Noriko Hayashi / The New York Times
Noriko Hayashi / The New York Times

Será que a funcionária conseguirá sair no fim do expediente?

Filme retrata rotina exagerada de trabalho no Japão, país que registrou, em 2017, 190 mortes por exaustão, ataque cardíaco ou suicídio

Ben Dooley e Eimi Yamamitsu, The New York Times

21 de julho de 2019 | 06h00

TÓQUIO - No primeiro semestre do ano, enquanto muitos acompanhavam a temporada final de Game of Thrones, o Japão estava sintonizado no seu próprio mundo fantástico da TV: a história de uma mulher que ousa sair do trabalho pontualmente às 18h. A determinação da gerente de projetos Yui Higashiyama, pouco mais de 30 anos, que deseja sair do escritório e chegar logo ao bar para o happy hour, abala a firma de design para a qual ela trabalha. Um supervisor trapaceiro e colegas de trabalho tentam frustrar os planos dela. 

Interpretada por Yuriko Yoshitaka, Yui é a protagonista de Não farei hora-extra e ponto final! - um modesto sucesso da TV que ressoou em um país que observa uma ética de trabalho perigosamente intensa, levando os trabalhadores a comentar a respeito de suas próprias dificuldades no equilíbrio entre o trabalho e o restante do seu tempo. “Eu sempre pensei que fazer pausas era coisa de trabalhadores folgados", disse Kaeruko Akeno, autora do romance que inspirou o programa. “Levei muito tempo para aceitar o fato de que não há problema se não trabalharmos à noite ou no fim de semana”.

Os trabalhadores japoneses estão entre os que dedicam mais horas semanais ao trabalho em todo o mundo. Em 2017, mais de um quarto dos empregados em período integral no país trabalharam uma média de mais de 49 horas por semana, de acordo com relatório do governo, e o excesso de trabalho custou a vida de 190 pessoas, mortas de exaustão, ataque cardíaco ou suicídio.

O governo japonês adotou medidas para reduzir a jornada de trabalho exagerada. Em abril, entrou em vigor uma nova lei limitando as horas extras a 45 horas por mês ou 360 horas por ano. A ideia segundo a qual o trabalho exige um sacrifício pessoal é profundamente enraizada na cultura japonesa, agravando outros problemas. O fato de a série ser protagonizada por uma mulher torna a trama mais dramática em um país no qual as mulheres - e especialmente as mães - são discriminadas no ambiente de trabalho. “Ao simplesmente dizer ‘não vou fazer hora extra’, a heroína do programa comete um ato de rebeldia radical", escreveu no Twitter o crítico de cinema Tomohiro Machiyama.

Kaeruko, que assina com pseudônimo, escreveu o romance com base nas próprias vivências. Quando ela se formou na universidade, no início dos anos 2000, o Japão atravessava uma desaceleração profunda, e era difícil achar trabalho. As pessoas que amadureceram nessa época “se sentem inseguras em relação ao emprego", lembrou. “Tememos que, se não formos úteis para as empresas, seremos descartados”.

Uma força de trabalho cada vez mais velha e uma recente sequência de crescimento econômico tornaram os trabalhadores mais valiosos. Não farei hora-extra e ponto final! explora as mudanças na mentalidade em relação ao trabalho entre a geração millennial e os mais velhos.

Já Kaeruko segue trabalhando bastante. Como a heroína do seu romance, ela nunca se imaginou no centro de uma disputa envolvendo a duração da jornada de trabalho. Tudo que ela queria era trabalhar um pouco menos para aproveitar mais a vida. Mas, graças ao sucesso do livro, isso se tornou um sonho difícil. “Falo da minha experiência por necessidade. Gostaria que alguém fizesse isso por mim”. / TRADUÇÃO DE AUGUSTO CALIL

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