Como ter mais diversão na vida adulta. Mesmo agora

Como ter mais diversão na vida adulta. Mesmo agora

Atividades lúdicas parecem fúteis, improdutivas e perda de tempo. E este é exatamente o objetivo

Kristin Wong, The New York Times - Life/Style 

26 de agosto de 2020 | 05h00

“Vamos brincar”, gritou a filha de quatro anos da minha amiga puxando-me pelo braço. Disse a ela que estava com muita preguiça para brincar. “Mas você não deve ter preguiça porque é uma pessoa grande”, disse ela. Incapaz de convencê-la, concordei e procurei um lugar para me esconder enquanto ela contava até 20. Fred Rogers disse que brincar é “o trabalho da infância”. As crianças levam este “trabalho” muito a sério e podem nos ensinar algumas coisas sobre porque brincar é importante, especialmente agora.

Mas o que é exatamente brincar? Em geral é uma atividade imaginativa, autodirigida, intrinsecamente motivada e guiada por regras que abrem espaço para a criatividade.

“Uma maneira de pensar a respeito é quando você pratica uma ação que propicia muita alegria sem oferecer um resultado específico”, diz Jeff Harry, instrutor que trabalha com empresas, escolas e organizações com o objetivo de usar psicologia positiva aplicada na rotina do dia a dia. Brincar significa dar um passeio de bicicleta porque é divertido e não porque deseja perder alguns quilos. “Muitos de nós, em tudo o que fazemos, pensamos em resultados. As pessoas sempre pensam, ‘o que vou ganhar com isto?’. Brincar não tem nenhum resultado”, disse Harry.

Numa época em que os trabalhos são precários, o sustento está em risco e ainda combatemos uma pandemia mortal, brincar está no último lugar na nossa lista de prioridades. Estamos vivendo num mundo que nos traz mais inquietação do que alegria. Na infinita lista de afazeres de adulto, brincar significa perda de tempo. Ficamos esgotados com tarefas que teríamos ou temos de realizar, mas raramente temos tempo ou energia para atividades que gostamos de praticar.

O brincar nos oferece um alívio temporário do caos e nos impele a nos conectarmos com um lado importante de nós mesmos que ficou perdido em meio às responsabilidades da vida adulta, e isto especialmente durante uma crise.

“À medida que envelhecemos, nossos egos crescem. E nos tornamos mais inibidos”, afirma Meredith Sinclair, ex-professora e autora do livro Well Played: The Ultimate Guide to Awakening Your Family’s Playful Spirit (Boa Jogada: O Guia Definitivo Para Acordar o Espírito Brincalhão da Sua Família, em tradução livre). Uma atividade lúdica parece algo fútil, improdutivo e perda de tempo. “Mas é exatamente por isto que temos de ter mais tempo para ela”, diz Meredith Sinclair.

O brincar gera inúmeros benefícios para as pessoas adultas, como melhorar o controle do estresse e o bem-estar geral do indivíduo - benefícios que certamente temos de aproveitar nos dias atuais.

“As pessoas estão se sentindo oprimidas”, diz Jeff Harry. “Não estou dizendo para você adotar uma atitude de positividade tóxica, nem se deixar levar pelas suas preocupações eternamente”. E acrescenta: “minha sugestão é que você dê uma pausa às suas preocupações e faça alguma coisa que o direcione para sua criança interior e lhe propicie um pouco de alegria”.

Mas como fazer isto?

Seja amigo do seu crítico interior

Talvez você tenha dificuldade em abandonar a versão adulta, séria, de si mesmo. Pelo menos no início. Harry sugere um exercício para direcionar essa voz crítica, desencorajadora, que domina sua mente e que provavelmente o tem deixado exausto ultimamente.

“Digo às pessoas para escreverem o que o seu crítico interior está lhe dizendo. Colocar no papel todos os pensamentos que chegam: você é um fracassado, nunca será um escritor, todo mundo odeia a sua garra, você é um impostor. Coloque tudo isto no papel. Depois reveja e se pergunte se alguma coisa disto é, de fato, verdade. Ou será apenas a criança assustada dentro de mim tentando me proteger?”

Nosso crítico interior é um mecanismo de sobrevivência que procura nos proteger do fracasso. A sensação de fracasso é ruim, e nosso crítico interior nos desencoraja de realizarmos coisas que pareçam fúteis, desconfortáveis ou perigosas. Como afirma a pesquisadora Kristen Neff, “não se martirize por se martirizar. Precisamos aprender a fazer amizade com nosso crítico interior”. O exercício é um bom primeiro passo porque revela o quão severo você é consigo mesmo, sem perceber, e isto o impede de aceitar o seu lado brincalhão, criativo.

Apague suas lembranças

Os adultos sempre pensam em diversão como alguma coisa nova, seja viajando para novos lugares, explorando novos hobbies ou comprando novos gadgets.

“Temos acesso a muitas coisas que não mais desfrutamos”, diz Harry. Claro que a novidade por ser desfrutada, mas a brincadeira permite a você desfrutar de algo sem viajar ou comprar um novo brinquedo. ”O ato lúdico não é algo novo que você tem de fazer. Significa acessar uma coisa que é pessoal e gratificante”.  

Os especialistas sugerem que, para descobrir o que isto significa, você precisa refletir sobre suas lembranças de infância.

“Quando criança, quais eram suas brincadeiras favoritas? E quando foi a última vez que teve esse mesmo tipo de sentimento já na sua idade adulta? Que atividades, hoje, o levam para aquela mesma sensação descarada que tinha quando criança?”

Faça uma lista de atividades que gostava de realizar quando criança, depois faça um brainstorm da versão adulta. Se gostava de subir em árvores, talvez possa tentar uma escalada indoor. Se adorava brincar com massinhas pode fazer um curso de cerâmica ou começar a fazer pão. Não precisa ser uma nova versão do seu passado infantil. Subir em árvores ainda é algo divertido até para adultos.

Faça alguma coisa sem ter de compartilhar

A mídia social nos faz acreditar na ideia de que, se não postamos as coisas, ela não acontecem realmente. “Isto é importante”, afirma Meredith Sinclair. “Compartilhar funciona como uma validação”. Em outras palavras, a mídia social inspira as pessoas a fazer alguma coisa com o objetivo de compartilhar, uma vez que as próprias plataformas incentivam essa aprovação externa. Como o ato lúdico é intrinsecamente motivado, você pode ter mais alegria se o guardar apenas para você.

“É muito importante termos momentos de diversão que não contamos para alguém e não postamos”, diz Sinclair. Seja fazendo a massa de pão na cozinha, andando de bicicleta no bairro, da próxima vez que estiver fazendo alguma coisa divertida não compartilhe on-line. Isto vai ajudá-lo a focar na pura alegria de fazer algo divertido para você próprio.

Conheça seu tipo de diversão

As pessoas se divertem de diferentes maneiras - o karaokê pode ser uma explosão de alegria para uma pessoa e um pesadelo para outra. Um estudo publicado na revista Personality and Individual Differences, identificou quatro categorias de traços de personalidade lúdica: ela é guiada por influências externas, é despreocupada, intelectual e imaginativa.

O primeiro traço é quando você gosta de se divertir com outras pessoas. A despreocupação geralmente significa que você não leva a vida muito a sério, gosta de improvisar. O traço lúdico intelectual tem a ver com ideias e pensamentos como no caso do jogo de palavras e de solução de problemas. E os jogadores imaginativos gostam de realizar coisas peculiares ou estranhas na vida cotidiana.

Saber qual é o seu estilo o ajuda a imaginar que atividades gosta mais e também a eliminar aquelas que não desfruta tanto. Se gosta de uma diversão intelectual, um baile não é uma diversão para você. Se é mais despreocupado, poderá gostar de jogos de tabuleiro estratégicos com a família. Claro que você pode combinar tudo e talvez desfrutar ao mesmo tempo de bailes, jogos, karaokê, palavras cruzadas.

Encontre pequenos momentos de diversão

Meredith Sinclair recomenda dar espaço para a espontaneidade no seu calendário.

“Há algo inatamente imaginativo quando existe espontaneidade. Mesmo as palavras soam mais divertidas”. Reserve um tempo durante a semana para a possibilidade de atividades de diversão que podem surgir por acaso.

Com este tempo reservado, fica mais fácil dizer não quando alguém pergunta se você está livre para um trabalho ou uma obrigação social. Você poderá recusar e dizer à pessoa que já tem algo marcado, mesmo que ainda não saiba o que será.

Naturalmente, muitas pessoas acham que não podem se dar ao luxo de um tempo livre. É difícil encontrar tempo extra nos nossos horários já lotados. Nesse caso, Sinclair recomenda buscar oportunidades rápidas para brincar durante o dia. Pode ser dançar na cozinha enquanto faz o jantar, ler alguma coisa que o faça rir quando estiver na fila da padaria. Cantar enquanto dirige seu carro ao volta para casa.

Brincar é similar à meditação, uma vez que o ajuda a focar no momento em que se encontra e apagar a mente adulta perpetuamente ocupada e cansada. “Os adultos passam muito tempo ruminando”, diz Jeff Harry. “Seja pensando na idiotice que falou numa festa ou se preocupando apenas por se preocupar”.

Estar presente não é fácil para muitos de nós, mas o brincar o obriga a focar no momento e assim você deixa de ruminar por um instante. “Estamos lidando com algo sério neste momento e você tem de sentir plenamente seu temor, sua tristeza e raiva e deixar que isso seja liberado”, diz ele.

O ato de brincar exige que abandonemos a maneira binária, limitadora, de pensar sobre nossos sentimentos. Em outras palavras, é preciso abandonar a ideia de que não podemos sentir alegria no momento e ficar inquietos sobre a situação do mundo. A ideia não é ignorar seus sentimentos negativos, mas você se permitir sentir alegria juntamente com a negatividade.

“Reflita como as crianças são entusiasmadas o tempo todo. É isto basicamente o que todos nós estamos tentando voltar a ser”. / TRADUÇÃO DE TERZINHA MARTINO

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