Instagram/Tilly Whitfeld
Instagram/Tilly Whitfeld
Jessica Schiffer, The New York Times - Life/Style, O Estado de S.Paulo

06 de agosto de 2021 | 05h00

“Sempre sei quando alguma coisa se torna uma tendência no Tik Tok porque recebo um grande número de pacientes me perguntando a mesma coisa”, afirmou Niket Sonpal, gastroenterologista de Nova York.

E, na maior parte das vezes, essa “coisa” é uma dica de beleza ou bem-estar que viraliza na plataforma, sem provas de que realmente funciona. O conselho pode ser ineficaz ou realmente perigoso, desde beber clorofila para perder peso a usar protetor solar somente em áreas selecionadas para “naturalmente” bronzear seu rosto.

“Estamos falando sobre o Tik Tok o tempo todo no consultório”, disse Dendy Engelman, dermatologista e cirurgião plástico em Nova York, “e acho que ele é pior do que outras plataformas porque as pessoas vêm criando conteúdo com qualquer coisa que cause impacto e que viraliza, mesmo se não baseada na ciência”.

Não surpreende que o aplicativo que nos trouxe o “desafio do Benadryl” (grandes doses do anti-histamínico para induzir alucinações) e o “teste do Everclear” (ou seja tomar doses desse álcool retificado cujo teor alcoólico é 95%) não seja uma fonte de conselhos de beleza aprovados por médicos. Mas muitos consumidores deixam a razão e a cautela de lado quando veem essas tendências, numa notória e crescente subversão de autoridade, em que o mundo de um influenciador substitui aquele dos especialistas.    

“É interessante porque os pacientes no consultório ficam muito assustados com tratamentos. Mas quando veem alguma coisa no Instagram indicado por um influenciador de 18 anos eles a dão como certa”.

O que não se deve tentar em casa

Compilar uma lista exaustiva de dicas ruins de beleza no Tik Tok é quase impossível porque o conteúdo na plataforma parece se multiplicar com a capacidade cada vez menor das pessoas de prestar atenção ao que estão vendo e o seu desejo insaciável de novidades. Mas algumas tendências que têm dominado a plataforma ultimamente são consideradas especialmente incompreensíveis pelos médicos.

É o caso do “slugging”, nova moda no Tik Tok, que é dormir com uma camada grossa de vaselina no rosto para ajudar a hidratação. Vídeos com a hashtag tiveram 14.4 milhões de visualizações e têm sido promovidos por influenciadores como Hyram Yarbro e Cait Keirnan. Mas os dermatologistas alertam que a vaselina pode causar efeitos adversos na pele.

“Colocar um produto oclusivo na sua pele e deixar a noite inteira agrava a obstrução dos poros e as espinhas”, disse Engelman.

Outra tendência é “tomar sol no rosto sem filtro solar”, que Neera Nathan, dermatologista do Hospital Geral de Massachusetts, em Boston, teve conhecimento, horrorizada, por uma paciente.

Alguns influencers têm aconselhado pessoas cansadas de proteger o rosto com maquiagem e usar filtro solar com um alto fator a aplicar o protetor somente nas áreas que desejam realçar, como o alto das maçãs e o dorso do nariz. O resto do rosto deve bronzear (e queimar) sem nenhum filtro solar.

É um conselho totalmente contrário à recomendação da Academia Americana de Dermatologia de que todos devem usar um filtro de amplo espectro com um fator de pelo menos 30, independente do tipo de pele, quando estiverem expostos ao sol. “Sabemos que é crucial usar o protetor desde jovem para evitar um câncer de pele ou prevenir o envelhecimento da pele, portanto o fato de esses vídeos sugerirem o contrário para um público muito jovem é perturbador”, disse Nathan.

Em abril, o conselho de beber clorofila, que teve seu momento em outras redes sociais, despertou interesse daqueles que acessam o Tik Tok por causa do aval de influenciadores como Amelie Zilber, segundo a Traackr, plataforma de marketing de influencers. A clorofila foi definida como um “produto milagroso” que aumenta a energia, induz a perda de peso e clareia a pele, mas segundo os médicos essas afirmações não têm base em pesquisas.

Ingerir clorofila é uma das recomendações mais inofensivas no Tik Tok, mas provavelmente é um desperdício de dinheiro (O Detox Water Drops com clorofila da Sakara Life custa US$ 39, e a clorofila pura na Amazon custa em média US$ 20). “Se as pessoas estão vendo “resultados” tomando clorofila, provavelmente é porque estão bebendo mais água do que o normal, de modo que a pele melhora e as idas ao banheiro são mais regulares”, afirmou Sonpal, gastroenterologista.

Que tendências os médicos realmente querem que sejam deixadas para os profissionais?

O microagulhamento, que envolve espetar na pele minúsculas agulhas, é um método para gerar novo colágeno. No Tik Toka conversa sobre microagulhamento feito em casa aumentou em 2020 e chamou atenção de um número cinco vezes maior de pessoas em 2021, segundo a Traackr, mas os especialistas afirmam que o procedimento é incrivelmente arriscado quando feito em casa.

Embora alguns estudos mostrem que o microagulhamento no plano médico pode melhorar a pele e amenizar as rugas, “ele deve ser realizado em ambiente realmente limpo e seguro”, disse Engelman, apontando para o alto risco de infecção. “Se você aprofunda muito a agulha na pele, pode resultar em cicatrizes, além de mudança de cor e textura, basicamente piorando aquilo que a pessoa quer melhorar, como apagar pequenas rugas e cicatrizes de acnes”.

Cuidado!

Tilly Whitfeld, estrela do reality show Big Brother, da TV australiana, viu em primeira mão como podem ser perigosas essas tendências de beleza. Depois de passar 24 horas no programa usando máscaras faciais de argila ou uma maquiagem pesada, os telespectadores perguntaram o que ela estava usando no rosto e Tilly confessou no Instagram que tinha seguido um conselho de beleza no Tik Tok que havia danificado sua pele.

Whitfeld, 21 anos, disse pelo telefone, de Sydney, que não falou exatamente o que ocorreu porque sabia que iria parecer uma idiota.

Em agosto do ano passado, ela estava navegando pelo Tik Tok quando se deparou com um vídeo com pessoas ensinando como se livrar das sardas usando agulhas de costura e tinta e que as sardas desapareciam em seis meses. Como no vídeo não ficou esclarecido qual o tipo de tinta, ela comprou a usada em tatuagens que encontrou no eBay, que só depois descobriu que era um produto falsificado com muito chumbo, e começou a furar a pele com a agulha.

“Não feri tudo, por isso não pensei que devia parar o tratamento”, disse ela, e acabou repetindo a operação várias vezes como era aconselhado pelo criador do vídeo.

Seu rosto inchou e infeccionou. Além disso, por um período de tempo, ela perdeu a visão de um olho e agora está com cicatrizes nas bochechas e no nariz. Com quase US$ 12 mil de gastos com médicos, Tilly ainda precisa encontrar uma solução para corrigir os danos na pele. Utilizar laser não é uma opção porque, segundo os médicos, a tinta que usou, em vez de desaparecer vai ficar marrom.

“Sou uma estúpida”, disse ela.

Para os médicos, esse é um cenário aterrorizante. “Muitas pessoas vêm se declarando especialistas e não sofrem consequências por darem uma dica péssima”, disse Sonpal.

Os médicos esperam que histórias como a de Tilly Whitfeld levem as empresas que comandam essas plataformas a colocarem um aviso informando que os conteúdos não foram verificados por um profissional ou que são muito perigosos para tentar fazer em casa, mas eles não têm esperanças de que isso ocorra.

Nesse período, preferem que você procure um médico, marque uma consulta ou envie uma mensagem direta nas redes sociais, antes de acreditar em algum conselho num vídeo no Tik Tok.

Como disse Sonpal, “podemos orientá-lo e ensiná-lo quanto ao que fazer e isso em mais do que 60 segundos”. / TRADUÇÃO DE TEREZINHA MARTINO

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