Christopher Polk/Getty Images
Christopher Polk/Getty Images

Segundo demonstram seus maiores astros, o hip-hop está evoluindo

Idade aproxima rappers, como Jay-Z, Kanye West, Drake e J. Cole, de um acerto de contas na carreira

Jon Caramanica, The New York Times

22 Julho 2018 | 10h45

Faz tempo que o hip-hop gira em torno de super-heróis, e há poucas coisas mais inquietantes do que observar enquanto os poderes de um super-herói começam a falhar.

Os superastros das gerações anteriores do hip-hop costumavam viver seus anos após o auge da carreira relativamente longe dos holofotes. Quando se viam exercendo uma influência menor, isso raramente transparecia ou transformava sua narrativa pública.

Mas, então, o hip-hop começou a crescer exponencialmente. Isso significou um maior número de artistas disputando uma fatia do horário nobre, obrigando quem está por cima a desbravar novos territórios, agora como nomes ainda populares que estão chegando à uma idade mais avançada. Esses astros que já passaram do auge estão lidando com suas questões publicamente, em seus álbuns, para que todos ouçam.

Nos três meses mais recentes, quatro superastros lançaram álbuns que lidam com aquilo que um rapper dominante no gênero faz quando este gênero começa a ultrapassá-lo: Kanye West lançou “Ye” (além de colaborações com outros artistas); Drake lançou “Scorpion”; J. Cole lançou “KOD”; e Jay-Z lançou “Everything Is Love”, juntamente com a mulher, Beyoncé, apresentando-se como a dupla Carters.

Esses acertos de contas assumem diferentes formatos. No caso de West, trata-se do reconhecimento da fragilidade de sua saúde mental. Para Cole, temos uma repreensão dirigida à nova geração. Já Jay-Z aceita sua estatura pública diminuída. E Drake - que agora parece o membro mais novo dessa geração mais velha, embora até recentemente fosse o membro mais velho da nova geração - lida com a tensão de uma transição do papel de aluno para o de professor, percebendo que nossos professores não são melhores do que nós.

Dentre esses rumos, o escolhido por West é o mais radical em termos da sua maneira de lidar com o fantasma da obsolescência. Em sua parceria com Pusha-T em “What Would Meek Do?”, do álbum “Daytona", West comenta a visão que os críticos têm dele: “Sabe como é, ele perdeu a sintonia com o público". Mas os defeitos de West também são reais, e ele comenta publicamente seus problemas de saúde. 

“Pulseirinha de hospital e notas de cem", canta ele em “Yikes", uma referência ao episódio em que foi hospitalizado em 2016 por fadiga.

Vemos então o herói que caminha para o crepúsculo. “É meu superpoder!” grita West no final de “Yikes", falando a respeito do seu diagnóstico de bipolaridade. “Não é uma deficiência!”

Para Jay-Z, a aceitação desse momento pós-auge começou no ano passado com “4:44", um álbum direto e mais meditativo de um artista já habituado a se examinar, mas que raramente fez disso uma característica central de sua máscara pública. Mas os atritos da vida conjugal são conhecidos por ensinar os mais orgulhosos a serem realistas, e a trajetória pública mais recente de Jay-Z tem sido definida por uma espécie de pouso suave.

Quando se apresentou ao lado da mulher, como ocorreu no Coachella, ele pareceu menor. O experiente rapper sabe o que as crianças estão dizendo a seu respeito: “Na internet me chamam de ‘tio’ na brincadeira", canta ele em “Heard About Us".

Durante “Everything Is Love", ele é a força menos presente. É sempre encantador ouvir os versos dele a respeito do amor pela mulher, especialmente ao lidar com as próprias falhas: “Minha primeira vez no mar foi exatamente como o esperado/Enquanto isso, você dava tudo de si, pulando do andar mais alto/Um salto de fé, e eu sabia que em seguida seria a minha vez".

Há uma década, seria improvável imaginar um superastro do rap comentando algum tipo de fraqueza em si, ainda mais do tipo que vem com a idade (nesse sentido, Eminem é uma exceção). Mas, conforme a vida o afasta do centro do rap, Jay-Z segue provocando ao reimaginar as fronteiras do gênero e sua data de validade.

Descobrir que o rei está nu é uma experiência difícil do ponto de vista emocional e, assim sendo, não surpreende que Drake tenha mergulhado nesse território com tamanha eficácia. Em “Emotionless", ele canta, “Conhecer meus heróis é como desmascarar os truques de mágica/As pessoas que eu admirava vão de mal a pior".

Em comparação, Cole volta seu olhar para dentro, pensando na geração de rappers do SoundCloud que se divertia às custas dele. Em “1985 (Intro to ‘The Fall Off’)", ele se dirige a esses tipos a partir da perspectiva de um irmão mais velho que já viu de tudo: “Parabéns por ter saído da casa da sua mãe/Espero que ganhe o bastante para dar a ela uma casa".

Tomados em conjunto, esses artistas representam três gerações de superastros do hip-hop. O que marca a fase atual de suas carreiras e a sua maneira de interagir com as gerações anteriores e seguintes.

Encontrou algum erro? Entre em contato

O Estadão deixou de dar suporte ao Internet Explorer 9 ou anterior. Clique aqui e saiba mais.