Bob Strong/Reuters
Bob Strong/Reuters
Alden Wicker, The New York Times - Life/Style

09 de março de 2021 | 05h00

É possível que nenhum filme descreva melhor o papel do casaco de vison na cultura pop americana do que Disque Butterfield 8, de 1960, estrelado por Elizabeth Taylor no papel de uma socialite promíscua que rouba um casaco de vison provocando uma cadeia de eventos que levam ao seu fim trágico.

Na época, casacos de vison eram o ápice do luxo e da elegância. A campanha do Blackglama  "O que é que se torna uma lenda por excelência?", que anunciava casacos feitos de lustrosos visons pretos americanos da região dos Grandes Lagos, apresentava um desfile das maiores atrizes e divas do período, como Bette Davis, Judy Garland e Barbra Streisand em 1968, e Janet Jackson em 2010 e 2011. No seu ponto mais alto, no início dos anos 80, um casaco de visão custava de US$ 8 mil a US$50 mil, mas podia custar acima de US$ 400 mil se fosse um vison russo totalmente preto, inclusive na barriga.  

Hoje, a história é diferente. “Os casacos de vison tornaram-se obsoletos”, disse Laura Sophie Cox, uma celebridade, e editora de uma revista britânica.

Na Dinamarca, no final de novembro, alguns dos corpos inchados de milhões de visons abatidos por ordem do governo, no início daquele mês, temendo uma mutação da covid potencialmente resistente à vacina, levantaram do chão como zumbis. Em consequência do abate, a maior casa de leilões do mundo, a Kopenhagen Fur, anunciou que fecharia.

A Macy’s e a Bloomingsdale’s estão liquidando até o último dos seus casacos para poderem fechar os salões de peles. Um ano atrás, a Califórnia aprovou a proibição da venda de novos produtos de peles, que entrará em vigor em 2023. Muitas marcas de luxo, como a Burberry, Chanel, Coach, Giogio Armani, Ralph Lauren e Versace, baniram as peles.

O casaco de vison raspado da Row’s de $ 23.900, disponível na Bergdorf Goodman, é o remanescente de várias estações passadas, segundo um representante da marca. Enquanto isso, o comércio de peles foi proibido na Grã-Bretanha, Bélgica, Alemanha e Irlanda. A Holanda deverá fechar suas fazendas de criação de visons até 2024, e a França até 2025.

E mesmo para os que continuam apaixonados por esta pele, o casaco de vison perdeu seu atrativo. “Nos anos passados, um casaco de vison clássico era algo eterno,” disse Nicholas Sekas, um peleteiro de Nova York cujo pai fundou a Sekas International em 1961, especializada em visons. “O marido costumava chegar aqui com a esposa para comprar um casaco de vison. Agora, as mulheres entram, e sabem o que querem comprar. Nem é um casaco, é uma jaqueta ou um colete”. Hoje o vison representa apenas a metade do seu negócio.

O começo do declínio do casaco de vison pode ser fixado no crack da bolsa de 1987, que derrubou muitos destacados peleteiros. Como diversos dos seus concorrentes, a Sekas International foi obrigada a se diversificar oferecendo outras peles para sobreviver. Peleteiros famosos como Ben Kahn aposentaram-se, ninguém queria ou teria condições de assumir o seu lugar e voltar aos dias de glória.

No entanto, quando Laura Coffey, uma compradora de peles no atacado, começou a trabalhar em meados dos anos 90 em San Antonio,  no local da loja de departamentos Julian Gold, do Texas, um estabelecimento de alto nível, ela lembra que jaquetas de visões, os casacos até os joelhos e os casacos longos representavam pelo menos 90% das mercadorias do salão. O vison criado em fazendas, durável e abundante, com uma variedade de cores naturais do branco prateado ao preto amarronzado, era considerado um investimento e uma peça forte do guarda-roupa, para os que tinham posses.

“Quando a China entrou no mercado, tudo mudou“, afirmou Coffey. O vison chinês, um setor que cresceu rapidamente nos anos 90, segundo informes do Departamento da Agricultura dos EUA e a ACTAsia, uma organização internacional para os direitos dos animais, era de qualidade inferior, mas a mais acessível.

Entrou em voga a pele de coelho da raça Rex, que batia a do vison em preço e maciez. As mulheres começaram a procurar casacos que marcam a sua silhueta, e jaquetas de pele leves. Os peleteiros saíram à caça de tendências, com tintas coloridas, coletes, cardigans aparados e jaquetas de couro.

“Aqueles enormes casacos, cheios de glamour, maravilhosos, sumiram”, disse Coffey melancolicamente. “As coisas começaram a diminuir de tamanho, mais como um acessório do que um momento. Se um cliente me dissesse que queria um casaco de vison longo, eu teria dificuldade em encontrar”. Recentemente, o salão sazonal das peles de Julian Gold hospedou um evento de compras populares de casacos de vison  bem peludos Birkenstocks.

Por sua vez, 2020 trouxe uma nova série de desafios para o casaco de vison, ambientais e culturais.

Ao contrário do coelho ou do couro, o casaco de vison não é um subproduto da indústria de alimentos, tampouco sustenta uma economia indígena. Os visons são também carnívoros, portanto a sua alimentação carrega uma forte pegada ambiental, segundo uma análise do ciclo de vida encomendada por dois grupos europeus de defesa dos direitos dos animais.

Ao mesmo tempo, segundo uma análise do ciclo de vida encomendada  pela Federação Internacional do Comércio de Peles, um casaco de pele de vison natural produz um efeito menor do que um casaco de pele fake em termos de duração, pressupondo que o casaco de pele de vison será usado e durará 30 anos, e frequentemente é reciclado segundo uma moda nova, enquanto a duração da pele fake é de em torno de seis anos, antes de ser jogada no depósito de lixo.

Agora, com milhões de pessoas desempregadas, o público se revolta contra a extravagante exibição de riqueza.

“Enquanto há ainda partes do mundo e segmentos da população que compram casacos de pele e de vison, os consumidores, principalmente os mais jovens, exigem cada vez mais trajes sem peles”, disse Sarah Willersdorf, a diretora global do luxo do Boston Consulting Group. Ela salientou a pesquisa True Luxury do BCG, que  informa que o bem-estar dos animais é a mais importante consideração ética e ambiental para os consumidores, entre os quais a metade o considera  um critério mínimo na hora de adquirir um produto.

E os que não querem desistir completamente de suas heranças de família procuram algo menos opulento para mostrar.

“Pessoas mais jovens querem algo um pouco mais divertido ou prático”, disse Sekas, observando que o setor de reformas da Sekas Internacional esteve muito ocupado este ano com clientes mais jovens que estão limpando as próprias gavetas e transformando um casco antigo da vovó em almofadas  e cobertores. Recentemente, uma cliente pediu para transformar o casaco da tia em seis ursinhos para os sobrinhos. /TRADUÇÃO DE ANNA CAPOVILLA

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