Saúde mental: pequenos rituais podem ajudar a manter os pés no chão

Saúde mental: pequenos rituais podem ajudar a manter os pés no chão

Com níveis de estresse no alto por conta da pandemia, precisamos encontrar uma forma de recuperar o controle de nossas vidas

Neha Chaudhary, M.D.*, The New York Times - Life/Style

27 de agosto de 2020 | 05h00

Toda vez que meu pai, faixa preta em tae kwon do, colocava seu quimono, parava diante de mim e depois beijava sua faixa antes de colocá-la. Criança, eu achava que aquilo era uma superstição, como jogar uma moeda em uma fonte. Mas recentemente ele me disse que esse ritual, na verdade, era para honrar sua faixa e dizer “farei o melhor que puder ao usar esta faixa, não importa o que encontrar pela frente”.

Para ele, beijar a faixa não era uma superstição porque não tinha nada a ver com sorte ou para mudar um resultado. Simplesmente era sua maneira de se lembrar naquele momento de fazer o seu melhor. Era um ritual.

Rituais - ou as tarefas que desempenhamos repetidamente, não pelo que elas cumprem, mas pelo que representam para nós - ajudam os atletas a prepararem suas mentes para situações desconhecidas que enfrentarão. Como psiquiatra infantil vejo esses rituais como âncoras, não apenas para os atletas, mas para todas as pessoas, eles ajudam a nos lembrarmos quem somos e como enfrentar a vida. Quando temos nossos próprios rituais, trazemos calma, significado e coerência para nossas vidas e nossas famílias.

“Os rituais nos permitem criar um caminho para conectar mente e corpo e nos sentirmos no controle num momento em que nos deparamos com muitas incógnitas”, disse Caroline Silvy, PhD especialista em psicologia esportiva que se dedica a atletas profissionais, incluindo a equipe de patinação artística dos Estados Unidos. Segundo ela, quando essa conexão é feita, “ficamos mais capacitados a responder e fazer escolhas produtivas”.

Kevin Love, dos Cleveland Cavaliers, diz que os rituais são um sistema de apoio da mente. Seu ritual de 90 minutos antes de um jogo da NBA está repleto de atividades que as famílias podem experimentar em casa, como praticar ioga, alongamento e ouvir música ambiente suave da banda Hammock.

“Chamei a lista de música de Airplane Mode (Modo avião) porque, para mim, é uma maneira de desligar”, afirmou. As famílias podem querer criar seu próprio ritual para se desligarem nas manhãs do fim de semana, ouvindo música que escolhem juntas e realizando seus exercícios ou posições de ioga favoritos”.

Love diz que o ritual da liga de tocar o hino nacional e desligar as luzes dá a ele “uma sensação de calma” no início do jogo. Seus próprios rituais também lhe permitem sentir-se mais tranquilo consigo mesmo durante o jogo. Antes de cada arremesso livre ele dribla a bola três vezes e espera uma batida extra antes de um arremesso - ritual que, segundo ele, “o mantêm com os pés no chão” e é uma maneira de se concentrar.

Sua rotina nos intervalos segue outro ritual. “Mudo minha camiseta, short e meias e sinto-me completamente renovado. Isto realmente ajuda a neutralizar minha ansiedade”.

A experiência de Love é comum. Um estudo realizado em 2016 examinou o efeito dos rituais nas pessoas que deviam cantar em público diante de juízes ou se submeter a um teste difícil de matemática com dinheiro envolvido. As pessoas que realizaram um ritual antes - neste caso, desenharam uma figura, polvilharam sal sobre ela, contaram até cinco e jogaram fora - registraram níveis muito menores de nervosismo e tiveram um desempenho melhor.

Essas conclusões podem explicar a razão pela qual muitos atletas criaram rituais icônicos, como o famoso de Steph Curry, que, antes de cada jogo de basquete, faz um arremesso para a cesta ainda no túnel de acesso à quadra. Serena Williams pinga sua bola cinco vezes antes do seu primeiro serviço. Wayne Gretzky coloca talco de bebê no seu bastão de hóquei antes de um confronto. Esses mesmos rituais podem ajudar um pai ou o filho a se controlarem num momento de estresse.

Bradie Tennell, medalhista de bronze olímpico em 2018 e campeã de patinação artística nos Estados Unidos, disse que seu ritual é amarrar primeiro seu patim esquerdo e sempre pisar na pista primeiro com o pé esquerdo. Isto a ajuda a lembrar o que ela é e o que deve fazer ali.

“Quando você entra na pista, são 20 mil pessoas, juízes, câmeras e luzes que são muito brilhantes. É avassalador. A simples prática de pisar no gelo sempre da mesma maneira me diz ‘isto é normal, este é o meu território e nada mais importa exceto este momento e o que estou fazendo aqui’”.

Silby usa um exercício com os atletas chamado “Aceite, Acredite, Desafie”, que, se transformado num ritual, pode ajudar famílias a lidarem com a pandemia do mesmo modo que os atletas enfrentam um jogo difícil.

“Uma criança que está contrariada por não mais ver seus amigos pode dizer, “aceito que não posso ver meus amigos, mas acredito na minha capacidade de falar com eles e assim vou me desafiar e rir com eles hoje pelo telefone’”.

Usar rituais como “anteparos de livros” é especialmente racional e cria uma percepção de identidade. Seja ouvindo frases de gratidão de manhã, rezando ou lendo antes de deitar, e a regularidade desses atos cria algo pelo qual ansiamos e algo que crianças e pais sentem ter domínio sobre.

Compartilhar rituais, como comer juntos também é algo poderoso, com as famílias se sentindo mais ligadas. Em uma revisão dos 50 anos da literatura sobre o tema, os rituais familiares fortalecem o relacionamento entre os membros da família, aumentam a percepção de identidade e valores e até melhoram a convivência entre os cônjuges.

Anne Fishel, formada em psicologia na Harvard Medical School e cofundadora do Family Dinner Project, citou o ritual das refeições. “As refeições em família tendem a ser peculiares e particulares - quem senta onde na mesa, quando comemos, que pratos são oferecidos, que tipos de história são contados, que jogos e bobagens acontecem, que emoções são estimuladas”, disse a psicóloga. “Elas nos lembram quem somos enquanto família”.

Seja um jantar de comida mexicana com sua mulher às sextas-feiras, um chat semanal com os irmãos pelo FaceTime, um aperto de mão secreto com seu bebê antes de escovar seus dentes, os rituais o ajudam a encontrar significado nos pequenos momentos e o torna mais resiliente nas horas de estresse.

Como diz Love, “acho que você extrai o melhor de si por meio de coisas como estas”. / TRADUÇÃO DE TEREZINHA MARTINO

*Neha Chaudhary, M.D., é psiquiatra infantil no Massachusetts General Hospital e na Harvard Medical School, cofundadora da instituição Stanford Brainstorm e vem trabalhando em um livro sobre criar crianças mais saudáveis emocionalmente por meio de pequenos momentos.

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