Gordon Welters para The New York Times
Gordon Welters para The New York Times

Seca causa entraves em uma das principais vias de transporte da Alemanha

A estiagem vem reduzindo o nível dos rios e prejudicando rotas fluviais

Christopher F. Schuetze, The New York Times

10 Novembro 2018 | 06h00

KAUB, ALEMANHA - Pouco depois do nascer do sol, o capitão Frank Sep ligou o rádio de seu navio para ficar a par da principal notícia que definiria seu dia: o nível da água em Kaub, parte mais rasa da parte média do Reno, a mais importante rota de transportes fluviais da Alemanha. E as notícias eram ruins.

Uma das mais longas secas já registradas deixou partes do Reno com profundidades baixíssimas durante meses, obrigando os cargueiros a trabalhar com menos peso ou evitar suas águas.

Partes do Danúbio e do Elba - os dois outros principais rios usados para transporte na Alemanha - também estão secando. Alguns portos estão ociosos, e estima-se que milhões de toneladas de mercadorias são agora transportadas por ferrovia ou rodovia.

Kaub fica mais ou menos no meio do caminho entre os portos de Koblenz e Mainz, e virtualmente toda a carga vinda de portos nos Países Baixos e na Bélgica rumando para o sudoeste industrial da Alemanha passa por aqui.

Certo dia no final de outubro, o capitão Sep ficou sabendo que a profundidade do rio era de apenas 25 centímetros. Isso significava que a água no canal de carga construído pelo homem perto do centro do rio estaria com profundidade de apenas um metro e meio, uma queda em relação à profundidade média de aproximadamente três metros. Mesmo transportando um terço da carga habitual, seu cargueiro de 90 metros, Rex-Rheni - o Rei do Reno - teria apenas centímetros de água sob o casco. 

"Nunca vi esse ponto tão raso", disse o capitão Sep.

Um grupo comercial da Alemanha calculou que o prejuízo causado pela seca aos agricultores chega a bilhões de dólares. A gigante alemã da indústria química, BASF, teve de reduzir a produção em uma de suas instalações porque o nível do Reno, cuja água é usada para o resfriamento, estava demasiadamente baixo.

Os postos de gasolina da região, que dependem de navios para o transporte de combustível vindo das refinarias nos Países Baixos, estão com as bombas secas.

Cerca de metade das balsas fluviais da Alemanha parou de circular, e os cruzeiros pelos rios são obrigados a transportar os passageiros de ônibus em alguns trechos da viagem. Milhares de peixes morreram na parte suíça do rio.

Há motivos para crer que o tempo seco vai se tornar mais frequente com o clima aquecido.

"Nossas pesquisas mostram um aumento na instabilidade", disse Hagen Koch, do Instituto de Pesquisa de Impacto Climático de Potsdam. "As situações extremas se tornarão mais frequentes".

Cerca de 80% das 223 milhões de toneladas de carga transportadas por navios anualmente na Alemanha viajam pelo Reno, que liga o coração industrial do país à Bélgica, aos Países Baixos e ao Mar do Norte.

Ainda que seja possível transportar a maior parte da carga por ferrovias ou rodovias (embora o custo seja mais alto), alguns artigos não podem ser transportados assim. A transportadora Kübler Spedition é especializada em cargas que não podem ser transportadas em ferrovias por mais de alguns quilômetros. Agora que os navios transportando peças pesadas para uma fazenda eólica não conseguem mais chegar ao terminal da empresa em Mannheim, a área de armazenamento da Kübler está vazia.

"Na prática, a construção da fazenda eólica foi totalmente interrompida", comentou Robert Mutlu, que administra o terminal.

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