Cydni Elledge/The New York Times
Cydni Elledge/The New York Times

Nos EUA, idosos enfrentam dificuldades para encontrar apoio psicológico acessível

Estudos demonstram que as pessoas de mais idade têm tanto sucesso na psicoterapia quanto as mais jovens. Entretanto, encontrar uma terapia e poder pagá-la pode ser difícil

Paula Span, The New York Times – Life/Style

17 de novembro de 2020 | 05h00

Há três anos, Janet Burns sentiu que estava caminhando para uma depressão, um distúrbio muito comum. Janet, funcionária do governo aposentada, morava em Rockville, Maryland, e cresceu em uma casa em que, como descreveu, os abusos eram frequentes por causa do pai alcoólatra. Há momentos, contou, “em que acho que estou caindo ladeira abaixo e não consigo levantar”. Muitas vezes, a psicoterapia a ajudou a reencontrar o equilíbrio.

Então, seu pai morreu. “E isto trouxe à tona muitas coisas que eu achava que já tinha superado”, afirmou. Experimentando uma mescla de culpa e alívio e sendo responsável pela mãe e uma irmã doente, começou a sofrer de insônia, ansiedade e exaustão. Às vezes, ela achava difícil sair da cama. Então decidiu que precisava de mais ajuda. Janet, de 75 anos, encontrou uma nova conselheira que começou a ver semanalmente por alguns meses, e depois a cada duas semanas.

“Ela me ajudou a colocar a minha vida em perspectiva e a me libertar do peso que impunha a mim mesma”, afirmou. “Ela me deu algumas ferramentas, exercícios mentais para fazer quando as pressões começavam”. A pandemia do coronavírus trouxe novos problemas. Janet foi obrigada a suspender o seu trabalho de voluntária, e ela e o marido não pode visitar filhos e netos. Ela disse que conseguiu se segurar.

Mas, acrescentou, o que a tranquilizava era saber que poderia recorrer à sua conselheira novamente se fosse necessário. “É como um salva-vidas”, afirmou. “Ela é alguém em quem posso confiar, que conhece a minha história, e este é um grande conforto. Gostaria de que todos pudessem ter isto”. Especialistas e profissionais da área de saúde também desejariam que outros idosos pudessem ter acesso à psicoterapia e a outros tipos de assistência psicológica, principalmente agora.

Os problemas de saúde mental aumentaram consideravelmente durante a pandemia, segundo os Centros para a Prevenção e Controle de Doenças. Embora pessoas mais jovens estejam muito mais dispostas a falar deste tipo de problemas, uma em cada quatro indivíduos acima dos 65 anos relataram em agosto que sofriam de ansiedade ou depressão, segundo uma análise da Kaiser Family Foundation – mais do dobro do que em 2018.

A solidão e o isolamento cobraram o seu preço entre as pessoas mais velhas, e psiquiatras geriátricos preveem ainda um aumento dos distúrbios provocados pelo luto. “Isto agrava seus problemas”, disse Mi Yu, psiquiatra geriátrica de Nashville, Tennessee, falando dos efeitos da pandemia.

“Todos os meus pacientes experimentaram mais angústia e ansiedade, o que os leva a exigir sessões mais frequentes”, que ultimamente são realizadas por vídeo ou por telefone. Há muito tempo, os especialistas vêm relatando que pessoas mais idosas, particularmente acima dos 80 anos, são mais relutantes em buscar um tratamento para problemas psicológicos. “A maior geração constitui o grupo do ‘vire-se por conta própria’”, disse Daniel Plotkin, psiquiatra geriátrico de Los Angeles.

Admitir problemas psicológicos ainda é algo que carrega um estigma, particularmente entre a população rural e os afro-americanos. O problema da idade pode afetar inclusive os próprios médicos, disse Plotkin. “A infeliz atitude que a maioria das pessoas tem, aliás como os próprios médicos, é que os mais velhos não conseguem mudar, que são incapazes de mudar”, ele disse.

Na realidade, observou, estudos mostraram que as pessoas mais velhas têm tanto sucesso com a psicoterapia quanto as mais jovens. Os profissionais da área talvez prefiram tratar clientes mais jovens porque estes têm dezenas de anos pela frente, durante os quais poderão colher os benefícios.

Yu lembra de uma mulher de mais de 80 anos que buscou a terapia depois que o marido sofreu um infarto. Cerca de vinte profissionais não quiseram tratá-la, dizendo que não aceitavam pacientes da sua idade. “Fiquei estupefata”, disse Yu. “Na realidade, nós achamos que os pacientes mais velhos estão mais abertos à terapia. Eles refletem mais. Entendem que o limitado tempo de vida de que dispõem faz com que sintam urgência, não tendo tempo a perder”.

Yu trabalhou com a paciente por cerca de um ano, prescreveu também alguns antidepressivos, até que “gradativamente, ela se recuperou”. Mas a experiência desta paciente demonstra que mesmo quando pessoas mais velhas decidem buscar tratamento, encontrá-lo e ter condições de pagar a terapia pode ser desencorajador.

Nos EUA, o Medicare tradicional cobre a psicoterapia individual e de grupo e não limita o número de sessões; os beneficiários pagam 20% da quantia autorizada. Também cobre o tratamento em caso de alcoolismo e abuso de drogas e permite a revisão anual gratuita da depressão.

O pagamento compartilhado para os beneficiários do Medicare Advantage varia de um plano para outro. Mas muitos profissionais da saúde mental não aceitam o Medicare (sistema de saúde para os idosos), em parte porque o reembolso é muito baixo. Yu, por exemplo, aceita o pagamento do Medicare de US$ 91 para uma sessão de 45 minutos, mas como isto é a metade ou menos da tabela para terapia em Nashville, muitos dos seus colegas preferem evitar.

Pesquisadores da George Mason University and Mathematica relataram este ano que, em um uma sondagem nacional, apenas cerca de 36% das empresas de serviços de saúde aceitaram novos pacientes do Medicare, em comparação com 83% dos médicos. Além disso, embora o Medicare cubra o tratamento de saúde mental de uma variedade de provedores (inclusive médicos, psicólogos clínicos, profissionais do serviço social clínico, profissionais de enfermagem e médicos assistentes), o sistema não reembolsa conselheiros profissionais licenciados ou terapeutas de casais e famílias.

Com apenas 1.526 médicos geriatras credenciados que praticam em todo o país, no ano passado, este pool de 200 mil conselheiros licenciados e conselheiros de casais e da família terá um longo caminho pela frente para atender à demanda de assistência. “Eles incluem cerca de 40% da força de trabalho da área de saúde mental, mas não são aceitos pelo Medicare”, disse Matthew Fullen, um conselheiro educador e pesquisador da Virginia Tech. “E isto é um considerável dissuasor na hora de buscar a ajuda de que o paciente necessita”.

Ele e seus colegas supervisionaram 3.500 conselheiros licenciados e constatou que a metade não aceitara tratar de pacientes pelos buracos na cobertura do Medicare. Quase 40%tiveram de encaminhar os pacientes atuais para algum outro lugar quando estes se tornaram elegíveis ao Medicare.

Heidi Jelasic, assistente administrativa de Royal Oak, Michigan, procurou um profissional licenciado depois de um evento traumático com um vizinho e sentiu que estava fazendo um bom progresso. Depois, em abril, perdeu o emprego na onda de demissões por causa da pandemia, e com ele, a cobertura da assistência médica proporcionada pela empresa. Com isto teve de optar pelo Medicare, que não cobria os custos do seu conselheiro, e não pôde mais pagar com dinheiro do bolso. “Não disponho de recursos”, ela disse. “Não tenho condições de pagar”. / TRADUÇÃO DE ANNA CAPOVILLA

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