Michael Parmelee /Apple
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Série da Apple traz 'versão millennial' de Emily Dickinson

“Eu adoro ver a cultura pop despertar para uma Emily Dickinson ousada, forte, corajosa, engraçada”, disse Martha Nell Smith, especialista na poetisa da Universidade de Maryland

Jennifer Schuessler, The New York Times

17 de novembro de 2019 | 01h00

Quando ouvimos o nome Emily Dickinson, provavelmente pensamos na mulher virginal de branco, a reclusa Belle of Amherst, que morreu sem que sua “carta ao mundo” - como escreveu em um dos seus enigmáticos poemas - tivesse sido enviada. Mas Dickinson, a série que a Apple exibe atualmente em um novo serviço de streaming, pretende acabar com a ideia da poetisa como a dama amante de gatos da literatura americana, emocionalmente perturbada.

Vamos esquecer da mulher que fazia pão e amigos com flores. Esta é uma Dickinson, interpretada por Hailee Steinfeld, que passeia de carruagens à meia-noite com a Morte (o rapper Wiz Khalifa) e denuncia o patriarcado como -  para usar um eufemismo - ilegítimo. É também uma mulher que dá festas espetaculares (completas com playlist de hip-hop), experimenta o ópio e tem um caso com a sua melhor amiga (e futura cunhada).

Alena Smith, a criadora da série, a descreve como “a história do ingresso na idade adulta de uma jovem artista que estava à frente do seu tempo”. É também uma mulher cujos anacronismos e outras liberdades visam ressaltar uma questão grave. “Ela escreveu cerca de dois mil poemas que são uma das obras de maior vulto jamais escritas em inglês, quase nenhum deles foi publicado e reconhecido como imaginamos que signifique ser reconhecido enquanto ela viveu”, disse Smith, que se formou na School of Drama da Yale University.

Dickinson chega logo depois de dois filmes recentes sobre a poetisa. Mas se esta jovem Emily, mais relaxada e atraente da Apple, leva as coisas além dos limites, os estudiosos não lamentam. “Eu adoro ver a cultura pop despertar para uma Emily Dickinson ousada, forte, corajosa, engraçada”, disse Martha Nell Smith, especialista em Emily Dickinson da Universidade de Maryland. “Este personagem não é artificial”.

Embora a vida de uma mulher que passou as duas últimas décadas de sua vida confinada na casa da família possa aparentemente não registrar incidentes externos, a de Dickinson não deixou de ter dramas mundanos ou elementos horrivelmente góticos. Por exemplo, a primeira coletânea de poemas de Emily, publicada em 1890, quatro anos após a sua morte, foi coeditada pela amante do seu irmão, que assumiu a tarefa da cunhada da poetisa, Susan.

Esta foi também, segundo os estudiosos, o objeto de sua paixão erótica praticamente durante toda a sua vida. De fato, ela fez muito pão. Mas, conta o folclore da família, ela foi também conhecida por ter afogado gatinhos “supérfluos” em um tanque de salmoura para picles.

O esforço de criação de uma Emily Dickinson mais apresentável, compreensível, começou quase imediatamente após a sua morte, em 1886, quando sua irmã, Lavínia, encontrou cerca de 1,1 mil poemas seus em uma arca, copiados em folhas dobradas, e em grande parte costurados juntos à mão como livros. A primeira coletânea publicada dos seus poemas, de 1890, limpou a sua pontuação e grafia excêntricas, cortou estrofes e criou títulos, apresentando-a como uma poetisa mais convencional do que ela era.

Sua imagem física também foi manipulada. No final dos anos 1890; sua irmã contratou um artista para alterar o agora famoso daguerreótipo de Dickinson adolescente (a única fotografia autenticada dela), deixou o seu penteado severamente puxado para trás mais feminino, assim como o vestido preto simples, graças ao acréscimo de cachos e de uma gola de renda.

No século 20, os estudiosos retiraram a camada superficial vitoriana e restauraram a a poetisa radicalmente original que havia em baixo. Mas foi mais difícil abalar a imagem popular de Dickinson de uma reclusa frágil, à beira da morte. “As pessoas se sentem muito possessivas em relação a Emily Dickinson”, disse Alena Smith. “Porque ninguém a compreende, todos acham  que a visão que eles têm dela pelo buraco da fechadura é o correto”. / TRADUÇÃO DE ANNA CAPOVILLA

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