Natalia Mantini/The New York Times
Natalia Mantini/The New York Times

Coletores menstruais em museus? Já está na hora

Objetos destinados ao nascimento, à fertilidade e maternidade há muito tempo são negligenciados pelas instituições. Um novo livro e algumas exposições visam mudar isso

Melena Ryzik, The New York Times - Life/Style, O Estado de S.Paulo

13 de agosto de 2021 | 05h00

Pense no coletor menstrual.

Um repositório destinado ao fluido corporal, ele foi patenteado pela primeira vez em 1867, meio século antes do absorvente interno, e até mesmo uma década antes do absorvente comum. Em 1930, apareceu um modelo de borracha, mas o seu predomínio se reduziu com a Segunda Guerra Mundial, quando a borracha era escassa. Entra em cena o absorvente interno descartável, que domina desde então.

Agora, uma equipe de curadores de design, profissionais de saúde e defensores querem que você reconsidere o coletor menstrual, retire-o do corredor ainda cor de rosa dos produtos de higiene feminina e olhe para ele como um objeto, não de utilidade privada, mas de beleza. 

O design varia, mas em sua versão mais comum, tem o formato de um sininho, é elegante, flexível, durável e lavável. A sua história está relacionada à moda: o primeiro coletor menstrual comercializado foi projetado por Leona Chalmers, uma antiga estrela da Broadway que o criou porque queria usar os seus trajes de seda branca sem medo. Leona foi incansável na defesa da sua versão para “mulheres modernas”; ao que tudo indica, ela estava muito à frente do seu tempo: o coletor se popularizou recentemente, com um forte aumento das vendas. A Tampax lançou sua própria versão em 2018.

“O que faz dele muito bom é também o preço, e o fato de proteger o meio ambiente – você só precisa de um, em vez de ter de comprar absorventes e absorventes internos aos montes por toda a vida”, disse Amber Winick, historiadora do design. Winick e Michelle Millar Fisher, curadora de artes decorativas contemporâneas no Museum of Fine Arts de Boston, acreditam que o coletor menstrual é digno de figurar em um museu, junto à bomba de leite materno, ao espéculo e ao DIU – que, normalmente, não são valorizados por sua estética e, em geral, são culturalmente invisíveis.

O seu novo livro provocador e sua série em exposição, Designing Motherhood: Things That Make and Break Our Births, afirma que há todo um mundo de objetos que pertencem às mulheres, mães e grávidas, que foram menosprezados do ponto de vista da perspectiva da forma e da função, e não foram estudados no que diz respeito a como os seus designs surgiram.

“Por que”, escrevem as organizadoras, eles “permaneceram tão escondidos embora definam a existência cotidiana de tantos?”

Em parte, trata-se de um problema de perspectiva e acesso, acrescentou Millar Fisher. “Esses objetos são usados frequentemente por pessoas que não tinham o poder de escrever a história, de tomar decisões ou construir a cultura material”, afirmou. “Simplesmente, não entravam na conversa, em voz alta, até pouco tempo atrás”.

Designing Motherhood começa com uma pequena mostra, inaugurada em Filadélfia em maio, no Mütter Museum, um museu da medicina conhecido por sua coleção de curiosidades anatômicas. Uma mostra mais ampla será inaugurada em setembro, no Center for Architecture and Design em Filadélfia.

A pandemia impediu que as duas mostras fossem inauguradas ao mesmo tempo, como havia sido planejado, mas a ideia sempre foi mesclar os públicos da ciência, medicina e design, disseram as organizadoras. No desenvolvimento do seu projeto, elas trabalharam com Juliana Rowen Barton, curadora e historiadora que estuda a interseção de gênero, raça e design, e Zoe Greggs, artista e assistente de curadoria, e com a parceria de Maternity Care Coalition, uma comunidade sem fins lucrativos da Filadélfia que ajuda famílias de baixa renda.

Seu pilar é um livro, que será lançado em setembro pela MIT Press. Em seções destinadas à reprodução, gravidez, nascimento e vida pós-parto, trata da história social e médica, destacando as inovações, como o novo conceito elegante de espéculo, e inventos extremamente necessários, como o Del-Em, um dispositivo de “extração menstrual” de 1971, ainda adaptado para abortos nos dias atuais. Ambos estão expostos no Mütter Museum.

As autoras também tratam da mudança das ideologias: por exemplo, elas apresentam uma parteira que elimina os estribos médicos em sua prática, e orienta como examinar pessoas que estão em cadeira de rodas ou com mobilidade diferente. A mesa ginecológica – usada para conveniência dos médicos, mas há décadas uma forma de desconforto para as mulheres na hora do exame – não precisa ser o único método.

A forma feminina é quase certamente uma das partes da arte mais visualizada, e entre as mais represntadas nas coleções. Entretanto, “não por acidente os museus negligenciam objetos projetados para atender às necessidades do corpo feminino”, disse em um e-mail Alexandra Cunningham Cameron, curadora de design contemporâneo no Cooper Hewitt, Smithsonian Design Museum. “Ao contrário, é sintomático do campo do desenho industrial e curatorial historicamente dominado pelos homens; de uma cultura que prioriza a fantasia em relação à biologia; que prioriza o nascimento e torna os corpos das mulheres meras mercadorias. Os museus do design se encontram em uma posição única para trazer à luz as injustiças sociais e históricas e os avanços proporcionados pela inovação dos produtos, mas ainda hesitam”.

Ruth Schwartz Cowan, historiadora e autora de More Work for Mother: The Ironies of Household Technology From the Open Hearth to the Microwave (Mais trabalho para a mãe: as ironias da tecnologia doméstica, da lareira ao micro-ondas, em tradução livre), disse que, embora os museus tenham dado grandes passos desde uma definição estreita dos “interesses das mulheres”, ainda é raro que coloquem itens relacionados aos corpos das mulheres sobre um pedestal. “Há muito pouco sobre sexo e muito pouco sobre reprodução - ninguém quer se envolver na interpretação deste tipo de coisa para o público. É um assunto demasiado complicado, por isso sequer o tocam,” ela disse, acrescentando: “Designing Motherhood é um esforço inovador”.

Mostrar o fórceps gigante ou o protetor de mamilo de estanho cheio de chumbo do século 18 provoca desconforto. O design da reprodução deveria ser orientado pela segurança, conforto e privacidade, juntamente com a eficiência – entretanto, a mostra no Mütter levanta questões imediatas sobre quais serão as necessidades priorizadas. “O objeto projetado pode ser sobre esta conversa, mas sempre tem sido assimétrico quem tem acesso a ele – quem neste país se sente seguro, quem tem conforto, quem tem privacidade?”, perguntou Millar Fisher.

Mesmo algo tão básico quanto um canguru para bebês destaca que o ambiente que construímos não é feito para pais e criancinhas, disse Winick. “É um design que, em outros aspectos, nos ajuda na falta de um projeto em outros lugares, como as escadarias do metrô, que são tão desconfortáveis para as mães”, acrescentou.

Somente examinando as vidas secretas desses objetos, afirmam as curadoras, podemos desvendar os sistemas que os produziram, e tratar das injustiças que eles encerram. Gabriella Nelson, diretora na Maternity Care Coalition, que se formou em planejamento urbano, disse que o projeto a ajudou a ver novas relações entre os objetos e os seus ambientes. Então, “o meu conceito de design vai imediatamente para o design de políticas”, afirmou.

Em resposta à pandemia e às recentes manifestações sociais e políticas, os museus, como o Cooper Hewitt, criaram rápidas iniciativas quando se trata de colecionar, no intuito de compreender como o design está respondendo às questões contemporâneas. “Acho que veremos mais museus adquirindo designs gráficos e de produtos que falam da saúde da mulher – em parte, por causa de projetos ativistas como Designing Motherhood que compartilham do mesmo contexto graças às plataformas sociais, disse Cunningham Cameron.

E o ingresso de mais mulheres em campos como engenharia biomédica, disse Cowan, historiadora da ciência, levou à inovação em áreas anteriormente estagnadas. O MIT Media Lab realizou maratonas de programação para melhorar a bomba de leite materno (“Façam com que ele não sugue”) em 2014 e 2018, quando também foi realizada uma cúpula sobre medidas a respeito da licença remunerada. (Como as organizadoras se deram conta de que o que era necessário, do mesmo modo que o redesenho da máquina, era o aperfeiçoamento de um sistema que obriga os pais dos recém-nascidos a voltar ao trabalho.)

Levar a sério os designs para as mães depende em parte de sua atuação e visibilidade na vida pública. Algumas das imagens mais espantosas do livro Designing Motherhood são as ferrotipias do século 19, conhecidas como fotos da “mãe escondida”. Para estes retratos de crianças, os fotógrafos escondiam os membros de sua família, de maneira desajeitada aliás, embaixo de uma lona segurada por crianças: um monte de pano preto onde deveria estar a mãe.

No século 21, mães invisíveis ainda são um tema - principalmente porque as hashtags aumentaram graças a mães que se deram conta de que tinham grandes quantidades de imagens de crianças e pais em seus feeds, mas nenhuma delas mesmas. Agora há #MomStayInThePicture (#MãeApareçaNaFoto) e #ProofOfMom (#ProvaDaMãe) – porque, afirmam qualquer que seja o nosso estado, merecemos ser vistas. / TRADUÇÃO DE ANNA CAPOVILLA

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