Hiroko Masuike/The New York Times
Hiroko Masuike/The New York Times

Saúde mental a um telefonema (ou clique) de distância

Agentes são treinados para escutar e tentar formar um elo emocional

Caroline Arbour, The New York Times

21 de julho de 2019 | 06h00

“Bem, todos são desconhecidos antes de se tornarem amigos", disse uma voz ao telefone a Kate Lacroix enquanto ela percorria o solitário caminho de carro de Seattle até Vancouver para participar de um funeral. Foram conselhos reconfortantes e um pouco de interação para Kate - o tipo de troca que ela teria com o terapeuta. Mas quem estava na linha era um agente do suporte ao consumidor de uma operadora de celular; Kate tinha telefonado para configurar um plano celular internacional.

Passados uma hora e 37 minutos, ela não tinha apenas um novo plano para o celular, mas também “uma perspectiva renovada em relação à vida e a morte". “Foi algo que um terapeuta poderia ter dito - uma sabedoria sóbria que não encerrou o assunto com ‘Sinto muito pela sua perda’”, disse Kate ao Times.

Para muitos, o estigma e o custo da terapia são obstáculos para o bem estar mental. Dos que enfrentam problemas de saúde mental (quase 20% dos adultos nos Estados Unidos), apenas 42% receberam serviços de saúde mental em 2017, de acordo com reportagem de Sophia June no Times. Mas alguns, como Kate, encontraram outras formas de “incluir o momento de insight da sessão de terapia” entre as atividades cotidianas, de acordo com Sophia.

“A sensação foi semelhante à de uma sessão de terapia porque conversei com uma pessoa sem preconceitos, disponível para conversar ou oferecer algum alívio", disse Kate. Os agentes são treinados para escutar e tentar formar um elo emocional. As pessoas se sentem à vontade para desabafar. “Um agente do atendimento ao cliente é perfeito porque vocês não voltarão a se encontrar nem conversar", disse ao Times a assistente social clínica Rachel Kazez, de Chicago. “Parece seguro fazer confissões a eles."

Mas, se não for conveniente aguardar até que o próximo agente esteja disponível, alguns terapeutas podem ser acessados com o clique de um botão. A terapeuta Lisa A. Olivera, especializada na área de casamento e família, usa o Instagram desde 2017 para se comunicar com aqueles que talvez não possam pagar por serviços de saúde mental. A conta dela já tem mais de 200 mil seguidores.

“Foi inspirador ver o número de pessoas interessadas em saber mais a respeito da saúde emocional, buscando internamente fazer o trabalho sozinhas, mesmo na impossibilidade de fazer terapia", disse ela. Desemaranhar os nós éticos da terapia online pode ser difícil. Os terapeutas precisam tomar cuidado ao tratar pacientes fora do estado onde têm licença para trabalhar nessa capacidade, e ao dar conselhos especificamente individuais.

Os clientes precisam fazer a lição de casa quando não estiverem interagindo com um terapeuta, disse Lisa. “Ainda que o Instagram não conte como terapia, boa parte do trabalho do qual falamos e ensinamos na terapia precisa acontecer fora da sessão para ter impacto.”

Para alguns, a palavra “fora” pode ser levada ao pé da letra - como nos esportes. Um estudo recente apontou que pessoas que vivenciaram eventos traumáticos na infância apresentavam melhores resultados do ponto de vista da saúde mental quando adultos se participassem de esportes em equipe durante a adolescência.

“Há algo no ambiente de uma equipe que proporciona apoio psicossocial", disse Molly C. Easterlin, principal autora do estudo. “Ainda enxergamos um elo entre o esporte e a saúde mental.” Os adolescentes envolvidos com esportes “costumam enfrentar menos estresse na vida, com interações sociais melhores e autoestima fortalecida", disse Rochelle Eime, professora-assistente da Universidade Federation, na Austrália. 

Ainda que um agente do atendimento ao cliente ou uma equipe esportiva tenham seu valor, eles não são substitutos para as sessões de terapia com um especialista. Mas elas têm um benefício acessório. “A melhor parte é que não há conta a pagar no final”, disse Sophia. / TRADUÇÃO DE AUGUSTO CALIL

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