pode tirar Shields de um rapaz." /TRADUÇÃO LÍVIA BUELONI GONÇALVES

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