Alimentos viciantes nos fazem engordar?

Alimentos viciantes nos fazem engordar?

Pesquisadores debatem se alimentos ultraprocessados, como salgadinhos e sorvete, são viciantes e nos levam a comer em demasia

Anahad O’Connor, The New York Times - Life/Style

31 de março de 2021 | 05h00

Há cinco anos um grupo de nutricionistas fez um estudo sobre o que os americanos comem e chegou uma conclusão surpreendente: mais da metade de todas as calorias que o americano médio consome vem de alimentos ultraprocessados, que foi definido como “fórmulas industrializadas” que combinam grandes quantidades de açúcar, sal, óleos, gorduras e outros aditivos.

Os alimentos processados continuam a dominar a dieta do americano, mesmo estando ligados a problemas de obesidade, doenças cardíacas, diabetes Tipo 2 e são desenvolvidos para terem um bom sabor. São comercializados agressivamente pelo setor alimentício. Mas um número cada vez maior de cientistas propõe mais uma razão pela qual esses produtos são tão consumidos: a de que, para muitas pessoas, eles não são apenas uma tentação, mas também vício, uma noção que tem provocado controvérsia entre os pesquisadores.

Recentemente o American Journal of Clinical Nutrition explorou o que existe de científico por trás do vício de comida e se alimentos ultraprocessados contribuem para o comer em excesso e a obesidade. E citou um debate entre dois dos mais influentes especialistas no assunto, Ashley Gearhardt, professora de Psicologia na Universidade de Michigan, e o Dr. Johannes Hebebrand, diretor do departamento de psicossomática, psicoterapia e psiquiatria infantil e juvenil, na universidade de Duisburg-Essen, Alemanha.

A Dra. Gearhardt, que é psicóloga clínica, ajudou a criar a Yale Food Addiction Scale (Escala de Dependência Alimentar de Yale) um recurso usado para determinar se uma pessoa mostra sinais de dependência com relação a alimentos. Em um estudo que envolveu mais de 500 pessoas, ela e seus colegas concluíram que determinados alimentos são particularmente propensos a provocar uma espécie de vício, como o desejo intenso de degustá-los, uma perda de controle e a incapacidade de cortá-los da dieta apesar de a pessoa sofrer consequências prejudiciais e desejar não mais ingeri-los.

No topo da lista estão a pizza, chocolate, salgadinhos, cookies, sorvete, batata frita e o cheeseburger. Na pesquisa, o grupo verificou que os alimentos ultraprocessados têm muita coisa em comum com substâncias que causam dependência. Como o cigarro e a cocaína, seus ingredientes são derivados de plantas naturais e os alimentos são despojados de componentes que reduzem a velocidade da sua absorção, como fibra, água e proteína. Em seguida, seus ingredientes mais prazerosos são refinados e transformados em produtos que são rapidamente absorvidos no sangue, intensificando a capacidade de acender regiões do cérebro que regulam a gratificação, a emoção e a motivação.

O sal, os espessantes, os sabores artificiais e outros aditivos no caso de alimentos extremamente processados aumentam sua atração intensificando propriedades como textura e a sensação na boca, da mesma maneira que os cigarros contêm uma série de aditivos para aumentar o potencial de dependência, disse a médica. O mentol ajuda a mascarar o gosto amargo da nicotina, por exemplo, ao passo que outro ingrediente usado em alguns cigarros, como cacau, dilatam as vias aéreas e aumenta a absorção da nicotina.

Um denominador comum entre os alimentos ultraprocessados mais comuns é o fato deles conterem uma grande quantidade de gordura e carboidratos refinados, uma combinação potente raramente vista nos alimentos naturais que os humanos ingerem, como frutas, vegetais, carne, nozes, mel, grãos e sementes. Muitos alimentos encontrados na natureza são ricos em gordura ou carboidratos, mas não em quantidades altas.

“As pessoas não desenvolvem um vício no caso de alimentos naturais bons para nossa saúde, como os morangos”, disse a Dra. Gearhardt, que é diretora do Laboratório de Tratamento e Ciência do Alimento e do Vício da Universidade de Michigan. “É este subconjunto de alimentos ultraprocessados que é desenvolvido de uma maneira muito similar à maneira como são produzidas outras substâncias viciantes. São alimentos que geram uma perda de controle e um comportamento compulsivo problemático similar ao que observamos no caso do álcool e do cigarro”.

Em um estudo, a médica verificou que, quando as pessoas cortam esses alimentos ultraprocessados da sua dieta, elas relatam sintomas comparáveis à retirada da droga no caso de viciados, como irritabilidade, fadiga, sensação de tristeza e um forte anseio pelo alimento.

Outros pesquisadores descobriram em estudos de imagem do cérebro que as pessoas que consomem com frequência alimentos considerados junk food desenvolvem uma tolerância a eles com o tempo, o que as leva a necessitar de quantidades cada vez maiores para desfrutar do mesmo prazer.

Nas suas práticas clínicas, a Dra. Gearhardt atende pacientes – alguns obesos, outros não – que lutam em vão para controlar a ingestão de alimentos muito processados. Alguns tentam comer com moderação, e no final percebem que perderam o controle e comem a ponto de se sentirem mal e angustiados. Muitos descobrem que não conseguem deixar de ingerir esses alimentos apesar de terem problemas com diabetes, ganho de peso excessivo e outros problemas de saúde.

“O mais surpreendente é que meus clientes quase sempre estão bem conscientes das consequências negativas desse consumo e normalmente já tentaram dezenas de estratégias, como dietas radicais para controlarem sua relação com esse tipo de alimento. Embora as tentativas funcionem por um curto período, quase sempre eles acabam tendo uma recaída”.

Mas o dr. Hebebrand argumenta que nem todos os alimentos são viciantes. Enquanto salgadinhos e pizza possam parecer irresistíveis para uns, ele diz que eles não causam uma alteração no estado mental da pessoa, uma característica das substâncias viciantes. Fumar um cigarro, beber uma taça de vinho ou usar heroína, por exemplo, causam uma sensação imediata no cérebro, o que não acontece em relação aos alimentos, segundo ele. 

“Seja qual for a droga que o torna dependente, a história é sempre a mesma, quase todo mundo terá um estado mental alterado depois de ingeri-la”, afirmou o dr. Hebebrand. “Isso indica que a substância está tendo efeito sobre o seu sistema nervoso central. Mas todos nós ingerimos alimentos super processados e nenhum de nós experimenta esse estado mental alterado porque não há um impacto direto de uma substância no cérebro”.

Nos problemas com o uso de substâncias, as pessoas se tornam dependentes de uma substância química específica que age sobre o cérebro, como a nicotina nos cigarros, ou o etanol no vinho ou na bebida alcoólica. De início, elas procuram essa substância para se animarem, mas depois ficam dependentes dela para aliviar as emoções negativas e depressivas. Mas, no caso dos alimentos altamente processados, não existe nenhum componente que podemos destacar como viciante, disse o médico.

De fato, evidências sugerem que as pessoas obesas que comem em demasia tendem a ingerir uma ampla variedade de alimentos com texturas, sabores e composições diferentes. Para o dr. Hebebrand, o comer em excesso é motivado em parte pela comercialização de mais de 20 mil novos produtos a cada ano, dando às pessoas o acesso a uma gama sem fim de alimentos e bebidas.

“É a diversidade de alimentos que atrai e causa o problema, não uma única substância nesses alimentos”, acrescentou ele.

Os que são contra a tese do vício alimentar também sublinham que muitas pessoas consomem alimentos muito processados diariamente sem mostrar sinais de dependência. Mas a Dra. Gearhardt observa que substâncias viciantes não levam todas as pessoas que as consomem ao vício. Segundo a pesquisa, dois terços das pessoas que fumam cigarros ficam viciadas, ao passo que um terço não. Somente 20% das pessoas que usam cocaína em sua vida se tornam dependentes, ao passo que apenas 23% das que bebem álcool desenvolvem o vício. Estudos sugerem que há uma série de fatores que determinam se a pessoa vai se tornar dependente, incluindo sua genética, histórias de família, exposição a traumas e seu histórico socioeconômico e ambiental.

“Muitas pessoas experimentam substâncias viciantes e não ficam viciadas”, disse a medida. “Portanto, se esses alimentos são viciantes, não vamos achar que 100% da sociedade desenvolverão um vício neles”.

No caso de uma pessoa que luta para limitar a ingestão desses alimentos ultraprocessados, a médica recomenda fazer um diário do que ela come para identificar os alimentos que mais a atraíram – os que causaram um desejo intenso e que ela não consegue parar de comer. O melhor é manter esses alimentos longe de casa, e ao mesmo tempo armazenar a geladeira e a despensa com alternativas mais saudáveis que a agradam.

Importante também é registrar as sensações que levam ao desejo de comer e a petiscar o tempo todo. Podem ser emoções como estresse, tédio e solidão. Pode ser o Dunkin’ Donuts que você ingere três vezes por semana dirigindo seu carro. Fazer um plano de modo a controlar essas sensações desencadeadoras, é bom, por exemplo fazendo um trajeto diferente na volta para casa, e adotando atividades que não sejam alimentares para aliviar o estresse e o tédio.

“Lembre-se de estar regularmente alimentando seu corpo com alimentos nutritivos, minimamente processados, que você aprecia, isto é importante para ajudá-lo a enfrentar um ambiente alimentar muito desafiador. / TRADUÇÃO DE TEREZINHA MARTINO

The New York Times Licensing Group - Todos os direitos reservados. É proibido todo tipo de reprodução sem autorização por escrito do The New York Times

Tudo o que sabemos sobre:
alimentonutriçãoobesidadepsicologia

Encontrou algum erro? Entre em contato

Comentários

Os comentários são exclusivos para assinantes do Estadão.

O Estadão deixou de dar suporte ao Internet Explorer 9 ou anterior. Clique aqui e saiba mais.