Kevin D. Liles/The New York Times
Kevin D. Liles/The New York Times

Estudo indica que corrida poderia ser benéfica para a saúde dos joelhos

Correr pode afetar os joelhos mais do que caminhar, mas há um cenário em que a corrida poderia fortalecer a cartilagem, ajudando a evitar o desenvolvimento de artrite

Gretchen Reynolds, The New York Times - Life/Style

10 de novembro de 2020 | 05h00

Correr pode ser bom para os seus joelhos? Esta ideia está no centro de um fascinante estudo sobre os diferentes efeitos da corrida e da caminhada sobre as juntas dos joelhos. Usando modelos de computador sofisticados e de captura de movimento, o estudo confirma que a corrida pode afetar os joelhos mais do que uma caminhada. Mas no processo, concluem os autores, ela também fortalece a cartilagem que reveste as extremidades ósseas.

As conclusões do estudo levantam a possibilidade de que, em vez de danificar os joelhos, correr pode fortificá-los e impedir uma artrite. Naturalmente, a noção de que a corrida danifica os joelhos é generalizada e enraizada. Qualquer pessoa que corre está familiarizada com os alertas bem intencionados de familiares, amigos e estranhos, de que seus joelhos estão condenados. Esta preocupação não é injustificada.

Durante a corrida, a pessoa inclina e bate os joelhos de modo substancial, e isso desgasta a cartilagem dentro dele. Essa cartilagem, que não tem seu próprio suprimento de sangue, geralmente tem pouca capacidade de se reparar quando danificada ou de mudar muito depois da infância.

Assim, correr constantemente desgasta a frágil cartilagem e quase que inevitavelmente dá origem a uma artrite de joelhos danosa. Mas, na vida real, isto não ocorre sempre. Alguns corredores desenvolvem artrite do joelho, mas não são todos. Estatisticamente, como grupo, na verdade eles têm menos probabilidade de sofrer de uma artrite do que os que não correm.

A razão pela qual a corrida poupa os joelhos de tantos corredores há muito tempo intrigava Ross Miller, professor de cinesiologia na Universidade de Maryland. Numa pesquisa anterior, ele e seus colegas examinaram se a mecânica da corrida era importante, pedindo às pessoas que se voluntariaram para o estudo para correrem e caminharem numa pista equipada com uma plataforma de medição das forças geradas a cada passo.

Os dados resultantes da experiência mostraram que as pessoas pisam com mais força quando estão correndo, golpeando muito mais os joelhos a cada passo dado. Mas elas gastam mais tempo com o joelho no alto entre as passadas, o que significa que dão menos passos percorrendo a mesma distância se estivessem caminhando. Assim, as forças cumulativas sobre seus joelhos com o tempo deveriam ser quase as mesmas, correndo ou caminhando.

Recentemente, contudo, Miller começou a se indagar se esta conclusão realmente explicava a razão da corrida não danificar mais os joelhos. Alguns estudos recentes com animais sugeriam que a cartilagem poderia ser mais resiliente do que se acreditava. Nesses estudos, animais que corriam tinham uma cartilagem nos joelhos mais saudável e mais robusta do que a de animais sedentários, sugerindo que a cartilagem de animais ativos tinha mudado em resposta ao seu hábito de correr.

Miller começou a pensar que talvez a cartilagem dos joelhos de humanos pudesse, da mesma maneira, alterar e se adaptar. Para ter uma resposta, pediu novamente a um grupo de homens e mulheres jovens saudáveis para caminharem e correrem ao longo de uma plataforma de força enquanto ele e seus colegas os filmavam.

Os pesquisadores depois computaram as forças que os voluntários geraram enquanto caminhavam e corriam. Finalmente criaram um modelo do que o futuro poderia reservar para os joelhos desses voluntários. Mais especificamente usaram os dados obtidos e outros adicionais de estudos passados de cartilagem extraída como amostra que desmembraram em laboratório separando-os, e outras fontes, para criar simulações em computador.

Eles queriam ver o que, teoricamente, ocorreria com a cartilagem de um joelho saudável se um adulto caminhasse seis quilômetros diariamente durante anos e, em comparação, se andasse três quilômetros e corresse os outros três todos os dias. E também testaram situações teóricas adicionais.

Por exemplo, programaram a possibilidade de a cartilagem do joelho dessa pessoa ter se recuperado ligeiramente depois de pequenos danos recorrentes ocasionados pela corrida ou pela caminhada – mas não o contrário. No último caso, presumiram que a cartilagem conseguia se recompor e se adaptar às demandas do movimento, ficando mais espessa e mais forte como ocorre com o músculo quando o exercitamos.

Os resultados finais foram reveladores. Segundo as simulações, as pessoas que caminham diariamente tinham 36% de chance de desenvolver uma artrite por volta dos 55 anos de idade, se o modelo não incluísse a possibilidade de a cartilagem do joelho se adaptar e se recuperar. Esse risco cairia para 13% no caso de a cartilagem ser capaz de se recuperar ou adaptar, que é mais ou menos o que os estudos preveem para o risco de artrite no caso de pessoas saudáveis.

No tocante à corrida, os resultados foram mais preocupantes. Quando o modelo presumia que a cartilagem não conseguia mudar, o risco para os corredores de uma possível artrite foi de 98%, caindo para 95% somente quando era considerada a possibilidade dessa se recuperar.

Na verdade, de acordo com este cenário, o dano à cartilagem provocado pela corrida frequente destruiria qualquer possibilidade do tecido se recompor. Mas se o modelo incluía a possibilidade da cartilagem se adaptar, e ficar mais robusta e mais maleável – quando as pessoas correm, as chances de desenvolver artrite caem 13%, ocorrendo o mesmo no caso das pessoas que caminham. Esses resultados sugerem que a cartilagem é maleável, disse Ross.

Ela é capaz de sentir a pressão e os leves danos provocados pela corrida e se recompor, ficando mais forte e neste cenário, com a corrida, ela tem sua saúde reforçada. Resultados baseados em modelos como este são teóricos e limitados. Não explicam como a cartilagem se recompõe sem uma irrigação sanguínea ou se a genética, a nutrição, o peso do corpo, danos no joelho e outros fatores afetam os riscos de uma artrite.

Tais modelos também não informam se distâncias, velocidades ou formas diferentes de corrida alteram os resultados. Para saber mais, precisamos de medidas diretas de mudanças moleculares e outras da cartilagem humana viva depois de uma corrida, diz Milles. Mas esses testes são difíceis. Entretanto, este estudo pode acalmar as apreensões de alguns corredores de alguns familiares e amigos. “Parece que correr não é a causa provável de artrite no joelho pelo desgaste da cartilagem”, disse Ross. / TRADUÇÃO DE TEREZINHA MARTINO

The New York Times Licensing Group - Todos os direitos reservados. É proibido todo tipo de reprodução sem autorização por escrito do The New York Times.

Encontrou algum erro? Entre em contato

Comentários

Os comentários são exclusivos para assinantes do Estadão.

Tendências:

O Estadão deixou de dar suporte ao Internet Explorer 9 ou anterior. Clique aqui e saiba mais.