Seu coração aguenta o uso da maconha?

Seu coração aguenta o uso da maconha?

Uma nova pesquisa sugere que fumar maconha acarreta muitos dos mesmos perigos cardiovasculares que fumar tabaco

Jane E. Brody, The New York Times - Life/Style

16 de novembro de 2020 | 05h00

Seu coração é forte o bastante para fumar maconha com segurança? Talvez não, de acordo com um número crescente de relatórios médicos. Atualmente, o aumento do uso de maconha em público, mesmo em cidades como Nova York, onde o uso recreativo continua a ser ilegal (ainda que não seja mais alvo de processos), reforçou a crença popular de que essa é uma prática segura e até mesmo boa para a saúde.

"Muitas pessoas acreditam que têm passe livre pra fumar maconha. Cheguei até a ouvir na rádio pública alguém sugerindo que as fabricantes de cigarros trocassem o tabaco pela maconha, já que, dessa maneira, venderiam vida, em vez de morte", disse Salomeh Keyhani, professora de medicina na Universidade da Califórnia, em São Francisco. Porém, se você já é usuário regular de maconha recreativa, ou está prestes a se tornar um deles, vale a pena levar em conta as evidências médicas que contradizem esse ponto de vista, especialmente para quem tem doenças cardiovasculares.

Em comparação com o tabaco, o consumo de maconha piora em cinco vezes a capacidade do sangue de transportar oxigênio, de acordo com um estudo publicado por Keyhani e colegas. Em uma análise das provas médicas, publicada em janeiro em The Journal of the American College of Cardiology, os pesquisadores descreveram uma série de riscos ao coração e à corrente sanguínea associados ao uso de maconha.

Os autores, liderados por Muthiah Vaduganathan, cardiologista do Brigham and Women's Hospital, em Boston, destacam que "a maconha está se tornando cada vez mais potente, e seu uso acarreta muitos dos mesmos perigos à saúde cardiovascular que o tabaco provoca". Formas comestíveis de maconha também aparecem como uma possível causa de ataque cardíaco, especialmente quando se consomem doses elevadas do ingrediente ativo, o THC.

"Os produtos da combustão inalados por um fumante de tabaco têm um perfil de toxinas muito parecido com o da maconha, de modo que os possíveis efeitos no coração e nos pulmões são comparáveis. Quando lidamos com pacientes, devemos mudar a maneira como encaramos o uso da maconha", explicou Vaduganathan. 

A equipe relatou que, "embora a maconha seja tragada menos vezes, as baforadas são maiores e há uma retenção maior da respiração, o que resulta em um volume maior de elementos inalados". Em outras palavras, em comparação com o tabaco, a exposição a substâncias químicas danosas ao coração e aos pulmões pode ser ainda maior para quem fuma maconha.

Vaduganathan disse ter ficado especialmente preocupado com o número crescente de ataques cardíacos entre usuários de maconha com menos de 50 anos. Em um registro de casos criado por seus colegas, envolvendo pacientes jovens que sofreram o primeiro ataque cardíaco, "o consumo de maconha foi identificado como um fator comum entre eles". O registro revelou que, mesmo quando o tabaco é levado em consideração, o uso da maconha está associado a um risco duas vezes maior de morte entre pessoas com menos de 50 anos que sofreram o primeiro ataque cardíaco.

Outros relatórios médicos sugerem razões possíveis. Uma equipe de pesquisa liderada por Carl J. Lavie, do Instituto Cardíaco e Vascular John Ochsner, em Nova Orleans, que escreveu para a revista científica Missouri Medicine, citou relatos de casos de inflamação e coágulos nas artérias e espasmos nas artérias coronárias em jovens adultos que fumam maconha. Outro efeito danoso ligado ao uso da maconha é a perturbação do sistema elétrico do coração, que gera ritmos cardíacos anormais, como a fibrilação arterial, que podem resultar em um AVC.

Em uma pesquisa envolvendo fumantes de maconha, o risco de AVC era mais de três vezes maior. Essa série de descobertas sugere que a pessoa não precisa ter uma doença arterial coronária subjacente para experimentar disfunções cardiovasculares causadas pelo uso de maconha. Existem receptores para canabinoides, o ingrediente ativo da maconha, nas células musculares do coração e nas plaquetas sanguíneas envolvidas na causa de ataques cardíacos.

Os canabinoides também podem interferir nos efeitos benéficos de diversos medicamentos cardiovasculares, incluindo estatinas, varfarina, medicamentos antiarrítmicos, betabloqueadores e bloqueadores dos canais de cálcio, observou a equipe de Boston. Os pesquisadores descobriram que, em uma análise de 36 estudos envolvendo pessoas que sofreram ataques cardíacos, os três maiores gatilhos eram o uso de cocaína, fazer uma refeição pesada e fumar maconha.

Além disso, 28 dos 33 estudos sistematicamente analisados ligaram o uso da maconha ao aumento do risco de síndromes coronárias agudas – uma redução do fluxo sanguíneo que pode causar dores insuportáveis no peito, falta de ar ou mesmo um ataque cardíaco. "Em condições em que a demanda aumenta em relação ao coração, o consumo da maconha pode ser a gota que faltava para causar um ataque cardíaco", disse Vaduganathan.

Ele sugere que o declínio recente na saúde cardiovascular e na expectativa de vida dos norte-americanos pode estar relacionado, ao menos em parte, com o aumento no uso de maconha entre jovens adultos. "Deveríamos fazer exames e testes para o uso de maconha, especialmente em pacientes jovens com sintomas de doença cardiovascular", aconselhou Vaduganathan. Ele demonstrou especial preocupação com duas práticas recentes: o uso de cigarros de maconha eletrônicos e de formas mais potentes da droga, incluindo produtos de maconha sintética.

"Os cigarros eletrônicos fornecem de maneira mais eficaz as substâncias químicas da fumaça da maconha, resultando em doses mais altas para o coração e em efeitos colaterais potencialmente mais graves. A maconha estimula reações do sistema nervoso simpático – aumento na pressão sanguínea e no ritmo cardíaco, o que demanda mais do coração e pode ser especialmente perigoso para pessoas com doenças cardíacas pré-existentes ou que tenham risco de desenvolvê-las", explicou o cardiologista.

A equipe de Vaduganathan estima que mais de dois milhões de americanos adultos que afirmam usar maconha também desenvolveram doenças cardiovasculares, de acordo com dados das Pesquisas dos Exames Nacionais de Saúde e Nutrição de 2015 e 2016. De acordo com Keyhani, que trabalha no Centro Médico San Francisco VA, a combinação entre o consumo da maconha e a presença de doenças cardíacas pré-existentes é especialmente preocupante porque inalar partículas de qualquer tipo pode afetar o coração e os vasos sanguíneos.

"A maconha é uma folha verde e a combustão de qualquer planta provavelmente é tóxica para a saúde humana, caso os produtos resultantes sejam inalados. Infelizmente, a base de pesquisa é inadequada, já que a maconha não foi avaliada em estudos clínicos randomizados", disse.

Um grande problema das tentativas de avaliar os riscos da maconha é que estudá-la rigorosamente por meio de ensaios clínicos controlados é ilegal, de acordo com o governo dos EUA. Por isso, os cientistas são obrigados a recorrer a outro método de pesquisa: estudos de coorte prospectiva, em que grandes grupos de pessoas com hábitos e fatores de risco conhecidos são acompanhados por longos períodos para avaliar seu estado de saúde.

"O desafio é encontrar um grupo de pessoas que usa cannabis diariamente. É absolutamente importante observar os efeitos da cannabis na saúde, agora que a prevalência do uso diário tem aumentado. A falta de provas não é uma prova de falta", explicou. Embora não existam, atualmente, diretrizes oficiais, a equipe de Vaduganathan alerta qualquer pessoa com risco elevado de doença cardiovascular a minimizar o uso de maconha ou, melhor ainda, a deixar de usar a substância.

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