Daniel Leal-Olivas/AFP
Daniel Leal-Olivas/AFP

Exercício físico de intensidade extremamente elevada pode ser prejudicial para a saúde

Um novo estudo sugere que o excesso de treinamento de alta intensidade pode prejudicar as mitocôndrias, os geradores de energia encontrados nas células do corpo humano

Gretchen Reynolds, The New York Times - Life/Style

14 de abril de 2021 | 05h00

Se um exercício de grande intensidade é bom para nós, aumentar ainda mais a carga é necessariamente melhor?

Talvez não, segundo alerta um estudo dos efeitos a nível molecular do treinamento intervalado de alta intensidade, também conhecido como HIIT. No estudo, pessoas que começaram a se exercitar vigorosamente quase todos os dias apresentaram repentinos e graves declínios da função das suas mitocôndrias, que são as usinas de energia no interior das células, juntamente com sinais incipientes de disfunção do açúcar no sangue.

Quando elas reduziram a intensidade dos exercícios, seus problemas metabólicos começaram a reverter, mas não desapareceram, sugerindo que os benefícios do exercício extremamente vigoroso podem depender de quanto fazemos.

A esta altura, quase todo mundo interessado em fitness conhece o conceito e o apelo do treinamento intervalado de alta intensidade. Ele consiste de impulsos breves e repetidos de exercícios pesados com intervalos de alguns minutos para descanso; por isso, os exercícios HIIT podem ser muito breves, mas ainda podem melhorar substancialmente a nossa capacidade aeróbica, e muitos outros aspectos da nossa saúde. Estudos mostram, por exemplo, que conjuntos de exercícios intensos aumentam o número de mitocôndrias nas nossas células musculares, e acredita-se que mais mitocôndrias contribuem para melhorar a saúde celular e metabólica.

Mas pesquisas recentes começam a indicar que os HIIT podem ter aspectos negativos inesperados. E um estudo sobre o qual eu já escrevi, pessoas que se exercitavam com rotinas de HIIT três vezes por semanas por seis semanas não melhoraram a sua pressão sanguínea ou a gordura corporal quanto as pessoas que se exercitavam de maneira muito mais moderadas cinco vezes por semana.

Os autores desse estudo especularam que sendo sedentárias quatro dias por semana, os que faziam exercícios intensos podem ter prejudicado outros aspectos poderosos das suas sessões de HIIT. Em termos semanais, eles não estavam se exercitando  de maneira suficiente.

Mas não ficou claro se seria aconselhável fazer mais sessões de HIIT em uma semana. A maioria dos estudos passados e as recomendações formais a respeito de exercícios intensos estabelecem três sessões por semana, e poucos pesquisadores procuraram apurar se HIIT mais intensos ou mais frequentes podem afetar a saúde e de que maneira.

Por isso, para o novo estudo, que foi publicado recentemente na revista Cell Metabolism, os pesquisadores da Sweedish School of Sport and Health Sciences e da Universidade Karolinska, ambas em Estocolmo, estabelecem como medida melhor optar por quantidades diferentes de exercícios semanais pesados e estabelecer se alguns podem ser adequados.

Eles começaram recrutando 11 homens e mulheres saudáveis que se exercitavam, mas não eram atletas de competição. Estes voluntários visitaram o laboratório dos pesquisadores para testar a sua condição física e saúde metabólica, incluindo níveis de açúcar no sangue ao longo de um dia.

Depois, os voluntários começaram um ambicioso programa de exercícios. Na primeira semana, eles realizaram duas sessões de HIIT, repetindo cinco intervalos de quatro minutos de duração em uma bicicleta ergométrica, com três minutos de descanso entre eles. Os corredores pedalaram o mais vigorosamente possível durante cada impulso de quatro minutos, enquanto os pesquisadores monitoravam a força produzida. Em seguida, os pesquisadores fizeram a biópsia dos músculos da perna e voltaram a verificar o estado físico dos corredores e o controle do açúcar no sangue de 24 horas.

Na segunda semana, os corredores acrescentaram uma terceira sessão de HIIT e aumentaram a duração de alguns dos seus intervalos para oito minutos. Na terceira semana, eles se exercitaram cinco vezes, com uma mescla de impulsos de quatro a oito minutos pedalando sem parar. Finalmente, na quarta semana, para se recuperarem, eles reduziram pela metade a quantidade e intensidade do exercício.

Todas as semanas, os pesquisadores repetiram todos os testes. Depois compararam as mudanças dos corpos das pessoas, semana a semana.

Inicialmente, os resultados foram encorajadores. No final da segunda semana, os corredores estavam pedalando muito mais vigorosamente e pareciam mais bem dispostos, com um controle diário melhor do açúcar no sangue e mais mitocôndrias totais em suas células musculares. Cada uma destas mitocôndrias também era mais eficiente, produzindo maiores quantidades de energia do que no início.

Mas algo começou a dar errado durante a terceira semana. A capacidade dos voluntários de gerar potência enquanto pedalavam se achatou. E as biópsias subsequentes dos seus músculos mostraram mitocôndrias mais fracas, cada uma agora produzia apenas cerca de 60% da energia em relação à semana anterior. O controle do açúcar no sangue dos corredores também diminuiu, com surtos em ziguezague e quedas durante o dia.

Depois de uma semana de corrida menos intensa, as suas mitocôndrias começam a voltar, produzindo mais energia, mas ainda 25% inferior em relação à segunda semana. Os seus níveis de açúcar no sangue também se estabilizaram, mas não ao nível de antes. Entretanto, os corredores pedalaram com o mesmo vigor da segunda semana, se não com vigor maior.

No conjunto, a experiência de um mês de duração sugere que “o exercício de HIIT não deveria ser excessivo, se uma saúde melhor é o resultado desejado”, disse Mikael Flockhart, no curso de doutorado da Sweedish School of Sport and Health Sciences, que realizou o estudo com o seu orientador, Filip Larsen, e outros.

O estudo não visou o desempenho atlético, mas mesmo para atletas mais sérios, ele disse, que costumam aumentar o número de exercícios intensos intervalados a cada semana com pouco descanso entre eles provavelmente provocará um ponto sem volta depois de que o desempenho, bem como os indicadores de saúde metabólica, começam a cair.

Os pesquisadores não têm muita certeza das mudanças produzidas nos corpos e músculos dos voluntários que precipitaram os resultados negativos na terceira semana. Eles testaram múltiplas causas moleculares em potencial,  disse Flockhart, mas não isolaram um único instigador óbvio. Ele e os colegas suspeitam que uma cascata de mudanças bioquímicas ocorrida no músculos das pessoas durante a semana de exercícios mais árduos tenha sobrecarregado as mitocôndrias, e então as mitocôndrias enfraquecidas contribuíram para as interrupções no controle do açúcar no sangue das pessoas.

Este estudo, entretanto, foi de dimensões reduzidas, e curto, com apenas uma semana de rotina de cada exercício. Também contou com voluntários saudáveis, por isso não mostra se os resultados seriam os mesmos, melhores ou piores em pessoas com problemas metabólicos.

Mesmo assim, as conclusões sugerem fortemente que os interessados em treinamento intervalado de alta intensidade, deveriam começar com pouco, aconselhou Flockhart. Treinar poucas vezes por semana, e nos outros dias talvez fazer uma caminhada. / TRADUÇÃO DE ANNA CAPOVILLA

The New York Times Licensing Group - Todos os direitos reservados. É proibido todo tipo de reprodução sem autorização por escrito do The New York Times

Tudo o que sabemos sobre:
bioquímicaexercício físico

Encontrou algum erro? Entre em contato

Comentários

Os comentários são exclusivos para assinantes do Estadão.

O Estadão deixou de dar suporte ao Internet Explorer 9 ou anterior. Clique aqui e saiba mais.