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Acha que sua pressão sanguínea é 'normal'? É melhor repensar

Acha que sua pressão sanguínea é 'normal'? É melhor repensar

Mesmo níveis de pressão sanguínea geralmente considerados 'normais' podem ser altos o bastante para facilitar doenças cardíacas, de acordo com novas pesquisas

Jane E. Brody, The New York Times - Life/Style

01 de novembro de 2020 | 05h00

Então você acha que sua pressão sanguínea é “normal”? É melhor repensar. A mais recente definição de pressão sanguínea “ideal” — pressão sistólica de 120 milímetros de mercúrio, o número mais alto — recomendada aos americanos para que alcancem e mantenham foi questionada por um prolongado estudo multiétnico envolvendo adultos saudáveis.

Publicado em junho no jornal acadêmico JAMA Cardiology, o estudo revelou que, conforme a pressão sistólica ultrapassa a marca de 90 mm, o risco de danos às artérias coronárias aumenta de acordo. A pressão sanguínea sistólica representa a pressão dentro das artérias quando o coração bombeia o sangue (o oposto da pressão sanguínea diastólica, o número mais baixo, que representa a pressão quando o coração está em repouso).

As novas revelações indicam a necessidade de analisar mais atentamente por que a doença cardíaca segue como a principal causa de mortes nos Estados Unidos, apesar das consideráveis melhorias nos fatores de risco que a provocam. A partir dos anos 1940, pesquisadores cardiovasculares revelaram evidências de que os americanos vivem em uma sociedade que praticamente garante um risco desproporcionalmente alto de desenvolver doença cardíaca - e morrer em decorrência dela.

Desde as minhas primeiras semanas escrevendo para esse jornal, no início dos anos 1960, publiquei seus conselhos recomendando às pessoas que se prevenissem contra os riscos evitáveis para seu coração e seus glóbulos sanguíneos. Por mais que um progresso significativo tenha sido alcançado em várias frentes, especialmente uma drástica redução no tabagismo e nos níveis de colesterol nocivo às artérias, a doença cardíaca arterosclerótica ainda mata muita gente nos EUA antes de alcançarem o limite potencial de suas vidas.

Se não fosse por uma série de avanços terapêuticos, como os medicamentos de combate à hipertensão, estatinas que ajudam a baixar o colesterol e cirurgia cardíaca para desviar o fluxo das artérias entupidas, a expectativa de vida seria muito pior para um grande número de pessoas.

Mas o quadro geral indica que ainda temos um longo caminho a percorrer. Por exemplo, conforme os americanos ficam cada vez mais obesos, dois importantes fatores de risco para a doença cardíaca — diabetes tipo 2 e alta pressão arterial — aumentam com os medidores das balanças nos banheiros.

Sim, há medicamentos para o tratamento de ambas as condições. Mas por que recorrer a remédios, incluindo alguns com efeitos colaterais indesejáveis, para modificar riscos que estão ao alcance do controle individual da maioria? E, como mostrado no estudo, mesmo níveis de pressão sanguínea geralmente considerados “normais” podem afinal ser altos o bastante para facilitar o desenvolvimento da doença cardíaca arterosclerótica em mais de quatro vezes além do risco enfrentado por pessoas com pressão sistólica considerada ideal pela medicina.

Faz tempo que especialistas cardíacos sabem que as pessoas em sociedades tradicionais não industriais costumam manter a pressão sanguínea sistólica pouco acima de 90 durante toda a vida. Diferentemente dos americanos típicos, sua pressão sanguínea não aumenta com a idade.

Em vez disso, ao que parece, a alta na pressão sanguínea mais comumente observada entre os americanos conforme envelhecem seria um produto do estilo de vida sedentário e de dietas ricas demais em calorias e sódio, resultando em artérias mais estreitas e menos flexíveis que produzem a pressão alta.

O estudo, comandado por Seamus P. Whelton, cardiologista e epidemiologista do Centro Ciccarone para a Prevenção de Doenças Cardiovasculares da Universidade Johns Hopkins, em Baltimore, acompanhou um conjunto de 1.457 homens e mulheres de meia idade que inicialmente não apresentavam doença cardiovascular nem fatores de risco ao longo de 14 anos e meio. Conforme os participantes envelheciam, seus fatores de risco para a doença cardíaca também aumentavam, acompanhando os depósitos de cálcio em suas artérias coronárias e episódios cardiovasculares como ataques cardíacos e derrames.

A equipe de pesquisa se concentrou na alta da pressão sanguínea sistólica conforme a idade, ajustando os dados para levar em consideração outros riscos cardíacos. Eles descobriram que, para cada alta de 10 mm na pressão sistólica, o risco de depósitos de cálcio e episódios cardiovasculares aumenta de acordo.

Em comparação a pessoas com pressões sistólicas de 90 mm a 99 mm, a probabilidade de um episódio cardiovascular naquelas com pressão de 120 mm a 129 mm é 4,58 vezes maior. Ainda assim, Whelton disse em entrevista que seria errado manter o foco somente nas estratégias de prevenção à pressão alta. De acordo com ele, pessoas com pressão sanguínea elevada “também apresentam maior probabilidade de apresentar altos níveis de colesterol e glucose no sangue.

A estratégia ideal seria manter o foco em todos os fatores de risco — pressão sanguínea e níveis de colesterol e açúcar no sangue. Manter uma dieta saudável, praticar exercícios, evitar o tabagismo e consumir álcool apenas moderadamente ajudariam a amenizar todos os fatores de risco da doença cardiovascular”.

Os níveis de pressão sanguínea sistólica considerados saudáveis pelos médicos vêm caindo a cerca de meio século. Em agosto de 1950, um artigo publicado na JAMA indicou que apontar pressões sistólicas de 140 mm, 150 mm ou 160 mm como acima do normal seria “arbitrário, particularmente levando em consideração a idade”.

Os autores sugeriram que, se os níveis de pressão considerados aceitáveis em pessoas com mais de 40 anos fossem aumentados, “o resultado seria uma queda na incidência de hipertensão, afastando parte do medo generalizado e desnecessário envolvendo a pressão sanguínea elevada”.

As mais recentes recomendações relacionadas à pressão sanguínea, anunciadas em 2017 pela Associação Cardíaca Americana e a Faculdade Americana de Cardiologia, consideram uma pressão sistólica de 120 mm o limite máximo do normal, definindo 130 mm e além como pressão alta que exige tratamento com medicação e mudanças no estilo de vida.

Em um editorial que acompanha o novo estudo, Daniel W. Jones, especialista em hipertensão do Centro Médico da Universidade do Mississippi, que ajudou a formular as atuais recomendações para a pressão sanguínea, escreveu, “o risco imposto por uma pressão sanguínea abaixo do nível atualmente definido como limiar da hipertensão começa com uma pressão sistólica de 90 mm de mercúrio”.

Em entrevista, Jones disse, “A pressão sanguínea normal pode estar na casa dos 90, como vemos nas jovens saudáveis, antes de o sistema vascular ser prejudicado pela pressão sanguínea elevada com o passar dos anos. A prevenção deve começar com as crianças, com uma dieta de pouco sal e exercícios regulares, e os adultos devem evitar o ganho de peso com a idade, algo muito difícil de se fazer em nossa sociedade de alimentação tóxica”.

Ao me elogiar por manter pressão sanguínea sistólica entre 100 e 110 durante toda a minha vida adulta, ele disse, “Para os americanos, é raro chegar à sua idade, 79 anos, sem apresentar hipertensão”. Quando perguntei por que os médicos não enfatizam mais a conservação dos níveis de pressão da juventude, Jones disse que nos anos 1960 as faculdades de medicina ensinavam que a pressão sanguínea deveria aumentar com a idade para garantir o fornecimento adequado de sangue ao cérebro. “Foi somente nas décadas mais recentes que aceitamos o fato de que manter a pressão sanguínea mais baixa com o envelhecimento pode beneficiar o cérebro, os rins e o coração”, disse ele. / TRADUÇÃO DE AUGUSTO CALIL

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