Como o botox passou a se tornar a regra
Jessica Schiffer, The New York Times - Life/Style

01 de maio de 2021 | 05h00

Esqueça o que você acha que sabe sobre o botox. Antes consideradas uma arma não tão secreta assim das celebridades e dos ricos e tendo a má reputação de deixar o rosto congelado, as injeções para eliminar rugas se tornaram corriqueiras para algumas pessoas com dinheiro de sobra.

"Muitos millenials priorizam cuidar de si mesmos desde cedo e realmente acreditam na prevenção. Isso só foi amplificado durante a pandemia, já que as pessoas têm passado muito mais tempo olhando para si mesmas nas telas", disse a dra. Panta Rouhani Schaffer, dermatologista de Nova York que tem visto, nos últimos anos, um aumento de pacientes mais jovens que solicitam aplicações de botox.

Mas eles estão procurando resultados à maneira de J. Lo, e não como os da socialite americana Jocelyn Wildenstein. É uma abordagem mais suave, chamada por alguns de "baby botox" e de "botox preventivo" por outros, que está mudando a pergunta comum "Você vai aplicar botox algum dia?" para "Quando você vai começar?".

Cada vez mais, a resposta dos millenials e da Geração Z se dá na casa dos 20 e na dos 30 anos, faixa etária em que a maioria dos baby boomers e dos pertencentes à Geração X ainda não se preocupava com o envelhecimento com a mesma ansiedade. (Veja: o protetor solar, considerado obrigatório hoje, não era usado amplamente até o início dos anos 90.)

Leah Walkiewicz, de 27 anos, gerente de produto em Manhattan, aplica botox na testa desde os 24, decisão estimulada pela formação precoce de rugas que ela descobriu no rosto e por uma observação mais atenta do processo de envelhecimento dos membros de sua família. "Sempre tive linhas de expressão na testa, e claro a maquiagem se instalava nelas", afirmou a respeito da decisão de começar tão jovem.

Do estigma ao compartilhamento

As mídias sociais têm sido ao mesmo tempo uma bênção e uma maldição em nosso relacionamento com o botox. Embora as plataformas pesos-pesados de selfies tenham tornado mais fácil se comparar aos outros e se desesperar com a aparência, também ajudaram a romper estigmas e aumentar o conhecimento sobre o assunto que já foi tabu.

Kathryn Gongaware, de 32 anos, professora de ioga e comediante de Chicago, sempre teve curiosidade em relação ao botox, mas, depois que falou dele a amigos, percebeu que, surpreendentemente, pessoas como seu acupunturista natureba faziam aplicações; foi então que se sentiu confortável para tomar a decisão aos 30. "Quanto mais as pessoas se abriam sobre o assunto, mais ele perdia o estigma", contou ela.

Essa franqueza tem sido particularmente transformadora entre as mulheres negras, que muitas vezes são deixadas de fora das conversas e do marketing de procedimentos cosméticos. "Existe também um estigma profundamente arraigado em muitas comunidades negras: o de que, ao optar por procedimentos cosméticos que tendem aos ideais de beleza europeus, você está rejeitando suas raízes. Historicamente, e ainda hoje, a maioria dos anúncios de procedimentos cosméticos não retrata ou tem como alvo as minorias. Mas agora, com as mídias sociais, dá-se mais atenção a isso, já que as mulheres negras também fazem procedimentos cosméticos, de modo que o estigma em torno delas parece estar diminuindo", observou a dra. Onyeka Obioha, dermatologista de Los Angeles que usa botox desde os 25 anos.

Embora o compartilhamento on-line tenha ajudado a reduzir o estigma, também trouxe consigo algumas desvantagens – por exemplo, os jovens acham que precisam colocar botox porque seus amigos estão fazendo isso. "Já recebi jovens de 20 anos, ainda na faculdade, que não sabem nada sobre botox, que realmente não precisam dele, mas que têm medo de perder oportunidades – acham que devem usar porque seus amigos estão usando. Não vou injetar botox em jovens dessa idade e tento lhes explicar por que realmente não precisam do produto", afirmou a dra. Sheila Farhang, dermatologista e cirurgiã plástica do Arizona.

A diferença é o 'baby botox'

Uma mudança na forma como o botox é administrado também ajudou a convencer os mais jovens a experimentá-lo. "Quando o botox foi lançado, era realmente usado para isolar e imobilizar os músculos, por isso as pessoas associavam aquele olhar congelado ao produto", disse Schaffer. Na época, os médicos aplicavam de 20 a 30 unidades apenas em uma área ou um músculo, dosagem que diminuiu significativamente nos últimos dez anos. "As pessoas estão começando a perceber que, ao aplicar menos, se obtém um efeito suave muito bom, resultando naquilo que querem em matéria de firmeza e retexturização."

O "baby botox" envolve o uso de 20 a 35 unidades espalhadas por vários músculos do rosto, mais comumente na testa (de duas a 12 unidades), na glabela e na área da sobrancelha (de 20 a 22 unidades) e no canto dos olhos (de três a quatro unidades por olho). Quando bem feito, o resultado é um olhar revigorado que não deixa o rosto imóvel.

A maioria dos pacientes na faixa dos 20 e dos 30 anos está em busca de suavizar as linhas de expressão e prevenir a formação de rugas profundas e estáticas no futuro. "Aplicando o botox, com o tempo você desbasta esse músculo e o usa menos, portanto essas linhas realmente não ficam gravadas", explicou Schaffer.

O que poderia dar errado?

Embora menos arriscado do que as injeções de preenchimento, o botox nem sempre é a cura milagrosa de Benjamin Button que se pretende que seja. Agir com cautela, especialmente quando se começa jovem, é fundamental.

Farhang explicou que o botox é um procedimento médico. Seu lado positivo é a impermanência, porque, mesmo que um injetor exagere na dosagem, o botox vai regredir sem alterar o rosto em longo prazo. Com doses elevadas contínuas, os músculos podem tecnicamente se atrofiar ou perder a força. Mas, com outros músculos em movimento no rosto, isso não é algo que necessariamente será notado.

Apesar de sua impermanência, o botox "ruim" pode durar meses, sendo arriscado para sua autoestima. Farhang atendeu uma noiva, a três semanas de seu casamento, com uma pálpebra caída por ter recebido uma injeção muito baixa e profunda na testa e na área das sobrancelhas. "Em um caso assim, não há literalmente nada que eu possa fazer além de prescrever um colírio que ativa um pouco esse músculo até que passe o efeito. Pode ser temporário, mas um período de quatro meses é muito longo para alguém parecer deformado."

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