Brett Gundlock para The New York Times
Brett Gundlock para The New York Times

Sapateiro mexicano preserva a arte de produzir chuteiras à mão

Após 40 anos, José Luís Rivera se recusa a deixar morrer sua atividade artesanal, embora a indústria calçadista seja um grande obstáculo

Raúl Vilchis, The New York Times

22 de maio de 2019 | 06h00

José Luis Rivera levou 22 anos para aprender a fazer um par de chuteiras à mão. Quem lhe ensinou foi o sogro, que certa vez fez um par para Pelé. Rivera começou como aprendiz do sogro, David Rivas, que por mais de 40 anos se dedicou a fazer os calçados que o projetaram para a fama nos anos 1970 nos campos de futebol amador e profissional do México. As chuteiras eram chamadas Colmeneros.

Quando Rivera se casou com a filha de Rivas, tinha 20 anos e o México se preparava para a Copa do Mundo de 1986. Sem perspectivas de emprego, ele começou a trabalhar como ajudante na oficina da família Rivas. Suas primeiras tarefas eram simples, como recortar moldes no couro. Mas ele começou a aprender quais eram as texturas mais adequadas para cada parte do calçado, e como usar a máquina de costura. A última especialidade que teve de aperfeiçoar foi prender a sola e as travas. Assim que dominou a técnica, pôde montar um par sozinho.

"Era uma atividade que exigia precisão e, acima de tudo, muita paciência para aprender", contou. Agora com 52 anos, Rivera ainda pratica sua especialidade em uma pequena oficina nos arredores da Cidade do México, cultivando com orgulho uma arte que está desaparecendo.

A produção industrial de calçados eliminou grande parte do seu negócio, mas depois de 40 anos no ramo, ele se recusa a deixar morrer sua operação artesanal, embora admita que se trata de uma luta difícil de vencer.  Depois da assinatura do Tratado de livre Comércio para a América do Norte, em 1994, grandes fabricantes internacionais, como Nike, Puma e Adidas, inundaram o mercado mexicano com chuteiras.

Rivera é o último herdeiro vivo de uma tradição que começou em 1960, quando o jogador profissional de Guadalajara Eduardo Colmenero cansou de usar chuteiras que machucavam seus pés, e resolveu fazer ele mesmo as suas.

"(Colmenero) desmanchou algumas que tinha e substituiu o plástico por couro", contou a filha do jogador, Ana Gabriela. Ele fez os primeiros pares para uso pessoal, mas depois que deixou de jogar, em 1966, dedicou-se integralmente à produção externa.

À medida que a demanda por seus calçados especiais cresceu, Colmenero precisou de ajuda. No bairro de Tepito, na Cidade do México, onde os sapateiros costumavam comprar componentes e usavam máquinas de costura coletivas, conheceu Rivas, que pouco tempo antes fora demitido de uma fábrica de sapatos. A sociedade dos dois durou 45 anos, até a morte de Colmenero, em 2010.

A oficina cresceu e passou a ter cinco funcionários. Nos anos 1970 e 1980, eles produziam 600 pares por mês. Durante a Copa do Mundo de 1970, fizeram chuteiras para Pelé e para Bobby Charlton, da Inglaterra. Posteriormente, fizeram um par também para o astro mexicano Hugo Sánchez.

"Naquela época, era difícil encontrar boas chuteiras", disse Felix Fernández, ex-goleiro do Atlante e da seleção mexicana. "Agora, há uma grande quantidade de marcas disponíveis", disse.

Nos anos 2000, a produção caiu para cerca de 300 pares por mês. Em 2012, depois da morte de Colmenero, Rivas transferiu a empresa para o genro. Dois anos mais tarde, Rivas morreu.

Rivera faz de cinco a dez pares de chuteiras por mês para os poucos clientes fiéis, e custam 1.200 pesos mexicanos (cerca de R$ 270) o par. A oficina fica perto de sua casa, no bairro de Valle de Chalco. Ele leva cerca de três horas para fazer um par de chuteiras, e trabalha cada sapato sobre um molde de madeira com as ferramentas próprias para curtir e dar forma ao couro. Rivera salienta que cada par é feito por encomenda, o que garante que um par nunca seja igual ao outro.

"São como luvas nos pés. Únicas", disse. "E nós as fazemos com muito amor". / TRADUÇÃO DE ANNA CAPOVILLA

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