Tony Karumba/Agence France-Presse
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Santuários para leões estão em declínio na África

As áreas protegidas teriam um déficit calculado em mais de US$ 1 bilhão por ano

Rachel Nuwer, The New York Times

10 Novembro 2018 | 06h00

Como se atividades ilegais como mineração, extração de madeira e caça não fossem ruins o bastante, os parques nacionais da África enfrentam outra ameaça direta: os recursos que recebem são insuficientes.

De acordo com análise do financiamento para a preservação, 90% das quase 300 áreas protegidas no continente enfrentam falta de financiamento. Somado, o déficit coletivo chega a pelo menos US$ 1 bilhão.

Se uma solução não for encontrada, o resultado será um declínio acentuado e contínuo da população de leões, de acordo com alerta de pesquisadores publicado recentemente na Proceedings of the National Academy of Sciences. É provável que alguns parques desapareçam.

"As pessoas supõem que o fato de os parques serem designados como áreas protegidas significa que estão a salvo", disse Jennifer Miller, uma das principais cientistas do grupo preservacionista Defenders of Wildlife e coautora do estudo. "Mas, em muitos casos, eles não dispõem dos recursos necessários para a preservação. São parques apenas no papel".

Na nova análise, os autores usaram leões selvagens como indicadores da situação dos parques nacionais da África. Como ocupam o topo da cadeia alimentar, os leões são considerados bons indicadores do estado de um ecossistema.

"Se observamos que os leões estão bem, tudo o mais (com exceção dos rinocerontes) também vai bem", disse Peter Lindsey, um dos diretores da Wildlife Conservation Network e coautor do estudo (os rinocerontes são alvo de caçadores que exploram o mercado do chifre de rinoceronte).

O número de leões teve queda de 43% nos últimos 20 anos, chegando a apenas 20 mil animais vivendo em ambiente selvagem. Eles ocupam apenas 8% do seu habitat histórico.

Uma parcela cada vez maior das terras habitadas por eles fica dentro de parques nacionais e reservas. No entanto, de acordo com a pesquisa, a maioria das áreas protegidas não está funcionando como santuários seguros para os leões.

Os pesquisadores também afirmam que mais de dois terços dos parques estaduais pesquisados abrigam populações de leões que não chegam a metade de seu potencial, com base nas presas que tais habitat poderiam sustentar. Se adequadamente administrados, esses parques poderiam quadruplicar a população de leões selvagens na África.

Para calcular os recursos necessários para ampliar as populações em pelo menos 50%, os pesquisadores empregaram três modelos financeiros. Então, após análise das espécies locais e do financiamento oferecido por doadores, além de entrevistas com funcionários e administradores dos parques, a equipe somou os recursos disponíveis para as áreas protegidas de 23 países incluídos no estudo.

Eles descobriram que até 94% dos parques operam com orçamentos que não chegam a 20% do necessário para uma preservação efetiva. Os parques precisam investir entre US$ 145 e US$ 300 por quilômetro quadrado. Em média, os parques gastam apenas US$ 30 por quilômetro quadrado.

O total necessário para renovar os parques da África fica entre US$ 1,2 bilhão e US$ 2,4 bilhões por ano. Se o problema de financiamento não for resolvido, leões e outras espécies enfrentarão um declínio acentuado em suas populações, alertam os autores.

O pesquisador Peter Lindsay explica que áreas protegidas que não recebem a gestão adequada sucumbem invariavelmente à caça, à grilagem de terras, à mineração ilegal ou ao desmatamento. As pessoas também têm muito a perder.

Os ecossistemas saudáveis proporcionam muitos benefícios, que vão da proteção de recursos hídricos até o armazenamento de carbono. Em muitos lugares da África, os parques também contribuem para a criação de empregos, crescimento econômico e desenvolvimento rural por meio do turismo - uma indústria de US$ 34 bilhões no continente, principalmente em destinos ligados à natureza.

África do Sul e Quênia investem mais pesadamente em áreas protegidas que a maioria dos demais países, e são relativamente poucos os seus parques que apresentam déficits. Outros países, como Moçambique, têm muitos leões e paisagens de tirar o fôlego, mas sua indústria do turismo não é muito desenvolvida.

Ainda de acordo com Lindsay, a escassez pode ser remediada se os países desenvolvidos e agências como o Banco Mundial ampliarem suas contribuições para preservação. A África recebe cerca de US$ 51 bilhões em auxílio anual para o desenvolvimento. De acordo com o estudo, se 2% desse total fossem destinados à preservação, boa parte da crise iminente seria contida.

"Chegamos a uma encruzilhada", disse Peter Lindsey. "É hora de o mundo decidir se vale a pena lutar pelos icônicos parques e reservas da África".

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