Maxime Fossat / The New York Times
Maxime Fossat / The New York Times

Sem dinheiro, Rússia cede espaço à influência da China

Pequim usa verba para aumentar sua entrada na Ásia Central; autoridades encontraram irregularidades em licitações de alguns contratos chineses

Andrew Higgins, The New York Times

18 de julho de 2019 | 06h00

BISHKEK, QUIRGUISTÃO - As autoridades do Quirguistão sabiam que a decisão era inadiável. Uma antiga usina que fornecia quase todo o aquecimento e eletricidade da capital do país estava nas últimas. Enquanto as autoridades pesavam as propostas rivais para a reconstrução da usina, cartas chegaram ao ministério da energia do Quirguistão e ao ministério das relações exteriores tendo como remetente a Embaixada Chinesa em Bishkek, capital do país. A correspondência “recomendava” enfaticamente uma empresa chinesa chamada TBEA.

Não se tratava de mera recomendação. A China acenava com a possibilidade de um empréstimo para o Quirguistão, país centro-asiático de 6,2 milhões de habitantes, mas deixou claro que isso dependia da escolha da sua empreiteira. Acreditando não haver opção, autoridades quirguizes escolheram a TBEA, empresa de experiência modesta na construção e reparo de usinas de energia.

A decisão de escolher a TBEA em vez de uma empresa russa mais experiente, em 2013, resultou em desastre. No ano passado, pouco após o fim da reforma, a usina teve um apagão, deixando boa parte de Bishkek sem aquecimento e energia no auge do inverno. A indignação pública e o julgamento agora em andamento em Bishkek expuseram as práticas de negócios chinesas e a corrupção local. O escândalo destaca também uma mudança no eixo da economia e geopolítica da Ásia Central.

“Há uma grande disputa oculta ocorrendo entre Rússia e China pela preponderância na Ásia Central", avaliou Rasul Umbetaliev, ex-funcionário do governo do Quirguistão e especialista em energia. A Rússia recebe mais apoio da população local, que frequentemente fala russo e sonha com Moscou como destino para trabalho ou estudo, mas “os russos não têm dinheiro".

O capital chinês está no centro do julgamento do ex-primeiro-ministro quirguiz Sapar Isakov e de outros ex-funcionários do governo acusados de corrupção em Bishkek por causa do contrato da TBEA. Os promotores dizem que a licitação fraudada e o preço inflado custarão ao Quirguistão US$ 111 milhões. Isakov disse que a TBEA foi escolhida pela República Popular da China, uma decisão que cabia à China tomar, “já que o país financiou o projeto de modernização”.

Uma comissão criada pelo parlamento quirguiz encontrou irregularidades amplas na licitação e execução do contrato. “Algo cheirava mal nesse projeto inteiro desde o início, mas, se não fosse pelo acidente, ninguém teria notado", afirmou o legislador Iskhak Masaliev, membro da comissão.

Os empréstimos do Banco Chinês de Importações e Exportações ao Quirguistão, que somavam apenas US$ 9 milhões em 2008, explodiram para mais de US$ 1,7 bilhão. De acordo com algumas estimativas, o valor dos projetos de infraestrutura financiados pela China chegaria a US$ 2,2 bilhões, quase um terço da produção econômica anual do Quirguistão.

O diretor da usina, Nurlan Omurkul, disse que teve dúvidas diante da contratação de uma empresa sem nenhuma experiência na construção de usinas de energia, mas foi pressionado por funcionários do alto escalão do governo quirguiz a apoiar uma decisão que, de acordo com eles, já tinha sido tomada. “Trabalhei a vida toda em usinas de energia e aquecimento, e sempre soube que o valor cobrado pelos chineses, US$ 386 milhões, era muito alto", calculou. 

A concorrente russa, Inter RAO, fez uma proposta de US$ 518 milhões, mas em termos muito diferentes. A empresa russa se ofereceu para investir seu próprio dinheiro na construção de uma usina inteiramente nova em troca de uma participação na propriedade e na receita futura.

Masaliev, o legislador da comissão parlamentar, conhece os russos e trabalha com eles há décadas. Mas a China, país a respeito do qual ele pouco sabe além do fato de dispôr de muito dinheiro e muita gente, o deixa nervoso. “É claro que temos medo. Uma pequena cidade chinesa tem mais habitantes que a população do nosso país". / TRADUÇÃO DE AUGUSTO CALIL

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