Omar Moner via The New York Times
Omar Moner via The New York Times

Série de ataques contra mulheres faz soar alerta no Iraque

Aumentam, no país, os temores de um plano para silenciar quem se manifesta

Megan Specia, The New York Times

06 Outubro 2018 | 06h00

Tara Fares era uma estrela das redes sociais cujo estilo de vida cuidadosamente representado em fotos de moda atraiu mais de 2,7 milhões de seguidores no Instagram.

No dia 27 de setembro, ela foi morta durante o dia em Bagdá, o mais recente de uma série de ataques que funcionários do governo estão investigando como casos relacionados. Tara, que à época tinha 22  anos, que foi campeã de concursos de beleza e uma das personalidades mais seguidas nas redes sociais do Iraque, levou três tiros enquanto dirigia seu conversível branco no chique bairro de Camp Sarah, na capital iraquiana.

"Ela era linda e gentil e queria ser feliz e viver como a maioria de nós: livre do ódio e das limitações", disse o fotógrafo Omar Moner, amigo dela. "Mas, aqui no Iraque, ninguém aceita a liberdade do outro".

Alguns dizem que as mortes recentes de pelo menos quatro mulheres jovens de destaque - todas vistas como pessoas que expunham seus pensamentos e não se submetiam às normas de uma sociedade conservadora - são sinal de uma possível campanha deliberada para silenciá-las. Outros acreditam que as mortes são episódios de violência sem relação entre si.

No dia seguinte à morte de Tara, o primeiro-ministro iraquiano, Haider al-Abadi, ordenou que o assassinato fosse investigado. Ele disse que as autoridades vão explorar um possível elo entre este crime e outros assassinatos e sequestros recentes. Segundo ele, as mortes "dão a impressão de haver um plano por trás desses crimes". Dois dias antes do ataque contra Tara, a ativista Suad al-Ali, que defendia os direitos das mulheres, foi baleada e morta em Basra.

Nibras al-Maamouri, diretora do Fórum das Jornalistas Iraquianas, disse que a morte de Tara pode estar ligada às mortes de Rasha al-Hassan e Rafif al-Yasiri, duas técnicas em beleza mortas em Bagdá no intervalo de uma semana em agosto.

"O assassinato de mulheres em plena luz do dia é uma mensagem para confundir a situação de segurança em Bagdá, enfraquecendo a confiança dos cidadãos", disse o parlamentar Mohammad Nasir al-Karbouli.

Tara, nascida em Bagdá, deixou a cidade três anos atrás para viver em Erbil, na região do Curdistão iraquiano, pois se sentia mais segura, de acordo com amigos. Recentemente, ela tinha voltado a passar mais tempo em Bagdá.

Nas fotos de sua conta no Instagram, ela fazia poses para a câmera usando perucas, maquiagem elaborada e vestidos justos, com os braços cobertos de tatuagens. Em seus vídeos no YouTube, que chegaram a centenas de milhares de visualizações, ela aparece cantarolando canções pop, ensinando a aplicar maquiagem, abrindo presentes de fãs e comentando os melhores restaurantes de Erbil. Embora tenham atraído comentários de fãs, os vídeos receberam também mensagens de ódio.

"Ela seguia um estilo de vida muito ocidental - vestia-se como desejava e fazia basicamente tudo o que os conservadores tentam negar. Era uma modelo normal do Instagram, mas isso não é considerado normal na nossa sociedade", comentou Daryna Sarhan, fundadora de uma revista de estilo de vida em Erbil e antiga seguidora de Tara no Instagram.

Mesmo depois de morta, Tara não se livrou das críticas, com um jornalista da emissora iraquiana Media Network a descrevendo como "vadia",além de outros comentários publicados nas redes sociais dizendo que ela mereceu esse destino por levar uma "ida trivial e vazia".

"Acredito que isso seja um recado: 'não sejam como Tara se não quiserem acabar como ela'".

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