Pixabay
Pixabay

Dieta e exercícios dos pais podem contribuir para a saúde dos filhos mesmo antes do nascimento

Atividade física durante a gravidez pode ter benefícios duradouros na saúde da criança, indica estudo

Gretchen Reynolds, The New York Times - Life/Style

19 de maio de 2021 | 05h00

O estilo de vida de mães grávidas e dos pais pode contribuir para a saúde do filho de modo duradouro, segundo um estudo em animais sobre exercícios, dieta, genética e paternidade.

Segundo o estudo, roedores que seguiram uma dieta gordurosa mesmo antes do acasalamento geraram filhos com altíssimos riscos de, quando adultos, apresentarem problemas metabólicos. Mas se as mães se mantiveram ativas durante a gravidez, esses riscos desapareceram.

O estudo envolveu cobaias, não pessoas, mas indica que quando a mãe pratica exercícios durante a gravidez, elas ajudam a proteger os filhos ainda em gestação contra os efeitos prejudiciais dos maus hábitos alimentares dos pais, como também os dela. As conclusões do estudo vêm aumentar nossa compreensão, cada vez maior, das maneiras pelas quais os pais influenciam a saúde a longo prazo dos seus filhos, mesmo antes do nascimento deles e sugere que a atividade física durante a gravidez pode causar impactos benéficos.

Os pesquisados sabem há algum tempo que os pais, especialmente as mães, começam a influenciar a saúde e comportamento dos seus filhos ainda na vida intrauterina. Estudos envolvendo animais e pessoas mostram que mães com diabetes, obesidade, resistência à insulina e outros problemas metabólicos antes da gravidez tendem a ter filhos com uma predisposição às mesmas doenças quando adultos, mesmo se adotarem um estilo de vida saudável. Mães esbeltas e fisicamente ativas durante a gravidez costumam ter filhos que, quando adultos, são ativos e metabolicamente saudáveis.

Uma porcentagem importante dessas diferenças é resultado, sem dúvida, da nutrição, uma vez que as crianças rapidamente adotam os hábitos alimentares e de prática de exercícios dos seus pais. Mas, em parte, o futuro metabólico dos bebês parece estar diretamente associado a isso e se incorpora neles à medida que se desenvolvem no ventre materno por meio de um processo que os cientistas chamam de programação metabólica.

Esse processo é complexo e ainda compreendido parcialmente, mas sabemos que ele envolve os mecanismos internos do ventre materno e do DNA parental. Alguns aspectos do ambiente intrauterino podem mudar dependendo da saúde e do estilo de vida da mãe, afetando o desenvolvimento de órgãos e sistemas biológicos do feto.

O mesmo vale para a genética. O funcionamento de alguns genes muda em resposta às nossas dietas alimentares e práticas de exercícios, a saúde metabólica e outros fatores. Essas mudanças, conhecidas como mudanças epigenéticas, se incorporam no nosso DNA e são passadas por pais e mães para a próxima geração.

Neste caso, os problemas metabólicos podem ser herdados e se propagam através das gerações.

Mas há indícios de que a atividade física corta esse ciclo. Em estudos feitos no passado com roedores, se os futuros pais tinham o hábito de correr mesmo antes do acasalamento, eles normalmente produzem uma prole sem riscos aumentados para diabetes ou obesidade, mesmo com os pais sofrendo dessas enfermidades.

Muitos desses estudos concentraram atenção nos impactos da saúde e do estilo de vida das mães. Menos se sabia sobre como a saúde metabólica do pai muda as perspectivas metabólicas a longo prazo dos filhos e se as atividades da mãe durante sua gravidez poderiam conter os efeitos negativos do estilo de vida do pai.

Assim, no caso do novo estudo, publicado em março no Journal of Applied Phisiology, cientistas da Escola de Medicina da Universidade de Virgínia e outras instituições reuniram pela primeira vez um grande grupo de camundongos. Alguns, machos e fêmeas, foram submetidos a uma dieta bastante gordurosa, com muitas calorias, induzindo problemas metabólicos e de obesidade, ao passo que os outros permaneceram com a alimentação normal e com o peso habitual.

Em seguida, os camundongos se juntaram, com os animais obesos de ambos os sexos se acasalando com aqueles de peso normal, de modo que, em teoria, em cada casal um dos pais legaria hábitos e metabolismo não saudáveis para a prole. Alguns com peso normal e sem problemas de metabolismo também foram acasalados, para produzirem uma prole de controle.

Finalmente, algumas mães, incluindo as obesas, passaram a ser exercitadas em pequenas rodas de exercícios durante todo o período de gravidez, correndo até 11 quilômetros por semana nos primeiros estágios da sua gestão de três semanas.

Posteriormente, os pesquisadores monitoraram a saúde metabólica e a atividade genética preexistente da prole, até chegar à idade adulta. Esta segunda geração se alimentava normalmente, e levava uma vida normal de cobaia de laboratório.

Mas muitos desenvolveram vários problemas metabólicos quando adultos, incluindo obesidade, resistência à insulina e alterações no controle do açúcar no sangue. Esses problemas foram mais pronunciados nos machos descendentes de mães obesas e nos animais de ambos os sexos nascidos de pais obesos.

O interessante é que a genética preexistente dos seus problemas difere de acordo com o gênero parental. Camundongos nascidos de mães obesas mostraram uma atividade incomum no caso de um grupo de genes que se sabe estão envolvidos nos casos de inflamação, o que não ocorreu com aqueles nascidos de pais obesos.

Em outras palavras, o legado genético de mães e pais “opera através de caminhos biológicos diferentes”, disse Zhen Yan, professor de medicina e diretor do Center for Skeletal Muscle Research na Escola de Medicina da Universidade de Virgínia, que supervisionou o estudo.

Mas, talvez, o mais importante tenha sido o fato de que, quando as mães praticaram corrida durante a gravidez, os recém-nascidos não mostraram nenhum efeito metabólico indesejável quando adultos, mesmo com a mãe ou o pai obesos. Essa prole, do ponto de vista metabólico e genético, permaneceu idêntica aos animais gerados por cobaias saudáveis.

Naturalmente, este foi um estudo feito com roedores e não somos roedores, de modo que é impossível saber se nós - como pais, mães e proles - respondemos similarmente a dietas e exercícios ou se os efeitos são amplificados quando ambos os pais são afetados.

O estudo também não mostra se é a obesidade ou se é uma dieta muito gordurosa que mais provoca danos intergeracionais, e quais seriam o tempo, tipos e quantidade de exercícios adequados para a mãe ou pai combaterem esses efeitos.

O doutor Yan diz que ele e seus colegas planejam investigar essas questões em experimentos futuros. Mas o estudo atual e outras pesquisas sugerem que a atividade física, antes e durante a gravidez, praticada pela mãe e também pelo pai “deve ser sem dúvida encorajada”, disse ele. / TRADUÇÃO DE TEREZINHA MARTINO

The New York Times Licensing Group - Todos os direitos reservados. É proibido todo tipo de reprodução sem autorização por escrito do The New York Times

Encontrou algum erro? Entre em contato

Comentários

Os comentários são exclusivos para assinantes do Estadão.

O Estadão deixou de dar suporte ao Internet Explorer 9 ou anterior. Clique aqui e saiba mais.