Bryan Anselm / The New York Times
Bryan Anselm / The New York Times

Série de suicídios dentro da polícia abala corporação

Em Nova York, número de policiais que se matam anualmente é maior do que o de mortes de agentes no cumprimento do dever

Ashley Southall, The New York Times

28 de julho de 2019 | 06h00

O primeiro foi o vice-chefe, obrigado a se aposentar ao completar 63 anos. No dia seguinte, foi a vez de um veterano detetive do setor de homicídios, que havia convencido dezenas de pessoas a desistirem do suicídio. Uma semana mais tarde, foi um jovem patrulheiro que tratava de casos de violência doméstica, e estava em pleno processo de divórcio. Depois, um policial veterano foi encontrado morto em sua casa em Long Island.

Os quatro policiais tiraram a própria vida no mês de junho último com as suas armas de serviço, revelando uma realidade desconfortável: em Nova York, são mais numerosos os policiais que se suicidam, todos os anos, do que os que morrem no cumprimento do dever, e os esforços do departamento para persuadir os infelizes que perderam a esperança para tentar aconselhá-los só têm tido um sucesso limitado.

Os pesquisadores afirmam que os policiais são um grupo de pessoas que correm um risco maior do que as que realizam qualquer outro tipo de trabalho, por causa do stress intenso exigido por sua ocupação, da pressão dos colegas para esconderem as próprias emoções, e pelo fácil acesso a armas de fogo. Os recentes suicídios levaram o comissário James P. O’Neill a declarar uma crise de saúde mental e a orientar os policiais a procurarem ajuda. “Não há nenhuma vergonha em buscar assistência considerando os vários recursos disponíveis”, afirmou O’Neill em uma mensagem dirigida aos seus 36 mil subordinados. “Aceitar ajuda nunca é sinal de fraqueza - na realidade, é um sinal de grande força interior”.

Os policiais da cidade têm opções para receberem ajuda confidencial, desde os capelães do departamento e os grupos de suporte até as linhas telefônicas seguras e às mensagens de texto. Mas, para muitos deles, a vulnerabilidade emocional é incompatível com o seu desejo de serem  vistos como heróis, afirmam pesquisadores. Muitos policiais que precisam de aconselhamento engolem o seu sofrimento, temendo que, se procurarem ajuda, suas carreiras ou o seu relacionamento com outros colegas sejam prejudicados. 

“Os policiais sempre hesitam muito a procurar assistência”, argumentou John Violanti, epidemiologista da State University de Nova York em Buffalo, ex-policial daquele estado. “A cultura praticamente obriga a pessoa a não ter problemas, a ser uma espécie de RoboCop e a não se deixar afetar pela emoção. E todos nós sabemos que isto não é possível porque somos humanos”.

Independentemente das garantias que o Departamento de Polícia dá - o “emprego” em última instância - a policiais com problemas, muitos acreditam que sempre permanecerá um estigma, e que procurar ajuda psicológica causará uma mudança rápida da posição do indivíduo. “O emprego diz que você está aqui para se preocupar com você mesmo, mas a regra Número 1 é que o emprego está aí para proteger o seu emprego”, apontou William P. Ryan, detetive aposentado. "Se você diz que está deprimido ou sei lá o quê, eles mudam você. Eles tiram as suas armas”.

Violanti afirmou que o stress reprimido por causa da própria vida e do trabalho na polícia, somado ao acesso constante às armas, faz com que seja mais fácil para os policiais agir em um impulso suicida. Em geral, eles correm um risco 54% maior de se suicidarem do que os outros trabalhadores, afirmou. No entanto, os programas de suporte provaram ser eficientes evitando os suicídios e deixando aos policiais outras opções.

“A maioria das pessoas que têm tendências suicidas não quer morrer, mas talvez elas não vejam outras alternativas”, disse o tenente Richard I. Mack, voluntário da Police Organization Providing Peer Assistance. O programa sem fins lucrativos contra o suicídio foi criado em 1996, depois que 26 policiais tiraram a própria vida no prazo de dois anos.

Edwin C. Roessler Jr., um chefe de polícia da Virginia, disse que tentou dar o exemplo, contando aos policiais sobre a sua decisão de procurar um terapeuta em 2010. Inicialmente a resposta foi “a indiferença total”, mas mais tarde eles disseram: “Chefe, está na hora de a gente fazer alguma coisa para tratar disso’”.

Uma dificuldade para se tratar da questão do suicídio entre policiais é a falta de informação. Dados abrangentes não existem. Os departamentos de polícia não são obrigados a informar os suicídios a um organismo nacional, e algumas jurisdições os registram como mortes naturais a fim de proteger as famílias do embaraço ou impedir que elas percam os benefícios após a morte. “Precisamos saber mais sobre as dimensões e a natureza do problema e sobre as suas causas”, reconheceu Chuck Wexler, diretor executivo do Police Executive Research Forum, organização que trabalha para aprimorar o profissionalismo da polícia. “Em 2019, não sabemos que resposta dar a este problema”. / TRADUÇÃO DE ANNA CAPOVILLA

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