Estudo joga luz sobre os riscos do uso de hormônios de crescimento em crianças

Estudo joga luz sobre os riscos do uso de hormônios de crescimento em crianças

Pesquisa ligou o tratamento com o hormônio do crescimento a graves consequências para a saúde, anos mais tarde

Jane E. Brody, The New York Times - Life/Style, O Estado de S.Paulo

02 de setembro de 2021 | 05h00

Uma menino de 8 anos que conheço é pequeno para a sua idade, ele é menor e mais magro do que os seus amigos, menor até do que sua irmã de 5 anos. Preocupada com o emprego cada vez maior de hormônio de crescimento e com os possíveis riscos do seu uso, perguntei à mãe dele se ela estava pensando em tratá-lo com este medicamento. A mãe respondeu: “Não. Ele tem a mesma constituição do pai, que era baixinho e magro quando menino e só começou a crescer na faculdade”.

O seu filho, ela acrescentou, não tem sinais de uma deficiência hormonal. “Ele manteve a trajetória de crescimento durante anos, por isso não há razão para fazer algo a respeito,” prosseguiu. “Ele é atlético, fisicamente capaz e pode acompanhar os seus amigos de outras formas”.

O pai, hoje com 41 anos, tem cerca de 1,80 metro de altura embora seja ainda muito magro. Ele lembra de ter sido uma criança razoavelmente atlética, mas sem a força física dos colegas, compensando o que não tinha em massa com a velocidade e a agilidade. “Eu gostava de esportes competitivos e trabalhava capacidades que os outros não tinham”, contou, e afirmou que estimulou o filho a identificar e capitalizar as capacidades que ele tem.

Seria bom se todos os pais com um filho baixinho, mas saudável, encarassem o problema de maneira igualmente sensível. Alguns especialistas calculam que 60% a 80% das crianças de baixa estatura pela idade não têm uma deficiência do hormônio do crescimento ou outros problemas de saúde que limitem o seu crescimento. Mas sabendo que existe um tratamento para o aumento da estatura, alguns pais buscam uma solução médica, mesmo quando não há nenhuma anormalidade neste sentido. Entretanto, deveriam saber que novas pesquisas relacionaram o tratamento com hormônios do crescimento a efeitos profundamente graves para a saúde, anos mais tarde.

A baixa estatura pode ter muitas causas, além de uma deficiência do hormônio do crescimento, como por exemplo a desnutrição, a doença de Crohn ou doença celíaca, e possíveis problemas de saúde deveriam ser descartados ou, se existirem, tratados. Mas a altura está relacionada mais frequentemente à genética da criança. Tal pai ou mãe, tal filho ou filha. Considerando a altura dos meus pais – mãe com 1,55 de altura e o pai com 1,68 – eu seguramente não me tornaria uma jogadora de basquete do New York Knicks, com 1,50 metro.

Adda Grimberg, endocrinologista pediátrica do Children’s Hospital da Filadélfia, lembrou que, “há 20 anos, as famílias estavam preocupadas com a saúde. Elas vinham com crianças que não estavam crescendo direito e queriam saber se elas tinham alguma doença. Agora, elas estão cada vez mais concentradas na altura. Querem hormônio do crescimento, querendo uma altura específica. Mas esta não é a Amazon; não se pode fazer um pedido e tornar a criança da altura que as pessoas desejam”.

Originalmente, o hormônio do crescimento era usado para tratar de crianças com uma deficiência comprovada, que poderia levar a uma série de graves problemas de saúde. Os cadáveres eram a fonte limitada inicial do hormônio até 1985, quando os cientistas conseguiram produzir em laboratório o hormônio do crescimento recombinante, aumentando consideravelmente a oferta e o seu uso para o tratamento da deficiência desse hormônio.

As estimativas da incidência desta deficiência variam de uma em cada três mil a uma em cada 10 mil crianças. Segundo a Sociedade de Endocrinologia Pediátrica dos Estados Unidos, as crianças afetadas em geral costumam ser muito mais baixas do que outras da mesma idade – muito abaixo do terceiro percentil – e, com o tempo, ficarem cada vez mais para trás.

Em 2003, o Food and Drug Administration (FDA), agência de controle de alimentos e medicamentos dos EUA, aprovou o uso do hormônio de crescimento recombinante para a doença conhecida como “baixa estatura idiopática”, ou baixa estatura de causa desconhecida, que não é uma doença. Mas com isso, cresceu o número de pais que pensam em usar o hormônio para aumentar a estatura dos filhos. A corrida resultante a esse tratamento reflete a preocupação com um preconceito da sociedade muito difundido em relação à baixa estatura, e não uma necessidade realmente médica, disse Grimberg.

Os pais que pensam em submeter os filhos ao tratamento para esta doença benigna em termos médicos deveriam saber o que ela acarreta: injeções diárias durante anos até que o crescimento da criança seja concluído e a mudança constante dos pontos em que as injeções são aplicadas no corpo a fim de minimizar as marcas. Embora poucas crianças experimentem efeitos colaterais, que pode incluir fortes dores de cabeça e problemas no quadril, o tratamento exige repetidos controles médicos, raios-X, exames de sangue, e, segundo Grimberg, “isso dá à criança uma forte mensagem de que há algo errado nela que precisa ser tratado”.

Segundo a Sociedade de Endocrinologia Pediátrica, a decisão de administrar o hormônio do crescimento em caso de baixa estatura idiopática deveria ser tomada caso a caso, depois de estudar cuidadosamente os benefícios e os riscos para cada criança.

Então, quais são os benefícios e os riscos? Embora os fabricantes tenham apoioado o monitoramento da segurança dos medicamentos para além dos 10 anos obrigatórios do governo americano, a informação aos órgãos competentes é voluntária e necessariamente incompleta. No entanto, é possível uma avaliação muito mais confiável na Suécia, onde são coletados rotineiramente amplos dados da população.

Na revista JAMA Pediatrics de dezembro, endocrinologistas pediátricos do Hospital da Universidade de Karolinska informaram que entre 3.408 pacientes que foram tratados com o hormônio do crescimento recombinante entre crianças e adolescentes que foram acompanhados até os 25 anos, o risco de desenvolverem um evento cardiovascular, como um ataque cardíaco ou um derrame, foi dois terços mais elevado nos homens e duas vezes mais nas mulheres, do que entre 50.036 pessoas não tratadas, mas semelhantes em outros aspectos.

A descoberta sueca acompanha um artigo publicado em junho por uma equipe de pesquisa em Tóquio, que promove caminhos biomédicos do hormônio do crescimento que estimulam o desenvolvimento da aterosclerose, a base da maior parte dos eventos cardiovasculares.

Ainda não se sabe se outros efeitos adversos de longo prazo se revelarão no futuro. Com base em sua ação conhecida, ministrar hormônios do crescimento quando não existe nenhuma deficiência poderá elevar o risco de câncer, doenças respiratórias e diabetes. Em um editorial da revista JAMA Pediatrics, Grimberg escreveu que “evidências indiretas sugerem que o potencial de efeitos desagradáveis do hormônio do crescimento é suficientemente plausível” para justificar novos estudos.

Igualmente importante para os pais saberem é a altura que os seus filhos poderiam ganhar com anos de injeções diárias do hormônio. Embora seja impossível prever antecipadamente para uma criança, o benefício médio para as crianças de baixa estatura idiopática é de cerca de cinco centímetros da altura de adultos. Grimberg sugeriu que, se não existir um benefício mensurável em um ano de tratamento, os pais deveriam considerar a possibilidade de interrompê-la.

Discutindo os aspectos psicológicos do tratamento com hormônio do crescimento quando não existe deficiência, alguns especialistas observaram que a prática perpetua a ideia de que a baixa estatura é inaceitável, levando a uma demanda crescente de tratamento. É muito melhor, sugeriu um grupo, ajudar uma criança de baixa estatura a desenvolver habilidades que a compensem do que comprar centímetros por meio de recursos farmacológicos.

Em um artigo publicado na revista Hormone Research in Pediatrics, Talia Hitt e colegas do Children’s Hospital da Filadélfia com a Universidade da Pensilvânia escreveram que as grandes expectativas dos pais de que o tratamento do hormônio do crescimento melhore a qualidade de vida dos seus filhos não se cumprirão se as crianças não tiverem deficiência do hormônio. Eles pedem que os médicos “apoiem as famílias de outras maneiras que promovam o desenvolvimento positivo das crianças de baixa estatura”.

Philippa Gordon, pediatra em Brooklyn, Nova York, insistiu para que os pais façam com que os seus filhos saibam “que as pessoas podem ser de todos os tamanhos e formas e que o seu amor por eles é incondicional”. / TRADUÇÃO DE ANNA CAPOVILLA

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