Diana Zeyneb Alhindawi / The New York Times
Diana Zeyneb Alhindawi / The New York Times

'Seke', língua rara não escrita, corre o risco de sumir do mapa

Falada apenas em cinco aldeias do Nepal, a língua soma cerca de 700 falantes, mas pode desaparecer em uma geração

Kimiko De Freytas-tamura, The New York Times

05 de fevereiro de 2020 | 06h00

O edifício de apartamentos, no Brooklyn, é uma colmeia de nacionalidades. Recentemente, uma mulher paquistanesa entrou no elevador, e depois dela entraram uma enfermeira nepalesa e o zelador, um jamaicano. Esta não era uma cena incomum em Nova York, uma das cidades mais cosmopolitas do mundo. Mas este edifício de tijolinhos também abriga em seus sete andares algumas das últimas pessoas que falam uma língua rara não escrita, do Nepal, que os linguistas temem desaparecer em uma geração.

A língua, o seke, é falada apenas em cinco aldeias em uma parte do Nepal chamada Mustang, próxima da fronteira com o Tibet. No mundo, existem somente cerca de 700 falantes do seke, segundo um recente estudo realizado pela Endangered Language Alliance, organização sediada em Nova York que se dedica à preservação das línguas raras na cidade. Há pouco mais de 100 deles em Nova York, e cerca da metade vive no edifício de apartamentos.

“Eu moro no quinto andar. Meu tio mora no segundo, meus primos no sexto, e um amigo da família no primeiro”, disse Rasmina Gurung, de 21 anos, que veio para Nova York há oito anos de Chuksang, uma das cinco aldeias do Nepal onde o seke é falado.

Ross Perlin, diretor da aliança, disse que é uma questão de justiça preservar a diversidade linguística. “As línguas não estão morrendo de morte natural”, afirmou. “Estão desaparecendo porque as pessoas foram marginalizadas, pressionadas, e  passaram a não se sentir à vontade falando a própria língua”.

Muitos dos falantes de seke eram produtores de maçãs que partiram depois que invernos mais rígidos e precipitações atmosféricas irregulares em razão da mudança climática tornaram mais difícil viver no campo.

No Nepal, as crianças muitas vezes são mandadas para escolas em cidades como Katmandu e Pokhara, onde predomina o nepalês. Muitos nepaleses absorveram também o híndi da televisão.

Tradutor de Nova York, Nawang Gurung disse que nos Montes Himalaias são faladas mais de 100 línguas tibetano-burmanesas, mas não são reconhecidas pelo governo nepalês. “É o suicídio de uma língua”, frisou Gurung, que não é parente de Rasmina. Há outros fatores causadores da morte do seke, continuou ele. Em Nova York, os falantes nativos em geral trabalham por muitas horas e têm pouco tempo para ensinar os filhos.

As pessoas mais jovens que falam o seke preferem aprender línguas mais comuns, como espanhol ou mandarim. “O que elas questionam é: ‘Para que aprender a língua se ela não será usada no futuro?”, questionou Gurung.

Em vez disso, na diáspora nepalesa foi se criando um novo dialeto chamado ramaluk, acrescentou, que mescla palavras de inglês, nepalês, híndi e algum seke.

No entanto, ele espera que os falantes de seke de Nova York possam ajudar a preservar um pouco mais a língua, porque estão muito próximos entre si. “No seu país, leva dois dias a cavalo e longas horas de caminhada para chegar a uma aldeia”, comparou. “Aqui, são apenas duas estações de metrô”. / TRADUÇÃO DE ANNA CAPOVILLA

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