Embodied Labs via The New York Times
Embodied Labs via The New York Times

Com a realidade virtual, cuidadores podem se colocar no lugar dos pacientes

Programa mais recente da Embodied Labs simula experiências de idosos LGBT

Kerry Hannon, The New York Times - Life/Style

08 de novembro de 2020 | 05h00

Quando Carrie Shaw era caloura na Universidade da Carolina do Norte, sua mãe, então com 49 anos, descobriu que tinha Alzheimer em estágio inicial. “Eu estava com muito medo do diagnóstico da minha mãe”, disse Shaw, fundadora e executiva-chefe da Embodied Labs, empresa de tecnologia educacional com sede em Los Angeles que usa softwares de realidade virtual para treinar profissionais de saúde que trabalham com idosos.

“Tive aquela reação de negar e deixar a família se virar sem mim”, disse ela. “Depois de me formar, entrei para o Peace Corps (Corpo da Paz) por um período de dois anos na República Dominicana. Queria ajudar e servir, mas não sabia como fazer isso na minha própria família”. Quando tinha 24 anos, ela encarou a situação. Shaw, que tem um diploma de graduação em saúde pública, voltou para a casa da família em Winston-Salem, Carolina do Norte, para ser cuidadora em tempo integral.

“Naquela época, minha mãe estava com demência bastante avançada, mas era muito significativo estar com ela e construímos um relacionamento especial”, disse ela. Embora elas tenham se aproximado, Shaw, agora com 32 anos, acabou se frustrando. “Sofria muito tentando imaginar como minha mãe estava percebendo o mundo ao seu redor”, disse ela.

Em 2014, ela voltou a estudar para obter um diploma de Mestre em Ciências em visualização biomédica pela Universidade de Illinois, em Chicago. A pergunta de sua tese: se conseguíssemos entrar no mundo de alguém que está envelhecendo, será que isto poderia ajudar os profissionais de saúde a serem mais eficazes? A evolução da tecnologia de realidade virtual a ajudou a responder a essa pergunta.

E, quatro anos atrás, Shaw fundou a Embodied Labs, junto com sua irmã, Erin Washington, que também cuidava da mãe e agora é diretora de produtos, e Thomas Leahy, um colega de faculdade, agora diretor de tecnologia da empresa. O software da empresa permite que os usuários vislumbrem o corpo e a mente de alguém que enfrenta problemas de envelhecimento: declínio cognitivo, como Alzheimer, perda de visão e audição relacionada à idade ou doenças neurodegenerativas, como Parkinson e demência.

O objetivo é dar aos usuários, entre eles estudantes de medicina, enfermeiros, auxiliares de enfermagem e cuidadores familiares, uma melhor compreensão dos desafios enfrentados por idosos com essas doenças ou deficiências, por meio da perspectiva do paciente em primeira pessoa.

Estudantes de medicina, por exemplo, podem usar o fone de ouvido de realidade virtual da Embodied Labs e um software de computador para fazerem um programa de treinamento de 20 minutos com ilustrações médicas em 360 graus sobre as mudanças na estrutura e na atividade do cérebro.

E também podem ter uma experiência visual imersiva na qual entram virtualmente no mundo de Beatriz, uma mulher de meia-idade que, ao longo de uma década, vai sofrendo com o Alzheimer. Em outro programa, os usuários incorporam Alfred, um homem de 74 anos com perda auditiva e degeneração macular.

A ideia é mostrar que a perda da audição e da visão pode fazer com que alguém pareça ter deficiência cognitiva, mesmo que não tenha. A experiência do programa é um dia na vida de Alfred, incluindo interações com seu médico e sua família. Com os óculos de realidade virtual, a visão do espectador é reduzida por uma mancha escura no meio do campo visual, simulando a degeneração macular.

O estreitamento da visão deixa difíceis e frustrantes o contato visual, a comunicação e até as tarefas mais simples. O software também leva o usuário para um tour pelas mudanças dentro da retina à medida que a degeneração macular avança. O programa mais recente da Embodied Labs, lançado em junho, é o Eden Lab, que simula experiências de idosos LGBT. “Equívocos baseados em preconceito de idade, homofobia e transfobia podem levar a disparidades que afetam a saúde física e mental”, disse Shaw.

“O que tento fazer com a Embodied Labs é preencher essa lacuna de compreensão, para que as pessoas possam chegar a esse ponto mais rápido do que eu”, disse ela. “É a convergência de envelhecimento, tecnologia emergente e necessidade de transformar nossos métodos de treinamento de mão de obra em cuidados de saúde e envelhecimento”. Os fundos para desenvolver a plataforma e o software vieram de um punhado de investidores-anjo, amigos e familiares.

Além disso, Shaw recorreu a doações e empréstimos sem juros e recebeu US$ 250 mil como a vencedora do Prêmio Desafio da Educação XR de 2018, financiado pela Fundação Bill e Melinda Gates. Este ano, a empresa recebeu um financiamento de US$ 3,2 milhões de vários fundos de capital de risco, entre eles o Fundo WXR, que investe em mulheres empresárias e na próxima onda da computação.

“As oportunidades de tecnologia de imersão na área de saúde são vastas e abrangem telessaúde, terapêutica, diagnósticos, treinamento e muito mais”, disse Martina Welkhoff, cofundadora e sócia-gerente do Fundo WXR. “Os seres humanos se comunicam e aprendem instintivamente em 3D, então a tecnologia de imersão é particularmente poderosa em sistemas complexos e de alto risco, como o de saúde”, disse ela.

A empresa vende um kit de hardware e uma licença de software para mais de 100 assinantes, incluindo comunidades de idosos como o Benedictine Health System e Front Porch; a GreatCall, que vende telefones celulares, sistemas de alerta médico e alertas médicos móveis para idosos; mais de 40 universidades e escolas médicas; e agências governamentais. Shaw estima uma receita de US$ 1 milhão com assinaturas este ano.

“A tecnologia da Embodied Labs coloca você no lugar do paciente, e você também vê como a doença vai avançando com o tempo”, disse Mary Furlong, consultora de saúde e marketing. “Não é só um projeto de ciências, é um mercado viável”, disse ela. “O que é impressionante no trabalho de Carrie é que ela consegue treinar pessoas em call centers, em casas de repouso e nos canais de atendimento domiciliar multinível que fazem o negócio funcionar”.

Shaw disse que percebeu que a tecnologia de imersão estava mudando rapidamente e que o grande desafio era manter a liderança. “A plataforma de onde estamos partindo é a primeira ponte”, disse ela. “A tecnologia pode melhorar nossa saúde, não apenas no treinamento, mas no bem-estar e na terapia do dia a dia”. A mãe de Shaw morreu no mês em que a Embodied Labs foi lançada. Tinha 61 anos.

“Enquanto estou construindo esta empresa, penso na minha mãe o tempo todo”, disse Shaw. “Teria sido maravilhoso se ela pudesse colocar os óculos que a ajudariam a fazer arte ou fisioterapia de um jeito divertido, que aumentaria suas habilidades. Estou envelhecendo. Sempre pergunto: qual é o mundo que queremos criar e para o qual estamos envelhecendo?” / TRADUÇÃO DE RENATO PRELORENTZOU

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