Arash Khamooshi / New York Times
Arash Khamooshi / New York Times

Sanções mais rigorosas dos EUA trazem escassez de remédios no Irã

Severas restrições tornaram quase impossível para empresas farmacêuticas continuarem trabalhando no país

Nilo Tabrizy, The New York Times

21 de novembro de 2018 | 06h00

Alireza Karimi teve dificuldade para obter as pílulas de diazóxido que seu pai precisa para reduzir os níveis de insulina e combater o câncer no pâncreas. O remédio tinha que ser importado e, até recentemente, isso não era um problema. Mas, nos três meses mais recentes, Karimi não foi capaz de encontrá-lo, restando-lhe apenas um frasco.

“Agora que não encontramos mais o remédio por aqui, somos obrigados a dar a ele apenas um por dia", disse Karimi em entrevista concedida pelo aplicativo de mensagens Telegram, popular entre os iranianos. A redução na dosagem criou complicações, como a ameaça de convulsões e a necessidade de monitorar o pai 24 horas por dia para garantir que seus níveis de insulina estejam sob controle.

A ansiedade em relação à disponibilidade de remédios está aumentando no Irã com a reimposição de sanções americanas este mês após o recuo do presidente Donald Trump em relação ao acordo nuclear.

Duras restrições bancárias e a ameaça de sanções secundárias contra empresas que fazem negócios com o Irã praticamente impossibilitaram a continuidade do trabalho das empresas farmacêuticas internacionais no país.

Funcionários do governo Trump dizem que as sanções não devem afetar o comércio de artigos humanitários, mas muitos estão céticos.

“O fato é que os bancos têm tanto medo das sanções que não querem nenhuma relação com o Irã", disse Gérard Araud, embaixador da França às Nações Unidas. “Assim, isso significa que há um sério risco de haver uma escassez de remédios no Irã em questão de poucos meses.”

A “campanha de pressão máxima” do governo Trump começa a fechar alguns dos caminhos que restavam ao Irã para a atividade bancária ligada a artigos humanitários.

“Isso cria um problema, pois mesmo que haja uma empresa europeia disposta a vender para o Irã, a ausência de bancos no país significa que é difícil fazer pagamentos confiáveis e regulares à Europa", disse Esfandyar Batmanghelidj, especialista em sanções e comércio humanitário.

Os problemas são agravados pela situação econômica do próprio Irã, que levaram a uma acentuada desvalorização da moeda do país, o rial, e a uma alta acentuada no preço dos remédios, cuja maioria é importada. Karimi disse que os comprimidos do pai custavam cerca de 28 dólares por frasco, mas aumentaram para 43 dólares.

Em certos casos, a escassez é atribuída aos pacientes que estocam remédios ou às tentativas do governo de controlar o suprimento, sabendo que o acesso ao dinheiro pode ser difícil no futuro.

Maryam Peyman, que sofre de esclerosa múltipla, esgotou recentemente seu último frasco de Orlept, um remédio alemão usado para epilepsia e outros problemas neurológicos. Durante três meses, foi impossível encontrá-lo nas farmácias.

Ela finalmente descobriu uma alternativa produzida domesticamente, mas o resultado está longe do ideal. “Agora que estou usando remédios iranianos, sinto dores de cabeça e tenho problemas de visão", disse ela. “O remédio alemão não me dava dores de cabeça. Aumentava a concentração sem impactar a vista.”

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