Andrew Mangum The New York Times
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Se curadores fazem todas as escolhas, as coisas começam a ficar parecidas

Mas se todo mundo é um curador, isto não significará que ninguém é um curador?

Amanda E. Newman, The New York Times

29 de março de 2020 | 06h00

As paredes do quarto de Sierra Palantino estão cobertas de milhares de belíssimas imagens – as mesmas imagens que estão expostas em milhares de outros quartos. As decorações de Sierra são kits de colagens que alguém escolheu e colocou online. “Sempre gostei de fazer colagens, mas é legal encontrar alguma coisa que a gente pode comprar”, disse Sierra. “Parecia algo agradável esteticamente”.

Tezza Barton, influenciadora do Instagram que criou os kits temáticos de 150 páginas, começou a vendê-los no seu site há três anos, depois que os seus seguidores pediram para ver como ela fazia suas próprias colagens. “Você compra muitas revistas e decora as suas paredes, mas  nunca é como conseguir esta cena já pronta ou ter a sensação de ter feito um trabalho de curadora”, disse Tezza. Foi daí que vieram os seus kits a US$ 89 cada.

“Parece um pouco como encontrar um trabalho de imaginação já embalado e pronto para o uso”, afirmou o ex- diretor de criação da revista Teen Vogue, Eric Hover. “É como se outros fizessem o trabalho para você em lugar de você mesmo se inspirar na vida real e tirar suas próprias fotos”. Maryellen Stewart, redatora freelancer para marcas de luxo, se sente ofendida pelo abuso da palavra “curador”. “Odeio essa palavra”, ela falou . “Encontro em toda parte".

Faz muitos anos que Andrew Renton, professor de curadoria da Goldsmiths, Universidade de Londres, observava toda vez que via um emprego inadequado do termo, mas ele acabou se tornando ubíquo, então ele desistiu. “É uma “batalha pelo espaço para o curador”, ele disse. Na opinião de Amy de la Haye, membro do corpo docente do Centre for Fashion Curation na University of the Arts, de Londres, “um curador precisa ser alguém que trabalha com objetos”. “Mas tenho colegas que gostariam de acrescentar ‘não necessariamente’”, afirmou.

Jeffrey Horseley, outro membro do corpo docente do Centre, é um deles. “Para mim, o trabalho do curador tem a com uma atividade baseada em coleções; nada tem a ver com fazer exposições”, ele disse. “São disciplinas totalmente separadas”. A economia informal significa que um consultor por encomenda pode ser contratado para realizar um capricho qualquer, escreveu Steven Kurutz. Até as nossas imaginações podem ser terceirizadas.

“As vidas das pessoas começam a parecer iguais”, afirmou Hover. “Os apartamentos das pessoas começam a parecer os mesmos. As redes sociais começa a parecer a mesma. A maquiagem das pessoas começa a parecer a mesma. É como dizer às pessoas, peguem essa avenida e lá encontrarão algo que poderão comprar para conseguir isto”. Em Nova York, encontram-se curadores como Lisa Muñoz, designer de plantas de interiores. A partir de um pagamento de US$ 2 mil, ela seleciona plantas de casas para fazer com que o seu espaço parece um luxo.

O seu papel é semelhante ao de um estilista de moda ou de um consultor  de arte: Ou seja, fazer escolhas estéticas e investimentos seguros em nome de outras pessoas. Somente plantas”, escreveu Kurutz. Mas se todo mundo é um curador, isto não significará que ninguém é um curador?

“Será o por isto que o termo é tão menosprezado”, disse Renton, “que teremos de pensar em outro lugar como deveremos nos chamar?” Muñoz tem uma visão diferente do seu papel.” Acho que as pessoas estão realmente querendo coisas que as façam felizes”, afirmou. “Já ouviu falar de plantas que enlouquecem as pessoas?” / TRADUÇÃO DE ANNA CAPOVILLA

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