Keith Negley
Keith Negley

'Segregar' sangue pode salvar vidas

Ter mais doadores de certos grupos étnicos pode aumentar a chance de sobrevivência de pacientes com doenças como malária ou anemia falciforme

Rose George, The New York Times

11 de junho de 2019 | 06h00

Durante a 2ª Guerra Mundial, o sangue afro-americano foi rotulado de N (da palavra negro) e dado apenas aos soldados afro-americanos. Norman H. Davis, então presidente da Cruz Vermelha Americana, admitiu que segregar sangue era "uma questão de tradição e sentimento, e não de ciência", mas a prática continuou até 1950.

No entanto, a Cruz Vermelha estava errada: agora está cientificamente estabelecido que o sangue pode ser racial ou etnicamente específico.

A maioria das pessoas sabe sobre os oito principais grupos sanguíneos: A, B, AB e O, cada um dos quais pode ser positivo ou negativo (o fator Rh). Estes são determinados pelos genes, e seu grupo depende da combinação de proteínas e açúcares - antígenos - que estão do lado de fora dos glóbulos vermelhos.

Uma transfusão de sangue bem-sucedida depende da semelhança. Se o sangue que entra tem um antígeno que lhe falta, seu corpo pode reagir mal a ele. A reação pode sobrecarregar o sistema imunológico em pessoas que já estão enfraquecidas por sua condição. Você também produzirá um anticorpo, uma espécie de soldado da tempestade imunológica, para melhor reconhecer o mesmo antígeno da próxima vez. Os pacientes que precisam de transfusões regulares de sangue - aqueles que têm doença falciforme ou leucemia, por exemplo - podem encarar uma reserva cada vez menor de sangue adequado, porque continuam criando anticorpos.

Não seria mais fácil se o sangue fosse o mesmo? Culpe os insetos.

Grande parte da variação "tem sido impulsionada pela seleção evolutiva por bactérias, malária e parasitas", disse Connie Westhoff, diretora do New York Blood Center. Se a malária encontrar seu caminho na corrente sanguínea através de um determinado antígeno, esse antígeno pode mudar para se defender, levando a diferentes tipos sanguíneos. A cólera se desenvolve melhor nas células intestinais derivadas das células-tronco do tipo O, mas O também é mais protetor contra a malária. Por muitas razões complicadas, apenas 27% dos asiáticos têm o tipo A, mas 40% dos caucasianos têm este tipo de sangue. Já o tipo B é encontrado mais comumente na Ásia do que na Europa.

Isso funciona não apenas com os tipos sanguíneos. O traço falciforme é conhecido por proteger contra a malária, e é por isso que a célula falciforme, uma doença debilitante causada por células sanguíneas malformadas, é encontrada frequentemente em pessoas com herança africana, porque a malária prospera na África.

A maioria das pessoas, segundo Susan Forbes, do banco de sangue One Blood, "não entende a necessidade de um suprimento sanguíneo diversificado".

Uma garota chamada Zainab Mughal, na Flórida, aumentou a conscientização sobre essa necessidade. Zainab, 3 anos, tem neuroblastoma, um câncer agressivo, e seu tratamento - quimioterapia e transplantes de células-tronco - significa que ela precisará de sangue.

Mas Zainab pertence a menos de 1% da população que não possui um antígeno que os outros 99% têm. Programas de doadores encontraram cinco doadores em todo o mundo com o mesmo tipo sanguíneo. Como se sabe que o antígeno ausente é deficiente no sangue de iranianos, paquistaneses e indianos, seus doadores tinham que ter ambos os pais dessas populações. A publicidade sobre o caso de Zainab, embora fosse um caso extremo de raridade, enfatizava a necessidade de doadores.

A doença falciforme e a talassemia, encontradas principalmente entre os sul-asiáticos, requerem sangue com correspondência adequada. Mas há um déficit entre os pacientes de minorias étnicas que precisam de doações e doadores de sangue de minorias étnicas.

Em 2009, o New York Blood Center começou a oferecer a opção de "autodeclarar" a etnia em seus formulários de doação. Isso permitiu que os integrantes da equipe abrigassem antígenos conhecidos por serem específicos de certas populações. Mas houve problemas no início.

"Educamos a equipe", explicou Westhoff, "para saber que não estávamos segregando o sangue apenas para nos separarmos. Estávamos fazendo isso para enviar todas as unidades afro-americanas para as crianças do programa de anemia falciforme, porque elas estavam se saindo muito melhor com o sangue que vinha desse mesmo grupo étnico”. / TRADUÇÃO DE ROMINA CÁCIA

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