Andrew Quilty/The New York Times
Andrew Quilty/The New York Times

'Se eu não cobrir, quem vai?', diz repórter do NYT sobre atentados no Afeganistão

Fatima Faizi, repórter do New York Times em Cabul, já cobriu oito atentados a bomba no Afeganistão desde 2016; ela teme que seu irmão seja a próxima vítima

Fatima Faizi, The New York Times

28 Março 2018 | 15h00

CABUL, Afeganistão - Sempre que ouço uma explosão na minha cidade, chamo meu irmão mais novo. Ehsan, 17, é o tipo de menino que está sempre na rua - andando de bicicleta, jogando futebol. Meus pais e eu sempre o alertamos para que fique em lugares seguros. Mas ele se recusa. “Onde é que há um lugar seguro aqui? Mostre para mim. Se você conseguir, vou para lá”.

Por isso, quando outra bomba explodiu, no dia 21 de março, meu instinto foi telefonar para ele. Depois lembrei: eu estava de folga do meu trabalho de repórter na redação do New York Times, em Cabul, por isso estava em casa, e também meu irmão. Fiz um inventário mental dos parentes e amigos; todos estavam em lugar seguro.

Então peguei meu bloco de anotações e fui para o local da explosão. Não precisaria ir para lá, falou meu chefe, mas senti que precisava ir. Tremia como vara verde, mas não liguei. Este seria o oitavo atentado suicida que testemunharia em Cabul - e estou farta disso.

De certo modo, foi o pior que já vira, talvez porque notei um menino de bruços, uma perna arrancada pela explosão, e do lugar onde eu estava, se parecia com meu irmão. As pessoas em volta estavam enfurecidas e expulsavam os jornalistas. Acho que, como eu estava tremendo tanto, não olhavam para mim. Eu compreendia sua fúria. Elas não querem que seu sofrimento seja matéria de jornal.

Elas procuram logo o autor, e nós estamos bem ali; os terroristas não estão.

Eu era uma pessoa civil, não uma jornalista, testemunhando pela primeira vez um suicídio: o atentado do Movimento para o Esclarecimento de 2016 (como outros que experimentaram atos internacionais de terrorismo - o Massacre de Munique, a Ponte de Londres -, nós, afegãos, damos um nome aos nossos atentados).

Eu estava muito próxima desse. O Movimento para o Esclarecimento, que começou com meus colegas Hazaras, um grupo de ampla minoria xiita, atraiu uma enorme multidão para uma manifestação contra o governo organizada principalmente por jovens como eu. Estávamos cheios de entusiasmo e felizes por estarmos finalmente reivindicando os direitos há tanto tempo negados ao nosso povo. Era um dia quente de julho e eu me refugiei do calor à sombra de um muro.

O muro salvou a minha vida. Não tenho palavras para descrever o som terrível daquela explosão. O ar ficou cheio de poeira e eu estava deitada no chão, chocada demais para me mexer. Foi a minha sorte, porque logo em seguida houve outra explosão - um truque perverso dos terroristas para acabar com quem reage primeiro. Um vidro que voava cortou o meu nariz, mas não sofri outros ferimentos.

Muito pior foi o que vi: pessoas mortas e outras morrendo, vítimas sem membros e sobreviventes desesperados, os urros de horror e raiva. A explosão matou 84 e feriu mais de 400. Muitos dos meus amigos estavam entre as vítimas, como soube mais tarde. “Estamos mudando a história”, escreveu meu amigo Sharif Dawlat Shahi, funcionário do governo, em sua página do Facebook, naquela manhã. Foi a última vez que ele escreveu.

Muitas pessoas perguntam por que eu continuo fazendo este tipo de reportagem. “Se eu não fizer, quem vai fazer?” respondo.

O mundo está cansado da história do pobre Afeganistão dilacerado pelas bombas. E isso já deixou de ser notícia: 150 mortos em uma quarta-feira, 84 em uma quinta, 10 na sexta, chega!

Eu disse que a explosão de 21 de março foi, talvez, a pior que vi não porque matou 33, mas porque eu pude estar tão perto. Mas foi também a melhor, pela mesma razão. Ela ajudou a transmitir a verdadeira desgraça humana de uma maneira como os números jamais conseguirão.

A mãe daquele menino, Mustafa, que parecia com meu irmão, Ehsan, ficou falando com o corpo dele, e todos à sua volta estavam arrasados por sua dor imensa: “Meu filho lindo, meu filho lindo. Meu homenzinho. Deus sabe como criei você. Por que ele deixou você morrer?”.

Estava ficando perigoso demais, então mandei uma mensagem ao meu chefe dizendo que tinha de sair dali. Não parava de tremer.

Ao me afastar, vi um garoto de bicicleta. Estava vestido exatamente como meu irmão. Eu tinha dito a Ehsan: “Fique em casa!”. Então corri atrás do menino até que o alcancei. Era outra pessoa.

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