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Embora atraentes, novos produtos à base de colágeno contêm um certo risco

Embora atraentes, novos produtos à base de colágeno contêm um certo risco

Você adiciona colágeno em pó à sua vitamina diária? Opta por uma barra de colágeno como lanche? Tome cuidado

Jessica Schiffer, The New York Times - Life/Style, O Estado de S.Paulo

01 de julho de 2021 | 05h00

Como muitas mulheres com os polegares colados à tela do celular, Chrissie Buckley tem um fraco pelas novidades que surgem no Instagram. Uma das experiências mais arriscadas foram os produtos que ela experimentou depois que uma influenciadora muito persuasiva a endossou e por um gasto que ela considerou mínimo. Mas quando acrescentou colágeno em pó ao seu carrinho de compras no início deste ano, seus caprichos tomaram um rumo tenebroso.

Os suplementos de colágeno dominaram seus feeds das redes sociais por meses, enquanto a popularidade de novas formulações de marcas como a Bulletproof, Dose & Co. e Vital Proteins cresciam. Em vez do formato da pílula de dormir, estas companhias estão vendendo creme de café com colágeno, pós nas bebidas e barras de proteína para fortalecer pele, cabelo, unhas e proporcionar articulações saudáveis.

Em fevereiro, um post da modelo Cindy Prado que aderiu aos benefícios para a redução das rugas do pó Vital Proteins Collagen Peptides a convenceu a fazer uma tentativa.

"Vou fazer 29 anos e quero começar uma nova rotina de cuidados da pele para combater o envelhecimento, por isso pensei que talvez  devesse experimentar algum tipo de colágeno", disse Chrissie, coordenadora de equipamentos médicos em Nova York.

Por mais ou menos um mês, tomou diariamente uma colher do produto no seu café, e então constatou que não havia mudanças no seu rosto, mas um dedo estava inchando. Dias mais tarde, o que inicialmente parecia uma picada de inseto se espalhou pelo anular e pelos dedos mínimos.

“A pele das minhas mãos parecia e eu a sentia espessa, como se tivessem virado salsichas, a ponto de eu não conseguir dobrá-las”, contou. A ida ao pronto-socorro não se mostrou produtiva. “Eles não tinham ideia do que estava acontecendo”.

Como sempre, um arriscado mergulho em profundidade no Google a convenceu de que se tratava de esclerodermia, uma rara doença autoimune em que o sistema imunológico faz com que o corpo produza uma quantidade excessiva de colágeno, provocando um endurecimento e espessamento da pele e dos tecidos conectivos.

Horrorizada, Chrissie jogou fora todos os produtos que mencionavam o colágeno; em alguns dias o inchaço baixou e ela recuperou a mobilidade dos seus dedos. “Agora, fujo disso como do diabo”, ela disse.

No entanto, não há nenhuma evidência a favor ou contra a possibilidade de os suplementos de colágeno provocarem esclerodermia, disse o dr. Frederick M. Wigley, diretor do Centro de Esclerodermia do Johns Hopkins, observando que não foi estudado, mas é biologicamente improvável. “O organismo é muito eficiente em sua função de regulação, por isso, se você toma algo em excesso o seu corpo se livrará do excesso e buscará o equilíbrio”, disse Wigley.

Qualquer que seja a sua origem, a reação de Chrissie ilustra a falta de pesquisa nas novas formulações de colágeno - que, como a maioria dos suplementos, não são regulamentadas pela FDA (Food and Drug Administration),  - e  chega ao mercado em meio a uma maré de conversas on-line sobre os efeitos negativos e a falta de eficácia que mal começa a romper a barreira mais barulhenta da moda.

“Ultimamente, todo mundo pegou carona no colágeno,” disse o dr. Niket Sonpal, um gastroenterologista de Nova York. “É a nova mania”.

A verdade por trás da propaganda exagerada

Os dados de pesquisa do Google refletem esta crescente obsessão: as pessoas começaram a procurar o colágeno a uma média de 1,4 milhão de vezes por mês neste ano, com um salto de 35% em relação ao ano passado, segundo a empresa de pesquisa Spate. Os pós e as bebidas à base de colágeno lideram estas pesquisas.

O aumento do interesse dos consumidores nos chamados alimentos funcionais, que afirmam oferecer benefícios em relação aos comprimidos dos suplementos tradicionais, é parcialmente responsável por isto. Como acontece com outras tendências em matéria de beleza e bem-estar, também há uma Kardashian.

Em outubro de 2020, Khloé Kardashian entrou em uma parceria como porta-voz global da Dose & Co., fabricante de suplementos de colágeno na Nova Zelândia. Desde então, seus mais de 140 milhões de seguidores foram inundados por propaganda da estrela acrescentando o produto às suas vitaminas diárias e compartilhando fotos de antes e depois para mostram clientes com a pele mais clara e cabelo mais espesso.

Isto bastou para convencer Witney Joseph, 36 anos, uma mãe que trabalha remotamente em Stamford, Connecticut, a experimentar o produto. “Depois que tive o meu primeiro filho, meu cabelo começou a cair e ficou quebradiço. O que, disse Khloé, também aconteceu com ela, e o que a ajudou foi o produto”, disse Whitney.

Nada disso aconteceu. Ao contrário, a sua pele normalmente clara começou a ficar fragilizada em poucos dias com a adição do suplemento às suas bebidas. Então, vasculhando a literatura do Reddit ela acabou descobrindo que o resultado era comum. Quando parou de tomar o produto, sua pele melhorou. “Tentei muitos suplementos, e agora cansei”, falou.

Como muitos destes produtos de colágeno incluem uma variedade de outros ingredientes, como biotina e ácido hialurônico, é difícil destacar o que desencadeia uma reação negativa. “Muitos deles vêm com proteína de soro, que contém lactose e pode induzir erupções de acne, além de muito açúcar”, explicou a dra. Ivy Lee, dermatologista em Los Angeles.

Os suplementos à base de colágeno procedentes de fontes marinhas, em vez do colágeno mais comum de fonte bovina, tornaram-se populares porque muitas pessoas optaram por reduzir o seu consumo de carne. Mas além disso, eles trazem consigo uma série de novos problemas. Especialistas informam que muito provavelmente eles desencadeiam reações alérgicas por causa de uma possível contaminação por mariscos.

Como o colágeno pode produzir maior saciedade, o que é comum com toda fonte de proteína, algumas companhias tentaram defini-lo como importante para a perda de peso, apesar da falta de evidências que corroborem esta conclusão, segundo a dra. Lee. Em alguns casos, estes produtos podem realmente produzir o efeito oposto por causa do seu teor frequentemente elevado de açúcar e carboidratos, assim como a tendência a causar inchaço.

E alguns dos efeitos secundários mais comuns são gastrointestinais: o dr. Sonpal ouve regularmente as pacientes que os experimentam queixar-se de diarreia, azia e constipação.

Então, haverá também um lado positivo?

Os especialistas afirmam que os estudos que indicam que o colágeno tem um efeito positivo sobre a elasticidade da pele e, em geral, uma sensação de juventude, são demasiado escassos e episódicos para dar uma real legitimidade aos produtos. “Esta não passa de mais uma oportunidade para promover a marca para a indústria da beleza, porque as pessoas estão sempre interessadas em parecer mais jovens”, afirmou a dra. Rabia De Latour, gastroenterologista e professora assistente de medicina na New York University.

Em abril, entretanto, pesquisadores publicaram uma revisão sistemática dos testes clínicos de suplementos de colágeno orais. “Os resultados respaldam a constatação de que ingerir colágeno pode reduzir as rugas da pele e melhorar a sua elasticidade e a hidratação da pele”, disse a dra. Lee. Mas o estudo não aprofundou a questão das novas fórmulas. “A dificuldade está  no fato de que a pesquisa não identificou as melhores dosagens ou formulações”, disse ela.

Por esta razão, os médicos recomendam moderação ao experimentar este produto pela primeira vez. Além de conversar com o seu médico para ter a certeza de que não irá interferir com outros medicamentos ou agravar questões crônicas de saúde, Sonpal sugere que você comece com a metade da dose recomendada e observe a reação do seu organismo ou se não está reagindo. Verifique se o colágeno é hidrolisado, processo que permite quebrá-lo em partículas mais fáceis de absorver. E o mais importante, segundo Sonpal, é que você estabeleça um prazo, porque os suplementos, qualquer que seja a sua fórmulaa, não podem ser tomados indefinidamente. Se você não vir resultados após três meses, será melhor parar com o suplemento.

Embora pareça sem graça, evitar estes produtos interessantes por via oral ainda é a opção mais segura. A dra. De La Tour recomenda incorporar outros alimentos para ajudar o seu organismo a manter o fornecimento de colágeno em sua dieta: aves, peixe, folhas verdes e alimentos com elevado teor de vitamina C. Seguir o conselho sobre a proteção solar com a qual você briga diariamente - usar protetor todos os dias, usar um chapéu e ficar na sombra - também pode prevenir a fragmentação do colágeno.

Além disso, se você está disposta a gastar, pode consultar um dermatologista para um tratamento com microagulhas ou laser que mostrou promover a produção de colágeno.

Diante da propaganda sensual sobre bem-estar e beleza no Instagram, convém lembrar que por trás de belas avaliações e dos inúmeros endossos, não existe uma mágica para tornar a sua pele perfeita. A dra. De La Tour afirma categoricamente: “Não se pode fazer o tempo voltar com um suplemento alimentar”. / TRADUÇÃO DE ANNA CAPOVILLA

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