Andrew Testa para The New York Times
Andrew Testa para The New York Times

Segunda pessoa curada do HIV revela sua identidade (e sua história)

"Eu não quero que as pessoas pensem," Oh, você foi escolhido". Não, isso aconteceu. Eu estava no lugar certo, provavelmente na hora certa, quando aconteceu", disse Adam Castillejo

Apoorva Mandavilli, The New York Times

23 de março de 2020 | 06h00

Um ano depois de PL, o “Paciente de Londres”, ser apresentado ao mundo como a segunda pessoa curada do HIV, ele decidiu revelar a sua identidade: Adam Castillejo. Aos 40 anos, transpira boa saúde e alegria, mas a sua jornada até a cura foi árdua, extremamente dolorosa, e envolveu quase dez anos de tratamentos horríveis e momentos de puro desespero.

Durante esse tempo, ele lutou consigo mesmo até decidir se e quando iria a público, considerando a atenção e a crítica que poderiam se seguir. Finalmente, disse, ele se deu conta de que a sua história trazia uma poderosa mensagem de otimismo. “Esta é uma condição única, que nos torna humildes”, ele disse. “Quero ser um embaixador de esperança”.

Em março do ano passado, os cientistas anunciaram que Castillejo, então identificado apenas como “o Paciente de Londres”, havia sido curado do HIV depois de receber um transplante de medula óssea para o seu linfoma. O doador carregava uma mutação que impedia que o HIV penetrasse nas células, de modo que o transplante substituiu essencialmente o sistema imunológico de Castillejo por outro resistente ao vírus. A finalidade da estratégia era curá-lo do câncer e não é uma opção prática para uma cura generalizada do HIV por causa dos riscos que comporta.

Há somente outro indivíduo com HIV – Timothy Ray Brown, o chamado Paciente de Berlim, em 2008 – que foi curado. Os médicos de Castillejo não tinham certeza, no ano passado, de que ele estava livre do HIV, e falavam em uma “remissão”. No entanto, a notícia chamou a atenção do mundo todo. E a confirmação de que uma cura era possível, encorajou os pesquisadores.

“É realmente importante que não tenha sido algo único, e não uma obra do acaso”, disse Richard Jefferys, diretor do Grupo de Ação para Tratamento, que atua em favor desta população. Os médicos de Castillejo agora estão mais seguros de que ele está isento do vírus. “Nós achamos que esta é uma cura, porque passou mais um ano e nós fizemos alguns outros testes”, disse o seu virologista, Ravindra Gupta da Universidade de Cambridge.

Para testar a sua decisão de contar a própria história, Castillejo criou um endereço de e-mail e um número de telefone para falar da sua vida como “PL” e abriu uma conta no Twitter. Começou então a conversar semanalmente com Brown. Em dezembro, ele preparou um documento para ser lido em voz alta na Radio 4 da BBC. “Não quero que as pessoas pensem: ‘Ah, você foi o escolhido?’ ” ele disse. “Não, isto simplesmente aconteceu. Eu estava no lugar certo, provavelmente no momento certo, quando aconteceu”.

Castillejo nasceu em Caracas, na Venezuela. Seu pai era de origem espanhola e holandesa, e foi piloto de uma companhia de ecoturismo. Castillejo fala com muita reverência do pai, que morreu há 20 anos. Mas os seus pais divorciaram quando ele era jovem, por isso foi criado na maior parte pela mãe, que mora com ele em Londres.

“Ela me ensinou a ser sempre o melhor possível, independentemente de qualquer outra coisa”, disse. Quando jovem, fez a sua primeira viagem para Copenhague e depois para Londres em 2002. Em 2003, os médicos diagnosticaram que ele estava com HIV, o vírus da Aids. Na época, um diagnóstico de HIV era visto frequentemente como uma sentença de morte, e Castillejo só tinha 23 anos. “Foi uma experiência apavorante e traumática”, afirmou.

Mas com o apoio do seu companheiro, o jovem perseverou. Transformou sua paixão pela culinária em uma profissão, e foi trabalhar como subchefe em um restaurante fusion então na moda. Adotou um estilo de vida saudável: comia bem, praticava exercícios físicos com frequência, andava de bicicleta, corria e nadava. Então, em 2011, os exames mostraram que ele estava com um linfoma no estágio 4. “Mais uma vez, uma sentença de morte’, lembrou.

Seguiram-se anos de terrível quimioterapia. O fato de ele estar com HIV complicava a sua vida. Cada vez que os seus oncologistas adequavam o seu tratamento de câncer, os infectologistas precisavam recalibrar os seus remédios contra o HIV, disse Simon Edwards, que servia de intermediário entre as duas equipes.

No final de 2014, a carga física e emocional dos últimos anos pegou Castillejo. Duas semanas antes do Natal, ele desapareceu. Reapareceu quatro dias mais tarde, nos arrabaldes de Londres, sem saber como havia acabado lá ou o que havia feito. Pensou em procurar a Dignitas, a companhia suíça que ajuda as pessoas doentes a tirarem a própria vida: “Eu me sentia impotente. Precisava de um controle para acabar com a vida como eu queria”.

No entanto, conseguiu superar este período negro, e saiu com a determinação de passar o que restava de sua existência lutando. Mas na primavera de 2015, os médicos disseram-lhe que não viveria até o Natal. A opção do transplante da medula de um doador foi considerado por um médico. Em Londres, Castillejo conheceu Ian Gabriel, especialista em transplante de medula para o tratamento do câncer, inclusive para pessoas com HIV. Gabriel explicou que a origem latina de Castillejo poderia complicar a busca de um doador de medula.

No entanto, para surpresa de todos, Castillejo conheceu diversos doadores, inclusive um alemão – talvez uma herança do pai meio holandês – que tinha uma mutação crucial chamada delta 32 que impede a infecção por HIV. Gabriel falou com ele da novidade no outono de 2015.

“Depois do seu telefonema, fiquei com um enorme sorriso no rosto”, lembrou Castillejo. “Foi aí que começou a minha jornada como PL”. No final de 2015, a carga viral de Castillejo voltou com o HIV, adiando o transplante em vários meses enquanto os médicos ajustavam os seus medicamentos. Ele recebeu o transplante no dia 13 de maio de 2016.

Durante o ano seguinte, Castillejo passou meses no hospital. Perdeu quase 32 quilos, contraiu infecções múltiplas e sofreu várias operações. Teve perda parcial da audição e começou a usar um aparelho auditivo. Os seus médicos não sabiam como introduzir os remédios contra o HIV na sua boca cheia de úlceras. Um ano mais tarde, à medida que foi se fortalecendo, começou a pensar em deixar os remédios do HIV para ver se estava livre do vírus. Tomou as últimas drogas antirretrovirais em outubro de 2017. Em março de 2019, Gupta anunciou que ele estava curado.

Outros pacientes da comunidade de HIV sentiram-se confortados por esta notícia, mas expressaram o seu temor pela privacidade e pela saúde mental de Castillejos.  Entretanto, ele disse que considera PL a sua identidade “de trabalho” e está determinado a viver plenamente a sua vida privada. Mas nas conversações, ainda se refere a si mesmo como PL e não Adam. “Quando você me chama PL, fico mais calmo”, disse. “Adotar PL como meu nome foi um grande passo”. / TRADUÇÃO DE ANNA CAPOVILLA

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