Tasneem Alsultan para The New York Times
Tasneem Alsultan para The New York Times

Sauditas relatam abusos durante campanha de combate à corrupção

Empresários e até membros da família real alegam ser vítimas de um processo de repressão arquitetado pelo príncipe Mohammed bin Salman

Ben Hubbard, David D. Kirkpatrick, Kate Kelly e Mark Mazzetti, The New York TImes

16 Março 2018 | 10h00

RIAD, Arábia Saudita - Centenas de empresários sauditas, muitos deles membros da família real, foram trancados no Ritz-Carlton de Riad em novembro durante aquilo que o governo descreveu como campanha de combate à corrupção.

Desde então, a maioria já foi liberada, mas ninguém está livre. Em vez disso, essas influentes personalidades sauditas estão vivendo no medo e na incerteza.

Durante os meses de cativeiro, muitos foram sujeitados a coerção e abusos físicos, de acordo com testemunhas. Nos dias iniciais da repressão, pelo menos 17 detentos foram hospitalizados em decorrência de abusos físicos. Posteriormente, um deles morreu sob custódia.

Num e-mail endereçado ao The New York Times, o governo negou as acusações de abusos físicos, descritas como "absolutamente falsas".

Para deixar o Ritz, muitos dos detidos entregaram ao governo grandes somas, e também concederam às autoridades o controle de preciosos imóveis e ações de suas empresas, tudo isso sem recorrer a processos jurídicos claros.

Um ex-detento, obrigado a usar um dispositivo rastreador, entrou em depressão ao ver seus negócios ruírem. "Entregamos tudo a eles", disse um parente dele. "Não sei nem mesmo se a casa onde estou ainda é minha".

O arquiteto da repressão é o príncipe herdeiro Mohammed bin Salman. Na tentativa de atrair investidores estrangeiros, as autoridades sauditas estão destacando as reformas dele: a promessa de permitir que as mulheres dirijam, os planos para ampliar as opções de entretenimento e as jogadas para incentivar o investimento estrangeiro. Mas o episódio do Ritz é retratado como um procedimento dentro da lei que agora foi desmontado.

Entretanto, extensas entrevistas com autoridades sauditas, membros da família real e parentes, assessores e sócios dos detidos revelaram uma cooperação movida pela coerção.

Citando leis de privacidade, o governo se recusou a especificar as acusações contra os indivíduos. Mesmo depois de liberados, não foi esclarecido quais dos envolvidos foram considerados culpados ou inocentes.

Parte da campanha parece ser movida por uma disputa dentro da família, com o príncipe herdeiro Mohammed pressionando os filhos do rei Abdullah, monarca morto em 2015, a devolverem bilhões de dólares que eles consideram parte de sua herança, de acordo com três associados da família Abdullah.

O governo argumentou que a campanha de repressão é uma maneira de recuperar dinheiro desviado do tesouro. Foi afirmado em e-mail que "as investigações, comandadas pelo procurador geral, foram realizadas de acordo com as leis sauditas. Todos os investigados tiveram acesso a advogados e ao atendimento de saúde para tratar problemas crônicos".

Mas a natureza opaca e ilegal da campanha assustou os investidores estrangeiros que o príncipe tenta atrair.

"No início da repressão eles prometeram transparência, mas nada foi esclarecido", disse Robert Jordan, que atuou como embaixador dos Estados Unidos na Arábia Saudita durante o governo do presidente George W. Bush.

As 200 pessoas que foram alvo da repressão incluem o príncipe Alwaleed bin Talal, mais famoso investidor do reino e um dos homens mais ricos do mundo; o príncipe Mutaib bin Abdullah, filho do rei Abdullah e diretor de um dos três principais serviços de segurança do país; Fawaz Alhokair, dono das franquias de lojas como Zara, Gap e dúzias de outras; e Salah Kamel, empresário de idade avançada da cidade portuária de Jidá, no Mar Vermelho.

A maioria deles acabou no Ritz, em quartos cujas portas de vidro do box do banheiro e os cordões das cortinas foram removidos para evitar tentativas de suicídio. Eles podiam assistir à TV e usar o serviço de quarto, mas não tinham acesso à internet nem celulares.

O príncipe Alwaleed foi liberado do hotel, mas representantes de sua empresa, Kingdom Holding, recusaram-se a fornecer o contato dele para entrevistas. Dois associados da família dizem que ele está sob escolta armada. Ele contou a poucas pessoas o que ocorreu com ele no Ritz, se é que revelou detalhes do episódio.

"É algo que ele prefere esquecer", disse um dos associados.

Nos primeiros dias das detenções no Ritz, até 17 prisioneiros precisaram de tratamento médico depois de sofrerem abusos por parte de seus captores, de acordo com um médico e um funcionário americano.

Os parentes de alguns dos detentos disseram que eles foram privados do sono, tratados com brutalidade e interrogados com a cabeça coberta enquanto o governo os pressionava a assinar a entrega de bens e ativos substanciais. Funcionários de dois governos ocidentais disseram considerar os relatos críveis.

Um caso envolveu um oficial do exército saudita que morreu sob custódia. Uma pessoa que viu o corpo do oficial, major general Ali al-Qahtani, disse que seu pescoço estava virado numa posição antinatural, como se tivesse sido quebrado, e seu corpo trazia muitos hematomas e ferimentos.

Um médico e duas outras pessoas informadas a respeito das condições do corpo disseram que este tinha marcas de queimadura que pareciam feitas com choques elétricos.

O governo assumiu a administração do Saudi Binladen Group, gigante da construção fundada pelo pai de Osama bin Laden. O diretor, Bakr Binladen, continua detido, e seus parentes perderam boa parte de sua riqueza particular.

"Ninguém pode comentar o que ocorreu no Ritz", disse um associado de um ex-detento. "No fim, todos precisam viver na Arábia Saudita". / Danny Hakim contribuiu com a reportagem.

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