Rick Wilking/Reuters
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Como domar o monstro do lanchinho na quarentena

A pandemia bagunçou os hábitos do lanche das crianças. Aqui vão algumas dicas para restabelecer um esquema de alimentação flexível

Virginia Sole-Smith, The New York Times - Life/Style

28 de setembro de 2020 | 05h00

Em algum momento durante os últimos meses, minha filha de 2 anos começou a exigir um lanchinho todos os dias, por volta das 9 horas da manhã. Apesar dessa previsibilidade, o pedido sempre me tirava do sério, porque geralmente terminávamos o café da manhã lá pelas 8h30.

Às 9 horas, eu queria que meus filhos estivessem ocupados com os livros, ou com os bloquinhos de montar, ou só girando em círculos enquanto eu limpava os pratos do café da manhã, descarregava a máquina de lavar louça e talvez até abrisse meu laptop e tentasse trabalhar um pouco. Mas era então que Beatrix, minha filha mais nova, sentindo que minha atenção não estava mais dedicada a ela, precisava urgentemente de um biscoito. Aí eu dava um biscoito e tentava voltar a fazer todas aquelas coisas que estava fazendo, até que, passados mais vinte minutos, ela queria um pedaço de queijo. Pouco depois, mais um pedaço de queijo. E, depois, um pouco de mirtilo.

Às 10h30, hora em que eu ingenuamente pensava que “deveria” acontecer um lanche matinal, ela já tinha acabado com três ou quatro lanchinhos e estava pronta para um ou cinco biscoitos. Às 11h45, ela tinha um ataque de raiva pedindo almoço que só parava quando eu lhe jogava uma compota de maçã. Quando eu punha o almoço na mesa, 11h58, não, obrigada, ela estava cheia. E este virou nosso padrão diário por quase dois meses.

Já escrevi muito sobre a relação de nossos filhos com a comida e, em particular, sobre os lanchinhos. Mas, em agosto, tive de admitir que havia perdido o rumo dos lanches com essa criança. No "tempo de antes", nós tínhamos a estrutura da escola, o trabalho e a possibilidade de sair de casa para nos ajudar a decidir quando comer e fazer outras coisas. Agora, todas as linhas divisórias estão borradas. E, com muitas crianças de volta às aulas remotas, é improvável que isso mude.

“Meu filho de 6 anos comeu tantos biscoitos Cheez-Its que acho que já estou pagando a faculdade dos filhos do dono”, disse Emily Gardner, 43 anos, mãe de dois filhos em Nitro, Virgínia Ocidental, quando pedi para os pais compartilharem suas histórias de lanches no Instagram. “Não tem mais isso de sentar à mesa para almoçar”, acrescentou Camie Manning, 34 anos, mãe de dois filhos em Alcoa, Tennessee. “Só tem crianças correndo por aí com rolos de pizza na mão”.

Então, como podemos retomar o caminho certo, com melhores hábitos alimentares, mesmo sem perspectiva de fim para a vida pandêmica?

Intercale os lanches com as refeições

Em primeiro lugar, saiba que é normal que as crianças comam mais quando ficam em casa. Às vezes elas se acalmam com comida, o que não é, por si só, uma coisa prejudicial à saúde. Minha filha de 7 anos gosta de comer M&Ms vendo TV ou lendo histórias em quadrinhos durante sua “hora de silêncio” no meio da tarde - e eu adoro o conforto e o prazer que ela sente com essa rotina. As crianças também podem ficar “mais sintonizadas com sua fome em casa, sem todas as distrações e pequenos intervalos para refeições de um típico dia escolar”, disse Elizabeth Davenport, nutricionista de Alexandria, Virgínia, coautora do blog Sunnyside Up Nutrition, onde fala sobre alimentação das famílias.

Você só precisa intervir se o lanche do seu filho estiver virando aquele tipo de mastigação incessante, o dia inteiro, que substitui as refeições regulares à mesa. “Queremos que as crianças sintam um pouco de fome antes de comer, porque isso as ajuda a se autorregular”, disse Megan McNamee, nutricionista em Scottsdale, Arizona, e cofundadora da Feeding Littles, empresa que oferece cursos on-line sobre alimentação de bebês e crianças pequenas. “Com a mastigação constante, elas ficam nesse nível básico de não ter muita fome, mas não se sentir satisfeitas de verdade o dia todo, e podem perder a fome para comer com a família e experimentar novos alimentos. Além disso, a comida tem um gosto melhor quando você está com fome”.

Por esse motivo, Davenport e McNamee concordam que é mais importante se concentrar no quando e onde as crianças lancham e menos no que elas comem. Não espere que a criança fique mais de três ou quatro horas sem comer, e as crianças de colo precisam comer a cada duas horas, então planeje servir refeições e lanches de acordo com essas necessidades. “Pense nisso como uma rotina flexível, em vez de uma programação rígida”, disse McNamee. Com as crianças mais velhas, uma boa ajuda é escrever a programação ou lhes mostrar no relógio quando serão feitos os lanches e refeições. Com as crianças pequenas, converse em termos de atividades: tomar café da manhã, brincar ao ar livre, fazer um lanche, ler livros, almoçar.

É claro que as crianças podem reclamar dessa transição, o que é um bom motivo para você não mudar a programação alimentar e as escolhas alimentares simultaneamente. “Lembre-se de que estrutura não significa restrição”, disse Davenport.

Deixe as crianças saberem que podem comer o quanto quiserem na hora do lanche ou da refeição e não as proíba de se servirem mais de uma vez. As crianças comem mais nas casas onde os pais são mais restritivos, de acordo com uma análise de 47 estudos sobre práticas alimentares dos pais publicados entre 1980 e 2017. Ofereça seus alimentos favoritos junto com os alimentos que você gostaria que elas comessem, mas não faça escândalo sobre o que elas escolhem comer primeiro, nem as obrigue a acabar com as frutas antes de ganhar um biscoito.

“As crianças são iguais aos adultos: querem o que não podem ter”, explicou Jill Castle, nutricionista e coautora de Fearless Feeding [“Alimentação sem medo”, em tradução livre].

“Seu objetivo é criar filhos que possam passar pelo pote de M&M e às vezes dizer ‘não, hoje não estou a fim’ e outras vezes dizer ‘sim, hoje eu quero um pouco!’, sem que nenhuma das duas respostas seja automática”.

À medida que as crianças se acostumam a comer sob determinada programação, Davenport disse, você pode oferecer escolhas como: “prefere manteiga de amendoim e maçã, ou biscoitos e leite?”. Não se estresse se elas escolherem o mesmo lanche todos os dias. É normal que as crianças passem por fases de amar intensamente certos alimentos; depois de algumas semanas, elas estarão habituadas e ficarão prontas para experimentar alguma coisa nova. “Os pais se cobram muito para servir algo diferente a cada refeição, mas você simplesmente não precisa fazer isso”, disse Davenport.

Faça dos lanchinhos um momento de sentar e comer

O jeito mais fácil de fazer uma programação de lanches é estabelecer regras básicas e claras sobre onde os lanches são servidos. Este foi o erro que cometi ao entregar aqueles biscoitos das 9 horas da manhã que Beatrix comia enquanto dançava pela nossa casa ao som da trilha sonora de Moana. Também pode ser um problema se as crianças fazem a maioria das refeições ou lanches em frente às telas, porque a distração dificulta a percepção de que estão ficando cheias.

Para corrigir nosso lanche matinal, McNamee sugeriu oferecer a Beatrix dois lanches matinais do início, mas fazendo com que ela se sentasse para comer. “Você pode mudar o local: servir um na mesa e o outro num cobertor no chão da sala”, disse ela. “De um jeito ou de outro, se ela se sentar para fazer uma pequena refeição substancial, ela vai se sentir mais satisfeita”. Assim, quando ela está pronta para se levantar, posso deixar bem claro que agora só vamos comer na nossa próxima refeição.

McNamee também observou que as crianças tendem a se concentrar mais na refeição quando um adulto se junta a elas. Este pode ser um conselho indesejável se você estiver fazendo malabarismos entre o trabalho, as aulas remotas e a falta generalizada de creches. Mas, se você conseguir reservar pequenos intervalos nas programações do Zoom para a família se sentar para fazer os lanches e almoçar, você verá que essa dinâmica alivia o estresse dos lanches e melhora o humor de todo mundo. Se você sabe que não tem como fazer isso, pense em preparar almoços ou lanches com antecedência, para que as crianças possam se servir sozinhas. Ou, para crianças mais velhas, separe uma gaveta na geladeira e uma prateleira na despensa onde elas mesmas possam pegar os lanches.

“Então você pode dizer: ‘pegue um iogurte e uns biscoitos e encontre um lugar para sentar e fazer seu lanche’”, disse Davenport. “Dessa maneira, você ainda está fornecendo estrutura, mas dando mais responsabilidade a elas. Todos nós estamos fazendo malabarismos com todas nossas obrigações agora, então faz sentido dar às crianças um pouco mais de autonomia em relação à comida”. / TRADUÇÃO DE RENATO PRELORENTZOU

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