Como a perda de visão pode afetar o cérebro

Como a perda de visão pode afetar o cérebro

Um crescente conjunto de evidências sugere que, quando os cérebros das pessoas mais velhas têm que trabalhar mais para enxergar, podem ocorrer declínios na linguagem, memória e atenção, além de outros

Jane E. Brody, The New York Times - Life/Style, O Estado de S.Paulo

28 de outubro de 2021 | 05h00

A prática médica tende a dividir seus clientes - você e eu - em especialidades definidas pelas partes do corpo: oftalmologia, neurologia, gastroenterologia, psiquiatria e afins. Mas, na verdade, o corpo humano não funciona em silos. Ao contrário, funciona como um todo integrado, e o que não funciona bem em uma parte do corpo pode afetar várias outras.

Eu escrevi sobre os danos potenciais da perda de audição para a saúde do cérebro, bem como para a saúde de nossos ossos, coração e bem-estar emocional.

A perda auditiva não tratada pode aumentar o risco de demência. Mesmo aqueles com leves problemas de audição podem ter déficits cognitivos mensuráveis.

Agora, um crescente conjunto de pesquisas está demonstrando que a perda de visão também pode afetar o funcionamento do cérebro. Como o que ocorre com a audição, se o cérebro tiver que trabalhar muito para entender o que nossos olhos enxergam, isso pode afetar a função cognitiva.

O mais recente estudo, publicado na JAMA Network Open em julho, acompanhou 1.202 homens e mulheres com idades entre 60 e 94 anos por aproximadamente sete anos. Todos fizeram parte do Baltimore Longitudinal Study of Aging e realizaram testes de visão e cognição de um a quatro anos entre 2003 e 2019.

Os pesquisadores descobriram que aqueles que foram mal nos testes iniciais de acuidade visual – que avaliavam quão bem, por exemplo, eles podiam ver as letras em um gráfico de uma determinada distância - eram mais propensos a ter declínio cognitivo ao longo do tempo, incluindo déficits na linguagem, memória, atenção e capacidade de identificar e localizar objetos no espaço.

Outros problemas de visão, como a percepção de profundidade e a capacidade para ver contrastes, também tiveram efeitos deletérios sobre a capacidade cognitiva.

A pesquisadora principal, Bonnielin Swenor, uma epidemiologista do Instituto Wilmer Eye da Johns Hopkins , disse que o novo estudo "auxilia nos crescentes dados longitudinais que mostram que a deficiência visual pode levar ao declínio cognitivo em adultos mais velhos".

Corrigir a visão deficiente é bom para o cérebro

Antes de você pensar que a relação é inversa - que o declínio cognitivo prejudica a visão - outro estudo do qual Swenor participou mostrou que, quando ambas as funções foram consideradas, a deficiência visual tinha duas vezes mais probabilidade de afetar o declínio cognitivo do que o contrário. Este estudo, publicado em 2018 na JAMA Ophthalmology e conduzido por Diane Zheng da Miller School of Medicine na University of Miami, incluiu 2.520 adultos da comunidade com idades entre 65 e 84 anos, cuja visão e função cognitiva foram testadas periodicamente. Ela e seus co-autores concluíram que manter uma boa visão conforme envelhecemos pode ser uma forma eficaz de minimizar o declínio da função cognitiva em adultos mais velhos.

“Quando as pessoas têm perda de visão, elas mudam a maneira como vivem suas vidas. Elas diminuem sua atividade física e sua atividade social, ambas tão importantes para manter um cérebro saudável”, disse Swenor. “Isso as coloca em um caminho rápido para o declínio cognitivo.”

Mas identificar e corrigir a perda de visão no início pode ajudar, disse Zheng. Ela sugeriu check-ups regulares nos olhos - pelo menos uma vez a cada dois anos, e mais frequentemente se você tiver diabetes, glaucoma ou outras condições que podem prejudicar a visão. “Certifique-se de que você enxerga bem com seus óculos”, ela insistiu.

Quando os óculos não são suficientes

Existem "problemas de visão que os óculos não consertam", disse Swenor, como degeneração macular relacionada à idade e glaucoma. Doenças da retina começaram a comprometer a visão de Swenor por volta dos 20 anos. Aqueles com problemas como o dela podem se beneficiar de algo chamado reabilitação da visão subnormal, uma espécie de fisioterapia para os olhos que ajuda os deficientes visuais a se adaptarem a situações comuns e os ajuda a conviverem melhor com o problema.

Swenor, por exemplo, consegue enxergar objetos em uma situação de alto contraste, como um gato preto contra uma cerca branca, mas tem dificuldade para enxergar a diferença entre cores semelhantes. Ela não consegue despejar leite em uma xícara branca sem derramar, por exemplo. A solução encontrada: utilizar uma xícara de cor escura. Encontrar esses ajustes é uma tarefa contínua, mas permite que ela siga atuando bem profissionalmente e socialmente.

A sociedade também precisa ajudar as pessoas com deficiência visual a agirem com segurança fora de casa. A maioria das coisas nos hospitais é branca, por exemplo, o que cria riscos de segurança para pessoas com sensibilidade reduzida ao contraste. Como uma motorista de 50 anos, notei que barreiras rodoviárias que costumavam ser da mesma cor da superfície da estrada agora são renderizadas com mais frequência em cores de alto contraste, como laranja ou amarelo, o que sem dúvida reduz os acidentes mesmo para pessoas que podem ver perfeitamente.

“Precisamos criar uma sociedade mais inclusiva que acomode pessoas com deficiência visual”, disse Swenor.

Melhorias na casa podem promover a saúde do cérebro

Pessoas que têm problemas com a percepção de profundidade também podem incorporar recursos de design úteis em casa. Colocar tiras coloridas em degraus de escada, texturas variadas nos móveis e objetos com códigos de cores podem melhorar a capacidade de andar com segurança. Pessoas que não conseguem mais ler livros também podem ouvir audiobooks, podcasts ou música, disse Swenor.

A ligação entre deficiência visual e deficiência cognitiva “não é uma mensagem trágica”, ela acrescentou. “Existem muitas maneiras de promover a saúde do cérebro para pessoas com perda de visão.”

O primeiro passo pode ser a aprovação de um projeto de extensão ao Medicare no Congresso americano, o que, por sua vez, pode levar os planos privados a também cobrirem os cuidados com a visão e a reabilitação. A proposta atual dos democratas de estender os benefícios do Medicare para cobrir os cuidados com a visão seria mais do que pagar a si próprio a longo prazo, diminuindo os custos médicos já cobertos para o declínio cognitivo e físico.

Caso em questão: o custo de uma única prótese de quadril resultante de uma queda por deficiência visual excederia o custo de muitas centenas de exames oftalmológicos e correções de visão necessárias. /TRADUÇÃO LÍVIA BUELONI GONÇALVES

The New York Times Licensing Group - Todos os direitos reservados. É proibido todo tipo de reprodução sem autorização por escrito do The New York Times

Encontrou algum erro? Entre em contato

Comentários

Os comentários são exclusivos para assinantes do Estadão.

O Estadão deixou de dar suporte ao Internet Explorer 9 ou anterior. Clique aqui e saiba mais.