Tomas Munita para The New York Times
Tomas Munita para The New York Times

Senegaleses estão de olho nas estrelas

País recebeu cientistas dos Estados Unidos e da França, o que possibilitou o contato da população com os astros

Jaime Yaya Barry e Dionne Searcey, The New York Times

25 Agosto 2018 | 11h00

DAKAR, SENEGAL - Quando Salma Sylla era criança, tentava encontrar alívio para o calor do verão senegalês indo dormir em cima do telhado de sua casa. Inquieta e com o corpo superquente, passava a noite acordada, olhando para as estrelas.

A região onde ela morava, nos arredores da capital, Dakar, não tinha eletricidade, então o firmamento brilhava. Ela tentava contar as estrelas e ia percebendo que algumas brilhavam mais em algumas noites do que em outras.

Sylla, agora com 37 anos, ficava intrigada. Mas não era fácil estudar as estrelas no Senegal: os cursos do ensino médio eram limitados; as bibliotecas raramente tinham livros sobre o espaço; os telescópios eram poucos e caros.

Pouca coisa mudou muito desde que Sylla era menina; as oportunidades no campo da astronomia são extremamente limitadas nas universidades do Senegal. Mas as autoridades daqui querem mudar essa situação, esforço que faz parte de uma missão para melhorar as habilidades científicas, tecnológicas, matemáticas e de engenharia do país, por meio do fortalecimento dos programas universitários e da construção de um centro de ciência e pesquisa.

O empreendimento faz parte do programa “Senegal emergente”, uma ampla estratégia de desenvolvimento do presidente Macky Sall, a qual também inclui planos para um planetário.

O esforço ganhou mais impulso recentemente, quando o Senegal recebeu mais de três dezenas de cientistas dos Estados Unidos e da França, parte do programa New Horizons [Novos horizontes], da NASA. Os cientistas se espalharam pelo interior do país, na esperança de observar a silhueta projetada por um antigo pedaço de rocha que orbita para além de Plutão, no instante em que passasse na frente de uma estrela brilhante.

A observação foi planejada para ajudar a equipe a se preparar para quando a espaçonave New Horizons passar pelo objeto - apelidado de Ultima Thule (Além do Mundo Conhecido) - na véspera do Ano Novo.

“Esta é a mais distante exploração de qualquer coisa que já tenha ocorrido no espaço”, disse Alan Stern, líder da missão da NASA. “Estamos muito, muito longe de lá”.

Partes do interior do Senegal não têm eletricidade e muitas áreas são escassamente povoadas. Isso foi uma vantagem para os cientistas, que queriam um céu claro, sem luz artificial. Ainda assim, o Senegal era uma proposta arriscada. As nuvens ameaçaram ocultar o evento, que ocorreu em 4 de agosto e durou menos de um segundo.

Os cientistas ainda estão avaliando os dados da observação, mas os céus estavam claros e eles estão esperançosos.

Cerca de duas dúzias de astrônomos e cientistas senegaleses - incluindo Sylla, que agora é a primeira doutoranda em astronomia na Universidade Cheikh Anta Diop, em Dakar - acompanharam a equipe da New Horizons no estudo de campo.

Outros países africanos também viveram suas próprias conquistas espaciais. Astrônomos marroquinos descobriram cometas, asteroides e planetas fora do nosso sistema solar. O primeiro satélite de Gana agora está orbitando a Terra. Estudantes na Tunísia organizaram eventos públicos para observar o céu.

“A astronomia é tão popular na África quanto em qualquer outro lugar do mundo”, disse David Baratoux, presidente da Iniciativa Africana para Ciências Planetárias e Espaciais, que trabalha na França.

O maior obstáculo é o dinheiro. Os Estados Unidos gastam mais em seu programa espacial do que o valor da economia senegalesa inteira. Os 21 telescópios de alta potência trazidos pela equipe da New Horizons eram quase o dobro do número de telescópios disponíveis em todo o Senegal.

A equipe da New Horizons espera que os telescópios no Senegal, junto com um punhado de outros telescópios na Colômbia e alguma ajuda do Hubble, respondam a algumas perguntas sobre o Ultima Thule antes da chegada de sua espaçonave. Por exemplo: a rocha tem forma de batata, ou são dois objetos orbitando um em volta do outro?

Em um teste para a observação, tarde da noite, a equipe da New Horizons se espalhou pelo gramado de um centro de conferências para resolver alguns problemas nos equipamentos. O maior contratempo ocorreu quando alguém acidentalmente ligou o sistema de irrigação.

Os cientistas permitiram que qualquer pessoa que passasse pelo estacionamento próximo dali desse uma olhada em Saturno e Marte. Alunos que estudaram astronomia por meio de cursos online fizeram uma longa fila. Pais ergueram os filhos pequenos até o visor do telescópio. O ministro do Ensino Superior deu uma espiadinha.

“Humm”, foi tudo que uma mulher conseguiu dizer, balançando a cabeça, como se não acreditasse no que estava vendo.

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