Stephen Crowley/The New York Times
Stephen Crowley/The New York Times

Sanções podem forçar oligarcas russos a escolher entre Putin e o comércio mundial

As medidas, no entanto, podem ajudar Kremlin a aumentar o controle do Estado sobre a economia e pressionar bilionários a levar seu dinheiro para a Rússia

Neil MacFarquhar, The New York Times

18 Abril 2018 | 15h00

MOSCOU - A imposição de duras sanções de Washington contra vários dos principais oligarcas da Rússia significa, em muitos aspectos, uma mudança nas regras do jogo para o país.

“A Rússia não tem estratégia alguma para reagir a esta situação, a estas novas circunstâncias econômicas”, explicou Evgeni Gontmakher, um proeminente economista opositor.

O efeito mais imediato é sentido por Oleg V. Deripaska e sua gigante do ramo do alumínio, a Rusal, empresa cujas ações perderam cerca de um terço de seu valor na bolsa de Moscou. “Esta é uma nova fase”, disse Gontmakher. “Isso está isolando uma companhia muito grande e voltada para exportações. É muito doloroso”.

Abastados russos que vivem em Londres serão afetados: Washington alertou bancos britânicos de que eles enfrentariam punições severas se fizerem negócios com qualquer um dos russos listados nas sanções.

Em geral, as sanções foram impostas contra sete oligarcas russos, 12 empresas que eles controlam e 17 altos funcionários do governo que, de acordo com o Departamento do Tesouro dos Estados Unidos, lucraram com as “atividades malignas” do Estado russo em todo o mundo.

Mas as sanções podem ajudar o presidente Vladimir Putin a aumentar o controle do Estado sobre a economia e pressionar bilionários a trazer seu dinheiro para casa.

Por outro lado, as sanções podem fazer alguns dos russos mais ricos a decidir quão próximos querem estar do Kremlin, por meio de financiamento de milícias, organizações políticas ou outras aventuras no exterior. “Qualquer um que pretenda ajudar o Kremlin internacionalmente vai pensar duas vezes", comentou o analista Konstantin Gaaze. 

O virtual sequestro de um dos principais produtores de commodities da Rússia introduziu um forte elemento de incerteza nas negociações de todas as matérias-primas russas, o que tende a isolar ainda mais o país.

“As pessoas pensaram que isso era uma piada, mas agora está claro que a situação é séria”, afirmou o economista Vladislav S. Zhukovski. 

Dado o tamanho da economia russa - que equivale a cerca de 2% do PIB global - e seu limitado comércio com os Estados Unidos, a expectativa de uma retaliação econômica era baixa. Era provável que uma resposta dos russos viesse na Síria ou na Ucrânia, onde o Kremlin pode elevar a tensão para negociar um fim às sanções.

Os dois mais proeminentes industriais afetados foram Deripaska, cuja empresa emprega cerca de 60 mil pessoas na Rússia, e Viktor Vekselberg, um dos homens mais ricos da Rússia.

Mais sanções já estão a caminho, após o envenenamento no Reino Unido, mês passado, do ex-espião russo Serguei Skripal e sua filha, Yulia.

“Há uma grande possibilidade de que isso seja apenas o começo da ofensiva”, disse Gontmakher.

Um projeto de lei nos Estados Unidos poderia proibir americanos de fazer qualquer negócio com novos fundos soberanos da Rússia.

“Temos de entender que estamos entrando em uma nova realidade - a Rússia está sendo transformada em um ativo tóxico”, afirmou Zhukovski.

O governo russo disse que poderia dar apoio às empresas prejudicadas para evitar demissões. A maioria dos analistas sugeriu que o Kremlin provavelmente comprará a Rusal e venderá alumínio a preços baixos somente para manter os funcionários russos empregados. Putin já elevou a participação do Estado na economia do país de cerca de 35% para entre 50% e 70%.

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